<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<?xml-stylesheet type="text/xsl" href="/rss.xsl" media="screen"?>
<rss version="2.0" xmlns:creativeCommons="http://backend.userland.com/creativeCommonsRssModule">
   <channel>
      <language>en</language>
      <creativeCommons:license>http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/uk/</creativeCommons:license>
            <pubDate>Thu, 1 Jan 1970 00:00:00 +0000</pubDate>
      <lastBuildDate>Thu, 1 Jan 1970 00:00:00 +0000</lastBuildDate>
            <ttl>60</ttl>
      <docs>http://www.audioscrobbler.net/data/webservices</docs>      <title>Hermes3megisto's Last.fm Journal</title>
      <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal</link>
      <description>The Last.fm journal for Hermes3megisto.
        Last.fm journals are a place to talk about all things music.</description>
      <item>
         <title>Al Gharb music by Snake from Snake's Revu Spirite video by Coelhomaluco</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2009/07/19/2vobey_al_gharb_music_by_snake_from_snake%27s_revu_spirite_video_by_coelhomaluco</link>
         <pubDate>Sun, 19 Jul 2009 15:56:51 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2009/07/19/2vobey_al_gharb_music_by_snake_from_snake%27s_revu_spirite_video_by_coelhomaluco</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode"><object width="425" height="350">                        <param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/S88Gx7_XczE"></param>                        <param name="wmode" value="transparent"></param>                        <embed src="http://www.youtube.com/v/S88Gx7_XczE" wmode="transparent" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350"></embed>                    </object></div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>Para Ontem, Para Hoje..., Para Sempre</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3j_para_ontem,_para_hoje...,_para_sempre</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:31:33 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3j_para_ontem,_para_hoje...,_para_sempre</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">Para Ontem,<br />Para Hoje…,<br />Para Sempre!<br /><br /><br /><br /><br /><br />Por<br /><br />Nelson Palma<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Ossonoba, 2007<br /><br />1<br /><br />Ele disse que “faria um bom preço”, que lhe “vendesse a alma. Fiquei na expectativa contagiante de Suas palavras. Cada palavra que Ele dizia era, para mim, como um mundo novo. Novidades sem quaisquer alternativas. Factos! Durante toda a conversa por várias vezes referiu que “o facto de Tu seres Ateu, tens uma alma mais susceptível ao desconhecido, mais disponível ao facto de alcançar o Além, algo mais do que tudo ou qualquer coisa”. Seria esse Além, o próprio apelido de família do Ser Homem? Afinal de contas, quem poderá negar que um Ateu busca o mesmo que qualquer outro religioso – uma resposta para a morte? Ele contou-me detalhadamente, todos os pormenores de situação. Automaticamente, acertou no meu ponto de vista: que o Homem se encaminha para a Autodestruição. Logo, é n’Ele que se encontra toda a Verdade! E é nessa Verdade que Ele próprio se contradiz: NÃO PODERÁ CONTINUAMENTE A VIVER COMIGO NEGANDO SEMPRE A SUA EXISTÊNCIA! Seria como fazer um filho meu passar fome enquanto eu vivia às mil maravilhas com mil e uma fantasias. Eu negar o mundo? O Homem é e sempre será uma caixinha de surpresas. Um rio de História que não pára e que supera inclusive, qualquer dificuldade, menos à contrariedade de uma simples seca. Mas a História do Homem não pode parar, independentemente que tenha um Destino. Se tiver, será o de se encontrar predestinado a vários destinos diferentes, repetindo-se logo após e de novo, um círculo, criando em seguida novos círculos viciosos. Assim, como o próprio nome “História” indica. Para ser História, terá de ter princípio, meio e fim, ou seja, Passado, Presente e Futuro. Como tal, nem sequer se escreveu o início – o Princípio. A História contada, dita, escrita e ainda pensada, é tão-somente o Passado recente. O Presente será o Passado e já foi o Futuro! E vivemo-lo Hoje! Logo, o Presente é Passado que já fora Futuro. O dia de Ontem, Hoje é passado, mas rapidamente será o anteontem ou “um dos dias anteriores”. Mas não pode ser assim tão complexo. A História ainda vai no início. A Procissão ainda vai no… adro!<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />2<br /><br />Ele aconselhou-me a ter calma, que me dava três dias para pensar. “A autodestruição…, o Destino…” era tudo um mau presságio, além disso, os meus pensamentos teriam de acompanhar Suas palavras e era tudo muito rápido, demasiado rápido. Eu pensava enquanto Ele falava. Três dias? Passado, Presente e Futuro? Ontem, Hoje e Amanhã? Não seria tudo tão rápido quanto isso? Ainda me lembro como se fosse Ontem: comprei uma bola de futebol quando tinha os meus dez anos, numa loja de desporto. Depois usei-a, desfrutei dela, utilizando-a constantemente, no fundo, fazendo-a cumprir um desígnio, um destino que lhe era devido, fi-la cumprir o seu papel: usei-a, gastei-a! Furou-se um dia, coloquei-a num canto da casa e perdi-a com o passar dos anos. Isso passou-se “Ontem” mas também já fora “Hoje”. Definitivamente teria de ter tempo para pensar, reflectir. Ele disse-me que me encontraria no fim do Terceiro Dia. Afastei-me d’Ele e comecei a pensar: “- Preciso de planear muito bem estes três dias! Preciso de os utilizar e usá-los muito bem!” Olhei em meu redor, o parque verdejante era muito mais do que um simples parque. Ele próprio era uma história escondida na alma do mundo. Todas aquelas árvores escondiam mais de mil segredos por desvendar. A relva era uma base para sonhos: os sonhos de uma vida. Quando me voltei para trás Ele já haverá desaparecido. Enfim, não me surpreendeu, Não fez nada que eu já não soubesse. Eu tivera previsto. Ele é alma, Ele pode desaparecer. Por outras palavras, não me espantei. Tal como Deus que aparece e desaparece a imensas almas perdidas. Sentei-me no relvado, peguei em três pedrinhas e atirei-as a um pequeno lago que ali se encontrava. Ali perto, estava um homem que vendia cachorros quentes, com uma pequena telefonia ligada onde se podia ouvir: “Amanhã, assina-se um importante protocolo entre a Câmara Municipal e o Governo…”. Seria então um importante dia para a cidade, o dia de “Amanhã”. Mas para mim, “Amanhã” seria “Hoje” e o dia de Hoje, “Ontem”, portanto já faria parte do Passado. Logo, tudo seria assim: Triste!<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Levantei-me e comecei a dar importância a todos os pormenores, os pequenos detalhes da vida. Tudo para mim passaria a ter uma importância incalculável e impenetrável. Era um dia de Verão, quente, belo, céu limpo, mas para mim parecia-me um quente dia de Outono, somente porque adoro essa Estação do Ano, as folhas caídas e as por cair, assim como toda a ilusão que isso provoca. Mas tinha de me meter a andar. Nunca o tempo tivera tão grande importância para mim, como o Agora.<br /><br />*<br />*       *<br />3<br /><br />Pensei em reaprender algumas coisas mais. Pensei em ir visitar umas pessoas. Uns amigos de longa data que tinham umas teorias interessantes sobre a vida. “Não, não vim até cá para ouvir o teu disco novo ou para ver o teu novo programa de computador…”, poderia eu dizer-lhes, “Vim para falar e ouvir-te falar acerca da tua teoria sobre a Vida”. Ponto final. “Porquê?” Sim, porquê? Como iria eu lhes explicar? Falado está tudo muito embora nada ainda esteja ou tenha sido falado e dito. Ontem e Amanhã. Um deles diz que “Um ser recém-nascido contém toda a Sabedoria humana e que aos poucos a deixa desfalecer com o correr dos tempos”. E porque é que o recém-nascido não tira um curso universitário? – podemos nós perguntar. “Será um curso universitário um exemplo de Sabedoria Humana? Sobreviverá um Doutor no meio de uma floresta virgem, sem os seus hábitos eternos, com a mesma facilidade que um ingénuo indígena, nativo da própria floresta?”. Claro que não, porque nesse ambiente quem tem toda a sabedoria é o indígena, invertendo-se assim, os papéis de Doutor e Ingénuo. São mundos e hábitos diferentes. Assim a perplexidade de um recém-nascido aos olhos do mundo e o mundo aos olhos do próprio recém-nascido: “Que coisinha tão fofa, este bebé / Quem são estes, de onde vêm, para onde vão e o que querem?” E de onde vem toda a Sabedoria do recém-nascido? “De todas as vidas anteriores, vividas em vão! Repara nas eternas guerras entre os homens. Repara no tempo que o Homem perdeu todos estes anos em busca de um Deus para se culpabilizar, ou melhor, para se ilibar de todos os seus erros e pecados. Quem tem mais força? Para esse recém-nascido, a resposta é um inocente sorriso ou um frio choramingar – ou Deus ou o Diabo! Não importa, pois ambos vêm da mesma pessoa, de um homem qualquer, de qualquer homem!”. Um sorriso ou um choramingar? Deus ou Diabo? Ontem e Amanhã! Pois é, ele diria o mesmo por outras palavras, talvez. Assim sendo, já não valerá a pena o ir visitar…!<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Outro pensa que vivemos em mundos paralelos: “Fantasmas, são pessoas que caem no buraco de passagem para o nosso mundo, onde cuja energia se nos manifesta. Eles vivem ao nosso lado, coabitam connosco. Vivem o nosso enquanto. Nós não os vemos, eles não nos vêem ou tocam, tal como nós não os conseguimos tocar. Não existe qualquer contacto entre ambos os mundos. Quando cá caem, esse buraco é a sua pior armadilha enquanto para nós não passa de um inexplicável e assustador motivo de conversa sobrenatural, o medo do desconhecido. Talvez se passe o mesmo connosco. E aquelas pessoas desaparecidas? E o Triângulo das Bermudas? E aquelas pessoas que afirmam ter visto uma linda imagem, algo como um jardim imenso, cheio de beleza e virtudes, durante um estado de coma profundo?”. Talvez o dissesse assim ou por outras palavras…!<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Ou ainda aqueloutro que acha que nós supostamente “Fomos cá colocados vindos de outro planeta, por seres iguais a nós, com uma finalidade: repovoamento da Terra após outros planetas terem sucumbido à idade e ter-se dado o seu terminus. E cá estamos nós…, ficámos entregues a nós mesmos. A ideia era a sobrevivência da Raça Humana”. Adão e Eva? Arca de Noé? Existe vida noutros planetas? Acredito que sim, mas quais? Será essa a Linear Sabedoria da Bíblia? Alguma coisa aconteceu para que noutros continentes ter-se descoberto tamanhas outras inteligências, embora com as mesmas formas de vida, o tipo de intuição, enfim, o seu humanismo em geral. Mas que essa reacção de “estranhas coincidências” e de esboço de estupefacção tenha sido recíproca, isso ninguém pode negar nem discordar. Mas fomos Deuses para os Maias e Incas entre outros povos “indígenas”. Bem, este então, resolve logo a questão dos “Quês” e dos “Porquês” da existência humana em três tempos. Porquê, Darwin, porquê tanta viagem, tanta suposição, tanto tempo perdido? Tanto estudo em vão. Mas ao mesmo tempo a coisa até pode ter algo de verídico. Pois é, não vale a pena ir visitar essoutro também. Seria puro tempo perdido. Sendo assim, não iria desperdiçar um dos meus três dias ouvindo-os.<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />4<br /><br />Aproximei-me então, da Doca. Ela própria parecia cheia de indecisões. Tanto espaço e os barcos de recreio andavam de um lado para o outro sem que qualquer um deles estacionasse. Provocavam pequenas ondas que tomavam como cor uma sombreado generoso porém doentio. Sentei-me num dos bancos que se encontravam vagos. Perto de mim um pequeno aglomerado de pessoas ouviam os dizeres de um barbudo de terceira idade, para mim disfarçado de racional, sublinhando que “Amanhã todos me darão razão. Aí verificarão que lhes digo a Verdade, toda a Verdade e nada mais do que a Verdade!” Amanhã? Amanhã será o “Hoje” do próximo dia. Tive então uma pena enorme de não ter ouvido a palestra desde o início. Aquilo que ele andara a dizer. Levantei-me e num tom simpático pedi a um transeunte ali perto, que se encontrara no grupo dos espectadores do homem, que me dissesse a que o velho se andava a referir. Ele respondeu: “Amanhã! Amanhã saberá!” Fiquei por assim dizer, estupidificado, devo mesmo confessar. Perguntei a outro e obtive a mesma resposta. Não é possível, pensei eu, esta gente anda toda a ficar maluca de um todo. Tentava eu me afastar das pessoas quando um homem, numa grande correria, me deu um encontrão: “Desculpe, estou com pressa, muita pressa. Imensa..:!” as palavras foram-se perdendo com o afastamento do homem. Tentei acalmar-me. Obtei por ir para casa esperando que o resto do dia de Hoje (que Amanhã passará a Ontem) passasse. Eu tenho uma opção importante a fazer. A opção de toda uma vida. Mas não poderia fazer a dita opção sem antes tomar uma bica. Entrei num café já perto de casa. Fui servido com todo o rigor humano possível. Atrás de mim, um casal de namorados conversava abertamente. Ele dizia: “Sabes? Penso que amanhã vou começar a deixar de fumar…!” Fiquei então sem cabeça nenhuma para pensar. Cheguei a casa, comi qualquer coisa e adormeci. Assim findava o primeiro dia. O meu último primeiro dia.<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />5<br /><br />Levantei-me pelas oito e trinta da manhã no dia seguinte. Eis-me então no Segundo dia: o Hoje. Lembrei-me de algumas palavras d’Ele: “Nós simplesmente deixemo-nos levar pelo entusiasmo dos outros! Se o Mal existe foi porque o Bem o criou…”, “Encontrar-te-ei no fim do terceiro dia…”. Fiquei assustado pela brevidade do primeiro dia – Ontem. Teria eu ficado algo confuso? Três dias…, tão pouco tempo para tamanha decisão. Fui em direcção do espelho. Olhei para mim mesmo e gritei: “DEIXEM-ME RESPIRAR! DEIXEM-ME DECIDIR!”. Depois baixei o tom de voz: “Posso?! Deixam-me decidir?”. Que bom, estava sozinho em casa. De seguida, corri por todos os cantos da mesma. Desenfreadamente. Feito um louco. Uma momentânea e feliz loucura. Sem qualquer sentido prático para aquilo que fazia, até que fiquei ébrio de cansaço. Expirei ar cansado por duas vezes e comecei a rir às gargalhadas. Naquele momento, pelo menos, stress era coisa que não existia. Tinham passado somente cinco minutos. Há que aproveitar o tempo, não é? Sempre na melhor maneira, não é verdade? Inutilidades, aquilo que eu fiz?! Pois bem, ao menos diverti-me imenso com uma breve e sóbria loucura. Fui para a cozinha e sentei-me a fazer uma suculenta sandes de queijo com maionese e picles. Enchi uma caneca de leite para acompanhar. Não pensei em ligar a rádio ou a televisão. Iniciei assim, o segundo dia: o Hoje!<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Voltei a olhar para o relógio, já atingira as nove da manhã. Abri gloriosamente a porta da rua: “sejas tu bem-vindo, Hoje!”. Parei à porta e comecei a ouvir o leve chilrear dos pardais por entre as ramadas das jacarandás. Lembrei-me de mais algumas das Suas palavras: “Cabe ao Homem decidir sobre o futuro das coisas em seu redor e em redor de todas as coisas…”. Mas quem sou eu para decidir sobre, por exemplo, o abate das árvores que se encontram ali mesmo à minha frente? Porém, amanhã elas poderiam muito bem já nem lá se encontrarem, já nem existirem. Bastaria que alguns homens assim o decidissem. Seria a isso que Ele se referia? Olhei para o céu: limpo. Bom tempo! Pelo menos para um enorme número de pessoas. Dei uns passos pela rua. O silêncio batia no ar, por sinal, bastante despoluído. Foi como se eu tivesse acordado nesse preciso momento. Que é feito do imenso barulho caótico matinal? Onde parava o trânsito neste momento? E a confusão habitual dos peões em direcção aos mercados? Terá o vazio tomado conta da cidade? O Nada? “Verás longe o que se encontra por perto!” dissera Ele. Será que tudo não passava de um sonho? Não! Não pode ser! Posso jurar que estou acordado. Posso sentir o meu beliscar e sua pequena dor aguda. Corri prontamente para o cruzamento mais próximo de minha casa, onde a rua cruza a avenida. Nada! Não vi vivalma! Nem qualquer carro que fosse. Olhei o mais distante que me era possível à direita, à esquerda: nada! Rigorosamente nada! Encostei-me à parede e, numa pose hollywoodesca, acendi um cigarro. Nesse momento desaparecia inclusive, o chilrear dos pássaros. Levantaram voo e lá iam eles bem alto, todos juntos, o bando transfigurava-se numa escura nuvem. Acho eu. Estaria eu enganado? Seria este o terceiro dia? Não, Ontem mesmo eu estivera com Ele! Não sei porquê, mas tal situação já me agoniava, além de me irritar profundamente. Chupei o cigarro até mais não poder, depois deitei o fumo todo para fora e poderia imaginar mil imagens inseridas na espessa fumaceira. Só depois dei conta que não se encontrava qualquer carro estacionado. Nenhum. “Poderás ver o que mais te interessa…”, dissera Ele. Seria tudo isto um sinal do próprio Mal? Bem, vivendo numa cidade, assim, seria o ideal, mas… com tanto vazio, não sei. Estava tudo assim tão estranho…! <br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br />Voltei a olhar para o relógio: Nove Horas. Nove Horas? Então? Teria o Tempo parado para mim? Há pouco já tivera verificado que eram nove horas!!! O tempo não pôde ter parado. Não! Os pássaros, por mais pequenos os seus movimentos, chilrearam, voaram, moveram-se. Inclusive, ainda podia ver ao longe o bando de pardais a desaparecer numa agora pequena nuvem escura. Tentei dar corda ao relógio. Sim, era isso mesmo: o relógio haverá parado nas nove horas, e alguns segundos. Calculei mais ou menos o tempo desde a última vez que olhei ao relógio e adiantei cerca de vinte minutos. Voltei a olhar para a esquerda, até ao fundo da avenida e finalmente um vulto de carro. Acho que as coisas estariam a voltar à sua normalidade. Ao habitual quotidiano. Mais um. Ainda outro. Todos se aproximaram freneticamente, e os primeiros já por mim passavam. Ao fundo mais. Imensos. Reparei que os donos das lojas, no outro lado da avenida, arrumavam desenfreadamente suas montras. Teriam eles de recuperar o tempo perdido? Os tais vinte minutos que eu adiantei em meu relógio? Senti-me por breves instantes um pequeno deus, do qual dependiam todos estes personagens. Finalmente, as pessoas davam sinal de vida. De um momento para o outro, já eram pequenas multidões de cabeças. De um lado para o outro. Eu não tinha a certeza se eles dirigir-se-iam a algum lugar que fosse. Eu tinha a exacta impressão que as pessoas não se dirigiam para lugar algum: andavam simplesmente. A mesma impressão tive eu dos automóveis. Sim. O dia de Hoje estava a ser definitivamente, diferente do dia de “Ontem”. Amanhã, o “Hoje” seria o “Ontem” e eu teria muito recordar. Tive a impressão de que as pessoas tentavam distrair ao máximo a minha importante decisão que eu teria inevitavelmente de tomar “Amanhã” e que eu estaria aqui a recolher os seus sinais. Voltava tudo a ser imensamente caótico. Nenhum automóvel se prestava a estacionar. Segui então, calmamente em direcção de um dos largos que a avenida atravessava.<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />6<br /><br />Reparei então, que as pessoas entravam e saíam das lojas sem nada terem adquirido. Tudo continuava confuso e caótico. Os carros buzinavam uns para os outros e eu tinha a certeza de que não sabiam muito bem porquê. Porém, um idoso, permanecia calmamente encostado a uma parede desse mesmo largo, apoiado por uma bengala. Dirigi-me até ele e perguntei-lhe se me explicava o que se estava a passar. Ele olhou para mim e num tom realmente calmo, tratou de me responder: “Meu jovem, as pessoas, os condutores, todos procuram respostas para os dias de Hoje!” Senti-me estúpido com tal e inteligente resposta. Agradeci-lhe. Ele pediu-me um cigarro e eu não tive dificuldade alguma em lho oferecer. Não podia naquele momento, negar-lhe um cigarro que fosse. Ali bem perto, um casal de namorados beijava-se e apalpava-se como se Hoje fosse o último dia de suas vidas. Tive receio que eles se “despedissem” por ali mesmo. “Respostas para os dias de Hoje!”, pensei. Também eu procuro respostas aos dias de Hoje, Ontem e de Amanhã, sem dúvida, e não andava por aí sem qualquer sentido ou direcção. Então, pensei, se para o idoso, por exemplo, eu não estaria a fazer exactamente a mesma figura do que o resto das pessoas! Elaborei uma ideia pronta: EU PODERIA MUITO BEM, FAZER PARTE DE TODAS ESTAS CABEÇAS PARA UM OBSERVADOR VINDO DE FORA! As pessoas vêem o que muito bem entenderem. Não é que Ele tinha razão? Fará então Ele parte de um Dogma Racional? No fundo, Ele não passa de um dogma para mim: apareceu-me, falou-me, e nem por isso eu me sinto obrigado a CREDIBILIZAR A SUA EXISTÊNCIA. Seria isso? Será então por isso que tudo me distrai da decisão que tenho de tomar? “No terceiro dia eu te encontrarei…!”. Acreditaria Eu realmente nisso? No fundo não sei lá muito bem. Ontem, Hoje e…, sem dúvida, Amanhã será o terceiro dia. Mas amanhã será “Hoje” ou…, que grande confusão. Quero voltar para casa, quero descansar a minha cabeça, preciso de reflectir bastante.<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Novamente, a caminho de casa, voltei a entrar no mesmo café do dia anterior para tomar a “tradicional bica” e, quem sabe, relaxar um pouco, se conseguir. Voltei a ser servido com todo o rigor humano possível. Atrás de mim, também o mesmo casal do dia anterior, conversava abertamente. Ele dizia: “Sabes? Penso que Amanhã vou começar a deixar de fumar..:”. Não teria eu ouvido exactamente isso no dia de Ontem vindo da mesma boca, da mesma pessoa? Não seria mesmo uma perseguição? Levantei-me para pagar. O empregado recebeu o dinheiro e dirigiu-se-me: Obrigado! Então até Amanhã…”. Amanhã, Hoje, Ontem…, estaria eu a ter uma sensação de Déjà-Vú? Ou estaria Ele a jogar comigo? Corri de pronto para casa. Comi qualquer coisa e decidi: “Não, não tenho mais nada a fazer senão reflectir sobre a minha decisão! Segui na direcção do espelho e voltei a gritar à minha própria imagem: “DEIXEM-ME RESPIRAR! DEIXEM-ME DECIDIR!”. Voltei a um tom de voz mais suave: “Posso? Deixam-me decidir?” Fui de seguida entrincheirar-me no quarto, entrei, tomei dois comprimidos para dormir e deitei-me, à espera de desfalecer momentaneamente. Pelo menos consegui decidir algo: dormir o resto do dia e só acordar de manhã. Puro ócio. “Adeus!”, disse de mim para mim, “Até Amanhã!”.<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />7<br /><br />Tal como haverá decidido, acordei no dia seguinte mas, meia hora mais tarde do que me era habitual, às nove horas. Lembrei-me que a decisão teria de ser tomada Hoje inevitavelmente, mas tal não me mereceu qualquer reflexão. JÁ ME ENCONTRAVA NO TERCEIRO DIA E ESTAVA TUDO NA MESMA, ou seja, como se nada tivesse passado. O que senti realmente, foi uma mistura de receio com fracasso. Sim, eu poderia ter fracassado! Tinha de tomar uma decisão vital para mim, para a minha alma e não fora capaz de o fazer. Encontrava-me de novo, num enorme vazio. Senti os lábios secos, talvez fosse dos comprimidos, talvez fosse devido à angústia que senti naquele momento. Talvez. E tinha pouca fome. De qualquer forma, dirigi-me à cozinha e fiz uma sandes de queijo com maionese e picles, a qual comi com um certo gosto, acompanhada de uma caneca de leite. Reflecti sim, mas acerca de outra coisa: acabava de incluir um dia mais: o Anteontem – Anteontem, Ontem e Hoje! Eu estava certo daquilo que pensava… creio eu. Eram sempre os três dias, só os seus nomes se haviam modificado. Chegaria assim ao final de toda esta História, sendo “Ontem” o dia do meio, o central, ou simplesmente o “Hoje” que fora Ontem. Só poderia ser assim visto o dia de hoje ter sido ontem o “Amanhã” E iria Ele me encontrar quer eu quisesse ou não? Quer eu acreditasse n’Ele ou não? Assim deveria de ser, ou o dia de “Amanhã” jamais chegaria a sê-lo por nos encontrarmos eternamente no dia de “Hoje”, o seu anterior? De qualquer forma abri gloriosamente a porta da rua e saí decidido. “É Hoje!”, pensei. Poderia ser agora, daqui a pouco ou depois…, dependendo apenas do que para Ele fosse o “Fim do Terceiro Dia”. Na rua, nada. O vazio apoderara-se da cidade de novo? Ou apoderara-se o nada de mim? Olhei para o relógio e verifiquei que funcionava em excelentes condições. Nem os canto dos pardais eu ouvia. Provavelmente nem marcariam a sua existência por ali, naquele momento, pois por mais que eu tentasse desnudar com os olhos as ramadas das Jacarandás, eles não davam qualquer sinal de vida que fosse. Já começava a habituar-me a este momento de sublime e caótico silêncio. Encontrar-me-ia Ele de qualquer maneira? Fiquei algo sobressaltado, devo confessar. Comecei a deambular por aí. Nada. O mesmo nada do dia anterior. As ruas nada mais eram do que um vazio infinito.<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />8<br /><br />O relógio, reparei eu, continuava a funcionar: eram agora as nove e trinta e cinco. Nenhum carro, ninguém! Suponho que o silêncio, este, nem sequer existia também. Nem eu próprio ouvia os meus passos, ou o pulsar do coração, a respiração, nada. O silêncio era surdo. Não faria isto, parte da minha breve e momentânea imaginação? “O Homem vê o que quer, vê aquilo que acredita”. Não fora Ele que o dissera? Ou foram outras as palavras? Atingira naquele preciso momento, o Homem, a tal Autodestruição? Não pode ser! Estaria eu ainda a dormir? Não! Podia beliscar-me e sentir a tal dor fugidia e dogmaticamente aguda. Optei por andar em direcção do largo em que estivera Ontem. Quando lá cheguei, sim, havia vivalma. Acalmei-me por breves instantes. Aproximei-me e deparei com o mesmo idoso do dia anterior, na mesma parede, apoiado na mesma bengala. Voltei a dirigir-me a ele, o que era mais que óbvio devido ao facto de ele ser na realidade, a única pessoa presente além de mim próprio naquele palco de vazio absoluto e eterna calmaria. “Bom dia”, disse-lhe eu, “Pode dizer-me o que se passa Hoje?”. Novamente ele respondeu de pronto: “Não há respostas para os dias de Hoje, meu jovem!” Claro, naquela situação só poderia sair nova e metafórica parábola existencialista, por muito inteligente que fosse sua resposta, eu pretendera algo mais substancial, algo que me afagasse a alma. Eu bem que podia ter-me lembrado disso antes de lhe perguntar. O idoso voltou a pedir-me um cigarro e eu, como ainda possuía alguns dentro do maço, dei-lhe um. Instintivamente, perguntei-lhe se O tinha visto, explicitei a sua fisionomia e mais ou menos como Ele poderia estar vestido. Respondeu-me que achava o ter visto e apontou uma rua mais adiante. Agradeci e fui a correr pela rua adentro, sempre a olhar para todas as direcções assim como para todas as perpendiculares e nada! Fiquei algo desiludido. Parei e dei conta de algo deveras interessante: afinal não era Ele que andava à minha procura mas sim Eu que andava atrás d’Ele. Voltei ao Largo e fui ter de novo com o homem. Ele fumava descontraidamente o cigarro que eu lhe dera. “Não O encontrei.”, Disse-lhe eu. “Tem a certeza de O ter visto naquela direcção?”. Ele pensou um pouco. “Acho que…, acho que seguiu aquela rua no outro lado…”. Pareceu-me estar a ser sincero pela expressão do seu olhar. Apontou-me para uma outra rua exactamente do lado oposto do largo em que nos encontrávamos. Agradeci-lhe e corri para lá, na direcção referida. Passei o largo rapidamente pois não existia nenhum trânsito, ou seja, tudo não passava de um grande vazio. Entrei na rua decidido, olhei para todos os lados – parecia-me desesperado – e nada vi. Alguns becos num lado e no outro lado da rua. Nada! Fui até ao fim da rua onde outra rua se cruzava. Sempre o mesmo vazio, o mesmo Nada. Já não havia mesmo nada a fazer, só me restava voltar ao largo, atravessei-o calmamente, desta vez, e fui em direcção ao velho: “Não O encontrei.”, Disse-lhe. “Paciência, não é, meu bom velho?!” Ele voltou-se para mim, sempre apoiado em sua bengala. “Não há…”, eu encorajado interrompi-o de pronto: “Já sei, não há respostas para os dias de Hoje!”. Ele sorriu para mim e continuou: “Isso..:!”<br /><br />*<br />*       *<br /><br />Não me disse mais Ada. Respondi com um sorriso e um outro cigarro. Ele agradeceu e eu fui-me embora. Andei por um lado, andei por outro. Não havia mais nada que um revoltante silêncio incólume e incomodativo. Andei horas e horas sem comer ou beber. De repente já a tarde se mostrava a findar. Nada nem ninguém, somente o vazio. “Não fazia tudo isto também, parte do aos?”, pensei. Descontrai um pouco e ainda acendi um cigarro. Ainda me restavam seis ou sete no maço. Lembrei-me então, que o maço tinha durado bastante. Também ele já ia no terceiro dia. Acho que com toda esta pressão, pouco ou nada tinha fumado. Senti ao mesmo tempo, uma sensação de liberdade. Sorri. Não havia rigorosamente ninguém. Apeteceu-me despir a roupa e assim o fiz, ficando completamente nu dando comigo a dançar no meio da rua. Na realidade fiquei preso a um estranho sentido de liberdade absoluta começando a cantarolar: Só existe o que eu quero acreditar… o que eu quero que exista..:! Parei, espreguicei-me um pouco e descontrai o corpo, voltei a vestir-me. Mais calmo, voltei para casa. Não sem antes ter pensado em tomar o café da praxe. Mas como tudo se encontrava fechado, andei, andei e quando já me aproximava de casa deparei com o mesmo café dos dias anteriores, aberto. Entrei sorridentemente. Já não estranhei o facto de se encontrarem as personagens de sempre. Ele dizia: “Sabes…”, quando eu me levantei e lhe interrompi: “Pensa que amanhã vai deixar de fumar, certo?” Permaneci calmo e não esperei sequer qualquer reacção que fosse, do casal. Fui directo ao empregado para lhe pagar. Ele começou: “Obrigado…” e eu terminei a sua frase: “Então, até amanhã, certo? Sim, voltarei amanhã, sim”. E fui-me embora para casa. Exceptuando o café, o vazio era inevitável. Achei eu que até o idoso fazia parte do próprio vazio, era a idade do vazio. Entrei em casa e finalmente fui comer. Não tive mais dúvidas. Já nem sequer quis pensar mais nisso. Peguei em dois comprimidos para dormir e tomei-os. Segui em direcção ao espelho e gritei: “JÁ DECIDI!”. Fui de seguida deitar-me: “Até Amanhã!”<br /><br />*<br />*       *<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />9<br /><br />No dia seguinte (ontem, hoje ou amanhã… isso agora não importa), nem tomei nada ao pequeno-almoço. Dirigi-me para a rua e tal como eu pensara, tudo estava realmente normal. Os pássaros chilreavam, as pessoas andavam com algo definido – uma direcção, um sentido, um querer absoluto – o trânsito, como habitualmente, encontrava-se caótico, milhares de carros estacionados. Enfim, a normalidade. Também quis seguir uma direcção. Primeiro fui ao café. Lá se encontravam o mesmo casal, o mesmo empregado. Disse ao rapaz: “Então, é hoje? Já não se fuma mais?”. Ele com um sorriso respondeu: “Sim, penso que vou conseguir!”. “Até Já!”, disse eu para o empregado. Dei uns passos pela rua abaixo quando atrás de mim alguém me gritava: “Obrigado pela sua preocupação, de qualquer maneira!”. Era o rapaz. Respondi-lhe com um acenar de mão que foi recíproco. Fui até à avenida e de seguida até ao mesmo largo dos dias anteriores. Dirigi-me ao idoso que se encontrava encostado à mesma parede apoiado pela mesma bengala. “Olá, meu bom homem!”, Disse-lhe, “Então, o dia de Hoje está bem diferente dos dias anteriores, não é verdade?”. Ele respondeu: “As pessoas encontraram a única resposta possível, caro jovem. Ontens? Ontens sempre houve. São todos os dias que passaram até hoje…”, e eu interrompi-lhe: “Dias de hoje não existem, não é? Há só um Hoje, um Agora, um Já, um Presente…, o Passado é longo, muito longo, o Presente é curto, muito curto, é somente o Agora, o Já”, ele continuou: “… e o Amanhã será o mais longo de todos, será sempre o Futuro!”. Tínhamos enfim, chegado a um consenso, a um mínimo múltiplo comum, afinal de contas. Sorrimos um para o outro. Dei-lhe o restante tabaco que se encontrava no maço: “Tome, é para si!”. Ele contou-os. “Como vê, jovem, anteontem deu-me um cigarro, ontem deu-me dois. Podemos considerar que «Ontem» me deu três cigarros, já que é a soma dos que me tinha dado até hoje, até aqui, agora. Hoje, agora, deu-me seis cigarros. Pode ter o seguinte significado: o «agora», o «já», o «hoje», tem mais intensidade que o «ontem» ou que todos os «ontens».” Eu voltei-me: “Logo, o Amanhã será tão imprevisível como o “Hoje” o foi para o «Ontem» e assim por diante…”; “Pensamento sensato, meu jovem.”; “Tão longo que será o caminho a percorrer até ao dia do Amanhã, meu bom homem.”; “Tanto e tão longo como tão incerto ou inseguro!” Ele afastou-se da parede e começou a seguir o seu caminho. Não, sem antes lhe ter dito: “Então, até Amanhã, meu amigo!” Ele corrigiu-me de pronto: “Não meu jovem, até Sempre!” Ele seguiu o seu caminho apoiado com a sua bengala, eu segui o meu apoiado com a bengala do Tempo, fui-me à vida, se é que assim se pode dizer, como foi para ontem, para hoje e … para sempre!<br /><br />*<br />*       *</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>A Menina que queria ser princesa</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3i_a_menina_que_queria_ser_princesa</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:24:39 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3i_a_menina_que_queria_ser_princesa</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">A Menina que queria ser Princesa<br /><br />Uma lenda muito antiga, dá-nos conta de uma menina que sonhava ser princesa. Gostava de dar a sua escapadela da aldeia até ao monte, ali mesmo no lado onde o Sol se põe. Sonhava com um castelo, cavaleiros, o príncipe encantado, ais – que ouvira falar mas ainda não sabia muito bem o que era. E tudo o que sonhava, segradava ao Sol. E tinha um sentimento profundo em relação ao Sol, pois sentia que este lhe falava. Por isso, a pequena Helena se sentia uma menina feliz, mesmo que ela tal como toda a aldeia, fosse pobre, e que todos os seus haveres se restringiam exclusivamente ao essêncial. E os livros que ela tinha na pequena prateileira da entrada, velhos e poeirentos, ela de nada podia fazer, nem ela nem a avó sabiam ler. As histórias que ela ouvia eram sempre vindas da mesma pessoa, o Tio Augusto, que vive ali encostado no caminho como quem vai para a fonte. Ele era as histórias que ela sabia, tudo o que ela conhecia, ele era a sabedoria da aldeia, o ancião, o avô das crianças. Ela olhava para o ancião e ele próprio era a aldeia, pois o que ele lhe contava fazia-lhe sonhar. E o ancião correspondia-lhe com votos de que ela não cessasse de sonhar nunca, pois, como ele dizia,<br />-O Mundo fica muito mais pobre quando nós deixamos de sonhar...<br /><br /><br /><br />Não estava nos seus planos deixar de sonhar, pois seus sonhos eram o seu mundo, eram os seus segredos para com o Sol, a sua razão de viver. Já nem se lembra da cara dos seus páis pois estes deixaram-na com sua avó ainda não tinha ela um ano, para irem trabalhar para muito longe. Por isso ela precisava de sonhar. Sonhar era tudo o que lhe restava. De pouco em pouco tempo, lá ía ela ter com o Tio Augusto, para ouvir o que este dizia às outras crianças, quando não lhe dava para a brincadeira. A menina tentava muitas vezes brincar de princesas com as amigas, mas nunca conseguia, visto as meninas não imaginarem o mundo das princesas como ela. E ela sentia-se no direito de imaginar um castelo perto de um lindo lago, rodeado com árvores com os mais belos frutos, um lindo jardim e não a maior casa da aldeia rodeada de alfarrobeiras. As meninas não eram como ela. Não sonhavam. Não tinham os seus segredos para com o Sol.<br /><br /><br /><br />Entretanto a menina cresceu e não era já uma criança. E os seus sonhos e os seus segredos para com o Sol, cresceram com ela. O Sol, aquele olho vibrante que sempre nos observa durante o dia e que exige o nosso descanço durante a noite, sempre fora o seu melhor amigo. E claro, cresceu, e já não tinha o Tio Augusto para lhe contar as histórias. E ela pensava que agora na aldeia, não havia ninguém para fazer as crianças sonhar, e o que aprendera a ler ou a escrever, era muito pouco e não daria para muitoo e por isso, decidiu que iria visitar o mundo, conhecer mais, aprender mais para poder ensinar as cianças a sonhar com o mundo fantástico das princesas, tal como ela. Mais tarde voltaria à Aldeia para cumprir a sua missão, e mesmo ali, na pedra onde o ancião se sentara outrora enquanto ela sonhava, prometera que no futuro aquele lugar seria o dela. Despediu-se de toda a aldeia, da avó – que não saberia quando ou se a voltaria a ver, e foi com essa missão nas mãos e no coração..., e o sonho de um dia ser princesa.<br /><br /><br /><br />Helena foi viver para a cidade, à procura do sonho e da sabedoria. Ela cresceu a sonhar e as crianças devem crescer todas a sonhar, como ela. Só saiu da aldeia pois as histórias terão de ser contadas por outra voz: a dela. Que vazio seria para as gerações vindouras da sua aldeia se não houvessem mais histórias, que tudo não passasse de um crescer e ir trabalhar para longe, para os lugares de sonho, onde os castelos estão mais perto. Na cidade a menina agora mulher fora recebida em casa de uns familiares afastados, pela recomendação da sua avó. Helena contou-lhes a sua história e as histórias do ancião, e que quereria fazer o papel do falecido futuramente. Que estava ali para aprender tudo o que houvesse para aprender. Em pouco tempo, estava já a ajudar na cozinha e no forno, entre outros serviços que se propunha fazer, predominantemente domésticos. À noite, continuava a aprender a ler e a escrever, antes de fechar os olhos e sonhar com o seu castelo, o seu príncipe e as suas aias - que entretanto aprendera o significado: as damas de companhia nas coortes. Nos dois primeiros anos desta sua nova vida, já ela aprendera a cavalgar e a cuidar dos cavalos. Sentia-se assim cada vez mais próxima do seu sonho. Depois das novas funções que lhe eram devidas, passava o tempo a escrever palavra por palavra, as histórias e os ensinamentos do ancião. Descobriu que afinal já começava a sentir que sabia alguma coisa, mas o seu coração pedia mais, e mais, e mais. Queria também conhecer os mistérios da vida e da morte, o passado do Reino, as lendas antigas do Reino e tudo à volta do Reino. Queria saber tudo.<br /><br /><br />Um Mestre da cidade soube um dia da nobre missão de Helena e foi visitar a casa onde ela se encontrava e prometeu-lhe ajudar em tudo o que ela queria, ensinando-lhe todo o seu saber. O Mestre tinha mais discípulos e discípulas, mas ele viu nela algo que os outros não tinham: uma vontade natural de saber, viver a sonhar e sonhar a viver. Tinha vontade de ser feliz e vontade de realizar esta felicidade. Ela logo começou a frequentar a casa do Mestre junto com os outros rapazes e raparigas. O Mestre falava-lhes dos mistérios da vida e da morte. Explicava-lhes como uma árvore dá um fruto, que por sua vez dava semente, e estas após atiradas à terra húmida, apodrecia e daria origem a uma nova árvore. Explicava-lhes como tudo é cíclico.<br />    -    E assim é o ciclo da nossa vida: plantamos nesta vida aquilo que vamos colher na próxima. Nem sempre o pagamento dos nossos grandes actos serão-nos dado nesta vida, e sim na seguinte.<br />Assim lhe falava o Mestre. Helena, já demonstrava estar avançada, tanto na escrita e na leitura, como no conhecimento das coisas, em relacção aos outros. E ela retribuia-lhe com a alegria de aprender.<br />Um dia serei eu a transmitir todo o meu conhecimento. – dizia ela.<br />Assim será, Raio de Sol. – respondeu o Mestre.<br /><br /><br />Ela adorou o Mestre ter-lhe chamado Raio de Sol. Logo veio-lhe à cabeça todas as conversas com o seu melhor amigo da sua longa infância: o Sol. Todos os segredos que só ele sabia dela, que um dia iria ser Princesa e viver num castelo com o seu Príncipe. Além dela, só o Sol tinha uma ideia exacta de como iria ser o castelo de helena, nunca mais ninguém o soube. Ela até julgava que ele sabia quem iria ser o seu Príncipe, mas só não lhe dizia nada, mas tinha a certeza que um dia ele lhe enviaria um sinal, sim, pois agora ela já sabia que além da escrita, existiam outros sinais na vida de cada um de nós. Havia que aprender com eles a seguir o caminho correcto. Mas teríamos de saber lidar com as tantas e tantas armadilhas que se poderiam confundir com sinais. Helena aprendera a estar atenta às coisas dos sinais.<br />Mas porque me chamaste Raio de Sol, Mestre?<br />Porque a tua alegria de viver entusiasmou-me, tal como a tua vontade de seguir em frente com a tua Missão. Darás uma excelente Mestre, melhor do que eu, melhor do que o ancião da tua aldeia. Com toda essa vontade, saberás fazer sonhar muitas crianças e lhes transmitirás coisas novas a elas todos os teus dias futuros. E tu nasceste com essa aura de brilho que te envolve, brilho esse que se transforma em felicidade tudo e todos os que te rodeiam. Outros porquês da razão de Raio de Sol, um dia saberás por ti mesma.<br />Os olhos de Helena brilhavam de alegria.<br /><br /><br />-   Hoje vou-vos falar do Sonho. – referio o Mestre. Todos nós devemos de sonhar. Sonhar sempre até aos fins dos nossos dias, e não só à noite enquanto dormimos. O que é da nossa vida sem sonhos? É o fim dela. Quando os nossos sonhos terminam ou estamos totalmente desmotivados para continuar a viver, e por isso muitos têm cometido a loucura do suicídio ao longo dos séculos, ou então porque nos sentimos realizados e cumprimos a nossa missão na terra, e estamos preparados para colher os frutos do que semeamos neste tempo de existência. O suicídio não é só dor e perca para os que cá ficam, é também o aumento da Dor Pessoal na nossa existência futura. Por isso, devemos sempre de nos afastar da nossa Dor Pessoal. Como se faz isso? Sonhando..., pois o sonho revela a nossa alegria. O sonho é uma meta que queremos atingir.<br />-   E como devemos nós de sonhar, para não aumentar a nossa Dor Pessoal, Mestre? – perguntou um dos discípulos. Helena ficou muito atenta à resposta do Mestre.<br />-   Com um coração puro. E um coração puro é um coração sem dor, sem mágoa, sem limites. Um coração puro é um coração cheio de sabedoria e de esperança.<br />Então eu terei um coração puro?, pensou Helena. Ela aprendera que é mau para a nossa Dor Pessoal sonhar com riquesas e ela queria ser Princesa. Agora ficou na dúvida. Teria de parar de sonhar em ser princesa? Pela primeira vez na sua vida, Helena, a menina que queria ser Princesa, e que entretanto crescera e era já uma mulher, sentiu o sabor da amargura.<br />Helena deu consigo a pensar que havia muito tempo que não falava com o Sol. Agora que sentia pela primeira vez um pouco de Dor Pessoal no seu coração, sentiu necessidade de ir falar com ele. Naquele dia nem fez a tarefa de ir tratar dos cavalos a seguir às lições do Mestre. Pegou no seu cavalo preferido e cavalgou, por um caminho estreito que ía dar a um local do ribeiro que passava perto da cidade (o qual lhes dava grande número de fontes) e que só ela sabia. Era o seu local secreto pois também ali havia um pequeno monte onde uma das suas encostas dava para o Ocidente, onde o Sol se punha. Amarrou o cavalo a uma árvore e foi-se sentar numa pedra que ela escolhera como sua.<br />-   Sol, meu amigo. Sabes que só tu me conheces. Sabes também, que agora me chamo Raio de Sol, e assim carrego um pouco de ti em mim. E sabes agora que tenho uma Dor Pessoal dentro do meu coração. Terei de parar de sonhar que um dia irei tornar-me numa Princesa? Tirei de viver o resto dos meus dias agarrada a esta amargura? Nunca desejei para mim mais nada na vida além disso. A minha vida é feita para os outros. Por isso aprendo a ler e a escrever, para poder transmitir às futuras gerações da minha aldeia, o conhecimento e faze-las sonhar tal como eu sonhei. Meu amigo, ajuda-me a ultrapassar a minha Dor Pessoal, ou então ajuda-me a ser feliz mesmo que a tenha de arrecadar em meu coração para todo o sempre.<br /><br /><br />Uns dias passaram, quando, logo após a mais um sermão, o Mestre foi falar-lhe.<br />-   Raio de Sol, nos últimos dias tenho-te visto triste e amargurada. Jamias te vira assim. Nada dizes durante os meus sermões, já não me interrompes com as tuas lindas perguntas e dúvidas sempre pertinentes. Não podes modificar a tua luz de um dia para o outro. Iluminas o grupo, não podes deixar o grupo escurecer. O que se passou para que tal atitude tivesses tomado?<br />-   Mestre, acho que vou ter de parar de sonhar. O meu sonho tornou-se demasiado para caber dentro de um coração puro.<br />-   Mas tu tens um coração puro, o mais puro de todos os que me acompanham. Deves ter o coração mais puro de toda a cidade..., não podes parar de sonhar, assim sem mais nem menos.<br />-   Mas Mestre, carrego comigo um enorme fardo. Um pesado fardo, tão pesado que não posso ter um coração puro. Carrego comigo um sonho muito grande, cheio de riquezas e outras coisas mais...<br />-    Mas carregas contigo um fardo de Missão, de transmissão de conhecimentos às próximas gerações das crianças da tua aldeia. Que maior riqueza interior poderá alguém desejar senão transmitir a luz aos outros?<br />Helena começou a deixar cair umas lágrimas. Nunca alguém antes a vira chorar.<br />-   Olha – continuou o Mestre -, se acreditas nas minhas palavras e na minha sabedoria, que te volte a alegria nesse teu coração. Apaga por um tempo a tua Dor Pessoal. Faz isso por mim e não te arrependerás. E agora vai tratar dos teus cavalos, com alegria, e dá de novo a tua luz às gentes da casa que te receberam. Tens lá crianças que precisam de ti. Começa com as crianças daqui da cidade, antes de passáres às da tua aldeia. È que daqui a uns tempos receberemos um Guerreiro de Luz e não quero que ele te veja assim.<br />O que seria um Guerreiro de Luz?, pensou Raio de Sol.<br /><br /><br />Helena assim fez, tratou dos cavalos, com a alegria que lhe era possível naquele instante, e ao terminar, antes mesmo de o sol se pôr, pegou nos seus escritos, nas histórias que aprendera e que escrevera palavra por palavra tal como o ancião da aldeia lhe ensinara, chamou as crianças ao átrio de entrada da casa e começou a ler-lhes as histórias. As histórias de Príncipes e de Princesas, de castelos rodeados de maravilhosos jardins, começaram a maravilhar as crianças. Depois começou a vir mais uma pessoa e outra, depois outras crianças, em pouco tempo percebeu que não só todas as pessoas da casa estavam presentes, como também todas as pessoas e crianças das casas vizinhas. Helena via no olhar das gentes e crianças, um brilho de fascínio, de sonho, e sonhava também ela enquanto lia as histórias para os outros. A Dor Pessoal estava a apagar-se. Raio de Sol estava de novo feliz.<br />-   Bendita seja esta Pregadora que nos veio trazer o sonho até as nossas casas. – referiu com alegria uma das vizinhas que segurava em mãos mais duas crianças.<br />Helena já não era menina, crescera e era agora Pregadora de Sonhos pela primeira vez. As palavras da aldeia começavam agora a entrar na cidade também. Tio Augusto fora uma árvore, que deixou uma semente plantada atravéz das suas histórias, que deu uma árvore de sonho atravéz dela e que agora já se viam os frutos. O Mestre tinha razão. Helena olhou para o Sol e pensou, como se falasse de si para ele: Obrigado meu amigo, pelo sinal que me enviaste.<br /><br /><br />-   Hoje vamos falar de Amor – disse o Mestre. Espero por isso que deixem entrar minhas palavras dentro de vossos corações e que as entendam como devem ser entendidas. O Amor, é o mais nobre dos sentimentos dos quais nós, alguma vez nós possamos usufruir. O Amor deverá permanecer até ao fim dos tempos. O Amor entre um homem e uma mulher deverá se espelhar por fora. Só assim o Amor poderá voltar a ser universal. Todos nós somos diferentes uns dos outros, todos nós sonhamos e isso faz parte da vida. Todos nós temos uma missão cá na terra e isso também sabeis. E o Amor Universal passa por isso mesmo: todos nessecitamos uns dos outros, de forma a nos completar, de forma a criarmos uma Unidade entre todos. Aprender a completarnos mutuamente é uma nobre e sábia essência da nossa vida. Um pai e uma mãe podem gerar muitos filhos para se tornarem n’Uma família unida. Um Mestre pode gerar muitos Mestres de forma a que a Sabedoria se possa propagar até ao fim das gerações. O Amor Universal é essa essência que nos apresenta à nossa frente, em que todos poderemos amar o próximo, ajudando-o da forma que ele precise e que nos seja possível. O mesmo se passa entre o Amor conjugal, entre homem e mulher, devem completar-se de forma a serem um só. Pois se não se completarem e ambos saberem o mesmo, sem que nada tenham para ensinar ao outro, tornam-se Dois. Ao contrário, se forem diferentes , ambos terão algo a aprender um com o outro, mais razões terão em se dar harmoniosamente e em desejar estarem juntos todo o tempo, mesmo que a cada qual lhe caiba deveres diferentes. Mais tarde ou mais cedo, cada um de vós irá sentir o Amor em vossos corações todo o significado do Amor. Conhecerão o sinal no momento em que algum de vós sentir amor por outro. O vosso coração saberá como ninguém lhes transmitir tão divino sinal do Amor. Ao contrário da Dor Pessoal que nos faz ter um nó em nosso coração puro, o Amor transmite um nó de felicidade e alegria, no exacto momento em que sentimos o Amor. O Amor esconde-se em qualquer local. Teremos de ser nós a descobri-lo, seguindo os verdadeiros sinais que a Sabedoria nos transmite, ninguém mais saberá nos desvendar o caminho desse verdadeiro Amor. Cada Princesa saberá que o seu Príncipe havera chegado, embora lhe apareçam muitos Príncipes à frente, e vice versa.<br />O Mestre tocou forte nas palavras mágicas para Helena. Será que ele sabe do seu segredo? Será que o Sol lhe havera contado tudo? Ela sabe que o Sol fala com os seres que querem abrir seus ouvidos para ele, atravéz de uma voz interior. Só pode ser. Ou então foi pura coincidência. Ou então ainda, foi de novo um sinal.<br /><br /><br />Raio de Sol sabe que os Anjos falam connosco atravéz da voz de outras pessoas. Pequenas palavras ditas não para nós, que nos chamam a atenção a problemas antigos: é chegada a solução. Ela sabe que os Anjos existem, e convivem connosco diariamente e tal como o Sol, seremos nós a ter a capacidade de os ouvir. Um Anjo falara com ela atravéz das palavras do seu Mestre, das palavras sobre o Sonho, o Amor, sobre o Príncipe e a Princesa. Obrigado Sol.<br /><br /><br />Helena estava como era já hábito, no átrio de entrada a contar as histórias à sua pequena multidão. Estava já perto de terminar, quando alguém muito chegado ao Mestre lhe chegou perto e pediu-lhe para interrompê-la. Helena deu então por acabada as histórias por esse dia. Seguiu o homem até fora do átrio.<br />-   Chegou o Guerreiro da Luz e o Mestre queria muito que fosses ter com ele para o conheceres. Foste a eleita, como sendo a melhor das discípulas, de te sentares à mesa como anfintriã.<br />Helena sentiu-se orgulhosa. Despediu-se das pessoas, pegou no seu cavalo e seguiu o homem. Chegados a casa do Mestre, ele os esperava.<br />-   Ainda bem que chegaram breve e ainda com luz do Sol. Raio de Sol, chegou o Guerreiro de Luz, alguém mais Mestre do que eu, e queria que tu, como a melhor de todos os discípulos, services de anfitriã do ágape, como é da nossa tradição. Assim, irás me ajudar em todos os afazeres.<br />-   Com muito orgulho, Mestre. – respondeu ela.<br /><br /><br />Então, Helena tomou conhecimento pessoal sobre quem era o Guerreiro da Luz, esse misterioso personagem. Era um jovem um pouco mais velho do que ela, muito bem parecido e muito gentil. Ela esperava que um guerreiro da Luz fosse alguém no mínimo diferente: mais Guerreiro e menos Luz. Mas parecia-lhe um ser de Luz, sem dúvida. Como era da tradição, Helena, como a melhor dos discipulos, e o Mestre tentavam fazer o melhor para que toda a cerimónia corresse bem e organizavam o pessoal. Alguns dos outros descípulos serviam à mesa enquanto outros tratavam das anforas de água (das mais frescas fontes da cidade), e de vinho. O Guerreiro da Luz trouxe com ele alguns outros cavaleiros, homens e mulheres. Tinham vindo da Capital do Reino até ao Sul. Traziam as suas mensagens, as novidades, o Rei adoecera! Esperava-se que fosse algo passageiro. Tal notícia era suficiente para que não pudesse haver alegria de soberba, mas todos sabiam disso, e o ágape correu o melhor possível, mesmo que a alegria fosse contida. O jovem guerreiro foi-se sentar perto da menina que queria ser Princesa, que entretanto crescera e era agora mulher. A Helena ele perto dela parecia-lhe ainda mais bonita. Deu-se-lhe um nó em seu coração puro. Ela viu nisso um sinal: seria o aumento da Dor Pessoal ou de Amor. Era tão belo o jovem a seus olhos. Ele disse-lhe que sabia de tudo sobre ela, de onde viera, e o que veio até à cidade fazer. Que era das mais adoráveis donzelas que já vira pelo Reino, além de bela cavaleira, e além disso, dando já mostras de ser uma pessoa sábia, que além de falar a língua do Reino já aprendera a língua secreta da cidade, cidade esta que era cheia de mistérios e que se tornara um centro de Sabedoria famoso em todo o Reino. A Princesa corara e acreditava que os cabelos do guerreiro, que eram já luzidios à luz da Lua, ainda seriam mais à luz do Sol, talvez da cor de ouro. Entretanto agradecia os seus elogios, isto enquanto o seu nó no coração apertava mais e mais. O guerreiro dizia-lhe que a sua beleza era merecedora de um Príncipe, talvez dos mais belos. Ai, ele era tão belo e Helena quase que não lhe ouvia uma palavra: estava em êxtase.<br />-   Raio de Sol, como conheço muito bem a cidade e tudo à volta, peço-te: vem comigo, vamos dar uma volta de cavalo agora que o Sol está prestes a voltar. – disse o guerreiro.<br />Ela acedeu ao convite. A hora era já tardia e ela já não era necessária no ágape e além disso, um convite de tão bravo personagem, jamais poderia ser negado. E assim montaram seus cavalos e foram por caminhos em direcção ao ribeiro. Ele referia-lhe que a sua missão era de enorme nobreza, querer aprender tudo o que havia para aprender para depois fazer as crianças da aldeia sonhar também. Mas o que dizia ele? O aperto no seu coração era cada vez maior. E ela desconfiava que não era a Dor Pessoal que se mostrava no seu coração, mas sim o Amor. O Sol começou a mostrar-se, e eles foram maravilhar-se com os Lírios no campo. Já pela tarde regressaram à casa do Mestre.<br /><br /><br />Desde que o Guerreiro da Luz se foi embora com os seus companheiros, Raio de Sol nunca mais foi a mesma. Sentia um complexo de solidão, embora o disfarçasse ao máximo seguindo o rumo das suas tarefas, sempre com o mesmo sorriso na boca. Mas ela sofria... O aperto dera lugar à saudade do guerreiro. O seu coração desfalecia. E cada dia que passava era como anos. Enamorara-se por um cavaleiro, a menina que queria ser Princesa que entretanto crescera e era já mulher.<br /><br /><br />Sol, meu amigo, meu companheiro de infância. Eis o meu sonho a desfalecer por completo. Tanto sonhei em tornar-me Princesa e encontrar o Príncipe dos meus sonhos e o meu Príncipe tornou-se num guerreiro... O meu sonho acabou por aqui. O Sol repondeu-lhe atravez do coração.<br />-   Raio de Sol, tu nunca paraste de sonhar. O homem cresce e os seus sonhos dissipam-se com a idade. Contigo tal não aconteceu. O teu Principe transformou-se em guerreiro, mas é um guerreiro diferente. Ele é um Guerreiro da Luz, um iluminado, alguém muito especial. Volta de novo à aldeia, um mensageiro terá novidades para te dar.<br />Raio de Sol assim o fez, voltou para a cidade, onde um mensageiro dava as últimas e tristes novidades, criando um sobressalto em todas as ruas. Mulheres choravam. Homens cabisbaichos, temiam pelo seu Reino.<br />-   O que aconteceu, Mestre?<br />-   O rei morreu – respondeu ele. O Príncipe herdeiro está a vir até à cidade. Vem desposar uma donzela. Vai haver uma Rainha aqui da Cidade.<br />Helena, sentiu um misto de tristeza e alegria. Tristeza pela morte do Rei amado, alegria porque poderia pela primeira vez na sua vida ver um Príncipe de perto.<br /><br /><br />A multidão estava em êxtase, Raio de Sol encontrava-se com o seu Mestre e entre os discípulos. O Mestre era alguém muito conceituado, logo poderia o Príncipe vir até ele. E o seu sonho embora não se realizasse, poderia vê-lo de muito perto. Chegaram os cavaleiros e em frente o Príncipe herdeiro. Ela viu-o: era o Seu Guerreiro da Luz. Ele veio ter com o Mestre, desceu do cavalo e veio até em direcção dela, ajoelhando-se:<br />-   Helena. Nosso Reino perdeu seu Rei, meu pai. O Reino necessita de um casal real. Peço-te que sejas a minha Rainha.<br />Raio de Sol não sabia o que responder. O Mestre acalmou-lhe e contou-lhe que os seus pais eram primos afastados do Rei e eram conselheiros em Roma do Reino da Lusitânia. E que ela tinha sido preparada para um dia poder estar entre as escolhidas para subir a rainha. Ela tinha sido Princesa todo este tempo. Helena estava a viver um sonho real, no verdadeiro sentido da palavra. Ela amava-o e disse que sim sem exitar e jogou-se para os braços do seu Príncipe. Ela olhou para o Sol e viu-o a sorrir para ela. Obrigado meu amigo. E assim foram eles até à capital para ser feito o casamento e a coroação. A multidão gritava: Vivam os Reis, Vivam os Reis.<br /><br /><br />O que se sabe mais desta lenda é que a menina que queria ser Princesa, era na realidade uma Princesa pois o seu sonho era Puro. Puro como o seu coração. E tornou-se Rainha. Segundo consta, foi a mais bela das Rainhas do Reino, e ía sempre que podia à sua Aldeia sentando-se na pedra do ancião falando para as crianças e toda a gente da Aldeia.<br /><br /><br />É por isso, minha filha, que nem eu nem a tua mãe paramos alguma vez de sonhar. E como queremos que sejas tudo aquilo que nós não fomos nem em sonhos, e como queremos que também tu sonhos até toda a eternidade num coração puro e sem Dor Pessoal e com muito Amor, e como nós, teus pais, acreditamos fielmente em cada uma das palavras desta nobre lenda, com esta carta entenderás o porquê de teres este nome, Regina.<br /><br /><br />Os teus pais.</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>FRAGMENTOS I - Fragmentos de Sentimento - A angústia da distância</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3h_fragmentos_i_-_fragmentos_de_sentimento_-_a_ang%C3%BAstia_da_dist%C3%A2ncia</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:23:20 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3h_fragmentos_i_-_fragmentos_de_sentimento_-_a_ang%C3%BAstia_da_dist%C3%A2ncia</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">FRAGMENTOS<br />DE SENTIMENTO<br /><br />Ou <br /><br />A angústia da distância na busca do Ser<br /><br /><br />Tomo I<br /><br /><br /><br /><br /><br />Por<br /><br />Emmanuel<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Ossónoba 2007 <br />Parte primeira. O estado primordial<br /><br /><br /><br /><br />I<br /><br />O sublime da História é: os manufacturados deixados pelo tempo normalmente escrito pelos vencedores. Eis que é chegado o momento de os vencidos terem a liberdade de escrever, de prosar, de alimentar a angústia de não poder dizer, como se de a sua própria alma se tratasse. O poeta vencido, é livre de escrever, orientando um determinado jogo de palavras, de forma tal, a que o produto final se trate de algumas palavras, antes falsamente pensadas, para que ninguém de verdadeiro as lesse. É por isso que História com “H” maiúsculo é para adultos enquanto as histórias com “h” minúsculo, não passam de histórias para gente pequenina, inocentes, perdedores à nascença pelo ecossistema em que nasceram, se perderam. E são perdedores, dizem…, porque ainda não tomaram consciência de que também elas, crianças, que por muito inocentes que sejam, têm Destino, com “D” maiúsculo, como os perdedores grandes que lêem aqueloutras com “H” grande. Por isso o mundo é chato como a personagem que o vos descreve, e chato como aqueloutra personagem que teve a paciência de ler as chatices dos outros. Não, talvez se reconheça nelas, as chatices. Ou talvez busca na sua alma, chatices novas para passar o tempo. E tudo isto na alegria do absoluto viver. Vamos ao fundo da questão, somos todos uns chatos pois o planeta nasceu livre de chatices e nós fomos todos em conjunto, um a um, através dos tempos, trazer para a terra todas as chatices necessárias para tornarmos um planeta que por cinta da sua percentagem de água, tal Elemento se deveria ter tomado de nome mas nós chatos, mesmo nos elementos primordiais somos chatos, tal como sempre o fomos, mas nós: Terra! Não é paradoxo, é estupidez. Para aumentarmos o grau de estupidez de uma magnânime e absoluto formato de insensatez ridicularizada inclusive, pela alegria de o termos cognominado de planeta Azul. Obviamente, somos daltónicos em relação à cor do planeta em que vivemos. Somos ou não somos uns chatos absolutos nos termos de lei que relacionam o facto de “ser-se” estúpido constitucionalmente? Mesmo que encontremos geniais alíneas e quórum aqui e ali só não estúpidos pois alimentam a forma de nos acusarmos uns aos outros escondendo a nossa caixa de pandora sem vermos a cor do coração do nosso próximo, quanto mais a conta bancária. E quando não há conta bancária, há o silêncio, o que por si só é uma chatice.  <br /><br /><br />II<br /><br />Não.<br />Não há mistérios por desvendar. A verdadeira magia dos tempos modernos não está em desvendar mistério. O verdadeiro tesouro da actualidade, a Arca da Aliança, a Pedra Filosofal, enfim, a magia hoje está em ocultar o desvendado. Ridicularizando-o. Fazendo o povo rir-se. Carne para canhão. Personagens demasiado “démodés”. Desvendamos o passado. Mas não há problema algum, meu amigo. Passamos a ocultar o futuro.<br />Se tivermos sorte e alguma cunha, conseguimos pelos menos, dar lustre ao primeiro degrau. Nem que seja para que a queda do Lorde seja só para assustar…<br />III<br /><br />Ali no meio da multidão jazia o corpo do defunto. À volta do defunto, jazia a multidão, que imitava repetidamente, os últimos gritos de agonia do defunto. A morte é um algo muito estranho. Ainda ninguém a percebeu: deve-se bater palmas quando a personagem abandona o local palco onde pela última vez que actua entre nós. E de pé. É assim no Teatro. Devia de ser assim na vida real, ou será que todos dizem somente da boca para fora que a vida é um palco onde nós temos o nosso papel distinto, na mesma peça, sem termos consciência que isso é mesmo verdade? No outro lado do espelho está o defunto a aplaudir os defuntos do lado de cá, pois esse, sabe a Verdade.<br /><br /><br /><br /><br />IV<br /><br />O Absoluto já não assusta as almas. As almas já não assustam o Absoluto. Podemos finalmente ficar verdadeiramente descansados, pois estaremos pacificamente em guerra constante uns contra os outros por toda a eternidade, pois encontramo-nos em plena harmonia. Às armas, às armas!<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />V<br /><br />É sombrio a imagem de te ver partir. De ver os teus cabelos se afastarem, o teu cheiro, a tua face, a tua alma, tu, aquela outra parte que é essência da minha vida sem o saber, cuja obra a ela se destina sem o compreender. Mas isto porque o artista jamais chegará perto de fazer coisas belas, pois as coisas verdadeiramente belas, vêem-se assim, a afastarem-se, pelo vidro da janela desses coches de ferro modernos, a nos dizerem adeus, um até breve, um beijo, saudades (todas essas coisas angustiantes que ajudam a nos lembrar que no nosso fundo ser ainda existe aquilo que se chama sentimentos e que no fundo é a única coisa que nos lembra que verdadeiramente existimos), quando tudo não passa de amor, daquele que o é sem se compreender, o fogo que arde sem se ver. O amor tem mágoa, quando dá as mãos à saudade. A saudade tem mágoa, quando atrás de si vem a lembrança que aquele vidro daquela janela é o princípio físico e básico do ponto de partida da distância. Só a presença de quem se ama nos faz esquecer que, tanto a saudade como a distância, existem. E normalmente andam sempre juntas a namorar. Por isso o amor é um algo bem escuro. Talvez seja para que nele encontremos a nossa luz.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />VI<br /><br />Já que falamos de tal, quem povoa a nossa Luz? Quem a frequenta? Quem connosco frequenta os caminhos nobres da palavra de convívio absoluto e harmoniosamente estampado nos rostos escuros de todos aqueles que não se encontram presentes? Quem se sente feliz e nos abraça por sermos tão-somente estúpidos e chatos como eles. Pois já ninguém alimenta o ego, tornaram-se todos cada vez mais desinteressantes, estejam eles sob uma capa escura de ignorância absoluta de qualquer coisa interessante, sejam eles uns iluminados que escorregam de novo para o vazio escuro da chata estupidez perpétua com a qual marcam ponto em todo o seu santo dia. A mesma estupidez com que assinam os documentos que julgam ser a sua salvação<br /><br /><br /><br />VII<br /><br />Os filósofos e os poetas, esses matemáticos das palavras, dizem por aí, não amam, não têm mulher em casa. Não reproduzem, não são úteis para a sociedade. Dizem por aí e estão errados. Estão errados, pois a sociedade nasce do amor do homem pelo pensamento filosófico e o amor nasce da poesia. Estão todos errados pois estes, ambos reproduzem, reproduzem o pensamento e a palavra, ao contrário desses que dizem por aí.<br /><br /><br /><br /><br /><br />VIII<br /><br /><br />Se os móveis do pensador permanecessem sempre limpos, é porque o pensador passava o tempo a limpar os pensamentos que nascem do pó e ao pó regressam, sem que o pensador alguma vez se tivesse feito notar que pensava sequer. Por isso, muitos pensadores morrem sem saber que o eram. Diz-se por aí em segredo: mais vale um pensador morto do que dois pensadores vivos. É melhor limparmos o pó dos móveis e deixarmos o facto de pensarmos para segundo plano. Também nós, tal como os pensamentos, do pó viemos ao pó regressaremos. Já agora, limpemos também o pó daqueles que por cá andaram e deixaram os móveis sujos e desarrumados, e que por nossa própria embirração, os vemos como pensadores. Esses seres imundos e falsos. Que nem mulher nem espelho têm em casa. Seres malditos.<br /><br /><br /><br />IX<br /><br /><br />Está um Sol pestilento, esta noite. Anoiteceu um falso anoitecer, pois é daquela espécie de noite que vem e diz que tu não estás aqui. E como é um anoitecer diferente daquele anoitecer em que aqui te encontras, e vejo que se torna um anoitecer real, credível, verdadeiro. Este anoitecer é tão palpável como um raio de luar ou de Sol. Este anoitecer, eu tento agarrá-lo mas ele esvanece-se pelos meus dedos como um falso anoitecer. E só os verdadeiros anoitecer em que estás presente é que são dignos de serem seguidos pela noite. Só a nossa presença torna o que quer que seja verdadeiro ou não!<br /><br /><br /><br />X<br /><br /><br />Eu não sou poeta. Não sou poeta porque os poetas são ricos naquilo que dizem. Por ser pobre nas palavras, não posso ser poeta. Eu não sou filósofo. Não sou filósofo porque os filósofos são ricos em pensamentos. Eu, como sou pobre no meu pensar, não posso ser filósofo.<br />Infelizmente ser-se verdadeiro, pobre em palavras e parco em pensamentos, ainda não deu direito a riqueza.<br />Mas felizmente, só o pensamento e a palavra do pobre, são verdadeiros e credíveis. Pelo menos na televisão, porque crédito bancário é para poetas e filósofos.<br /><br /><br />XI<br /><br /><br />Pobre do Pessoa. E pobres de todos os outros Pessoas que não o chegaram a ser. Ou porque limpavam constantemente os pensamentos feitos pó, dos móveis quotidianamente, ou porque nasceram no lugar errado à hora errada. Nasceram, sim, nasceram, mas não estavam lá os reis magos da sorte e da boa fortuna, mas tão-somente alguns pastorinhos pobres a pastar gado, angústia e infortúnio, pelos montes do pensamento. Gases. Seres que sublinham o incógnito da vida, que se evapora logo a seguir a termos expirado um ar de cansados crónicos que lutam por uma razão qualquer, que tanto dão nome às coisas como lhes retiram o seu verdadeiro sentido. Ai etimologia, monstro maldito dos Pessoas demasiado instruídos pelo vazio.<br />Pobre do Pessoa, que nasceu pessoa sem o ter sabido, não fora o infortúnio de seu nome. A ele devemos o facto de muitas outras pessoas também o serem. A ele devemos também o facto de outros que poderiam tê-lo sido, não o foram.<br />O pó, em alguns armários e móveis, guarda muito dos pensares do pensador dono desses ácaros amigos. O pensador limpa o pó do armário da sabedoria assim que a missão da sujidade tenha cumprido a sua missão de ter feito tal pessoa, um pensador.<br />Assim, também eu limpo o pó do armário da minha alma.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Parte Segunda. O método da reflexão.<br /><br /><br /><br />I<br /><br />Agora que o pó está limpo, vou fazer um trabalho mentalmente dinâmico. Vou pegar na alma, sair de mim e fazer o meu auto-retrato em palavras. Assim, separa o útil do vil, pego no primeiro e retiro-o do corpo, tendo assim finalmente, um bom ângulo de visão para o poder realizar.<br />Olho para mim, corpo, a enfiar palavras completamente aleatórias umas atrás das outras e só parar até que todas juntas encontrem, lidas convenientemente, pareçam ter algo para dizer. Olho e vejo o homem, corpo, que escreve, alimentado pela matéria, despido de mente e nu em palavras. Descrevo o corpo, como a prisão daquilo que o faz mover. Concluo então aquilo que sou: pobre nada, experiente em inícios, especialista sobre o fim, imagem que retrata o além feito aqui, demasiado carnal, físico, ser isento da alma que o descreve. Noto então que minha alma chora de dor, de angustia, de saudade do corpo. Pego na alma, reúno de novo o útil do vil ou fútil, e volto a ser eu. Agora pego em mim, corpo e alma, e leio o que descrevi.<br />Que quadro pobre, as palavras que a minha alma teve, foram de muito pouca cor, e o modelo que encontrou, não abonou para o produto final.<br />Auto-retrato.<br /><br /><br /><br /><br />II<br /><br /><br />Haverá razão para que a grande maioria morra incógnita? É confuso quando se pensa em coisas de liberdade, igualdade, fraternidade, coisas humanas, mesquinhas. Tal como este pensamento, mesquinho e incógnito, invisível das coisas essenciais para viver, seja reconhecimento, seja exposição. O pior de tudo é acaba por ser o facto de, o que acaba por ser exposto não ser a alma, mas sim, palavras capazes de explicar o pensamento que vai na alma. Como tal, é tudo muito invisível. E diminuto. Como o pensamento é maior e mais denso que as palavras, é exactamente assim, a alma em relação ao pensamento. Se, assim mesmo, tivermos a capacidade de imaginar podermos unir toda as almas deste mundo, a sua densidade, o seu global, e lermos todas as palavras lidas no mundo, perceberemos desde logo, qual a razão de passarmos a vida em harmoniosas guerras constantes.<br />É por isso que eu às vezes penso que, afinal é o Homem, esse ser amaldiçoado desde a sua génese, e não a Serpente que tão bem o conhece.<br />Será por isso que, não passamos como por aí se diz e se escreve, de meras imagens?<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />III<br /><br />Assim nasceu o Poeta,<br />Perdido no sub mundo da escuridão,<br />Com momentos de iluminação<br />Transformados por palavras fúteis<br />Tão malditas como úteis.<br /><br />E porque foi assim que nasceu o Poeta,<br />A Poesia tornou-se um encanto<br />Coberto por um pesado manto<br />Feito de solidão, mágoa e dor<br />Manto pesado incolor.<br /><br />O Poeta renasce de suas cinzas<br />Pelos elementos materializado<br />Por isso ele volta tão magoado<br />Pelo silêncio e circunstâncias<br />A vida... sequelas de redundâncias.<br /><br />O Poeta nunca morre da Dor<br />Pois a Dor foi escrita por si<br />Para de alguma forma chegar a ti<br />Para que sintas o que o Poeta sentiu<br />Reflectir como o Poeta reflectiu.<br /><br />O Poeta só sente o Desgosto<br />Quando o desgosto veio para ficar<br />Para, em puro Amor, se transformar<br />Numa transmutação secreta...<br />... Pois assim nasceu o poeta.<br />IV<br /><br />Eclipse<br />Renasço das cinzas para o eterno infinito do julgo humano<br />Onde só as trevas iluminam o viajante que penetra pelo brejo.<br />Ai, o Homem subiu as escadas e Jacob nem se queixou...<br />O Fogo olha-me com desdém. Seus olhos me queimam,<br />Eu, só tenho tempo para abrir a janela e olhar o silêncio.<br />Malditas esquinas de tortura, que enfrento em plena chuva.<br />Mas quando chove...<br />Dói-me os pulmões só de saber que o fogo se apaga,<br />Destruindo obra eterna por este mago construída,<br />Transformando de novo em pó, este Fénix que há em mim.<br />Por isso chamam-se Eclipse estas palavras,<br />Porque o ser está lá mas não se vê...<br /><br /><br /><br />V<br /><br /><br />I<br />O Poeta foi à montanha,<br />Para sentir o precipício mais perto,<br />Saber como seria o fim do dia.<br />O Poeta foi à montanha, <br />Mas só lá foi porque ela foi mais forte<br />E não se moveu.<br />A montanha não se comove com falsas promessas,<br />Ágeis e desviadoras promessas de amor e sofrimento,<br />Que só o Poeta consegue dizer.<br />Só porque a montanha não se moveu,<br />Ficou sólida como uma rocha,<br />Permaneceu imóvel.<br />O Poeta foi à montanha, para mentir uma vez mais<br />Sobre si e sobre os outros,<br />Para fingir que é tudo verdade,<br />Certo, lógico, falso e incorrecto.<br />A montanha permaneceu imóvel,<br />Só movia os seus restos vitais,<br />Os arbustos, as estevas, os ramos das árvores...<br /><br />... Mas o seu ventre permaneceu fechado,<br />Para o Poeta.<br /><br /><br />II<br />O Poeta risca, continua a riscar, escreve!<br />Ele pára o Tempo com caneta e papel.<br />Abusa do sonho, da luz, da caneta – a sua candeia<br />Passa o tempo a cansar os olhos,<br />Em busca do seu espírito.<br />A alegria do Poeta é sempre breve,<br />É sempre uma faísca de luz,<br />Um pingo de água no meio da chuva,<br />Algo muito pequenino.<br />Mas o coração do Poeta<br />É o seu fogo,<br />É o seu espírito,<br />A razão da sua existência,<br />O seu divagar constante e romântico.<br />Cavaleiro cavalgando pelos vales<br />Solitário e alegre,<br />Interiormente: pesadamente infeliz!<br />O fechar dos olhos do Poeta,<br />É o fechar da caneta e do papel<br />Para a pequena e para a grande eternidades.<br /><br />Só lhe aflige a missão:<br />De meditar e continuar a escrever,<br />Até ao fim do seu dia!<br /><br /><br />III<br />- Que pensas tu Poeta?<br />Para que olhas o infinito?<br />Terás algo a cumprir,<br />Com quem pactuaste tu?<br />A quem deves?<br />Ai o que pensava eu de ti, Poeta,<br />O sublime fingidor<br />Amador da Pátria,<br />Agreste de pensamento<br />Com o seu reino nas parábolas.<br />Por isso te amava, ó Poeta!<br />Até ao murchar de meu coração<br />Foi o fim da corrente,<br />Tudo se desligou!<br />Poderias ter feito o que quisesses<br />Abusado, até...<br />Mas perdeste-te nesse olhar longínquo<br />No emanar de sentimentos,<br />Com fixação nos estados de espírito,<br />Ao vazio,<br />Ao nada,<br />Por vezes até ao talvez.<br />Meditas e sonhas,<br />Escreves falando para ti mesmo,<br />Perdendo...muito devagarinho,<br />O receio de que o fechar dos olhos<br />Mais não seja do que o mudar de página.<br /><br />...por isso te amo, maldito Poeta!<br /><br /><br />IV<br />O crime do Poeta,<br />O saber dizer,<br />O saber fazer explodir a palavra,<br />Numa forma penetrante e doce,<br />Que jamais se esqueça,<br />Ou por assim dizer,<br />Que jamais perdure.<br /><br />O crime do Poeta,<br />O fazer sentir,<br />O fazer cumprir a palavra dada,<br />Em algo de primaveril,<br />Que no tempo permaneça,<br />E que jamais se esqueça,<br />De que tudo é vil.<br /><br /><br /><br /><br />V<br />Porque fala o Poeta?<br /><br />Porque fala o poeta coisas de mágoa?<br />Porque fala o poeta coisas da dor?<br />Porque fala ele se não sente frio nem calor?<br /><br />Porque fala o poeta de tormentos?<br />Porque fala o poeta de tristeza?<br />Porque fala, se falar não é sua natureza?<br /><br />Porque fala?<br />Porque não se cala?<br />... Simplesmente,<br />Ele mente,<br />Ele finge<br />E ele restringe<br />Uma palavra ao coração.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />VI<br /><br />Paixão, paixão<br /><br />Tu,<br />Sim, tu,<br />Rasga-me a pele com as tuas unhas,<br />Até que o sangue me lembre minha existência,<br />Neste cruel declínio ao fim maior.<br />Tu,<br />Sim, tu,<br />Prende-me essas garras na minha carne,<br />Até que o passado me corroa o espírito fétido,<br />Neste cruel desígnio de dor.<br />Paixão, Paixão,<br />Que abriste o meu túmulo secreto,<br />Reservado ao meu discreto cadáver,<br />Que fugiu, qual serpente, de teus pés!<br />Paixão,<br />Paixão,<br />Cruel jogo de dor e fantasia,<br />Desfalecendo meu podre coração,<br />Ó maldita Paixão..., que não sei quem és...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />VII<br /><br />Reflectir, é buscar um sentido para aquilo que se observa. É estudar aquilo que se reflecte em frente a nós. Faz parte do método teórico.<br />É por isso que não conseguimos reflectir sobre aquilo que não se observa, cujo reflexo é-nos invisível ou inexistente. Por isso não reflectimos sobre aquilo que sentimos. Por isso somos animais.<br /><br /><br /><br /><br /><br />VIII<br /><br /><br />A vida é para ser realizada sim, para ser feita aos poucos, com a paciência de quem quer atingir de alguma forma sonhadora, a perfeição, de forma a saborearmos cada momento. Realizar a vida não é a chatice ou o tédio que nos consome, é ver nela algo que nos comprometa com o tempo, em cujo tempo nós realizemos fragmentos de felicidade que, todos juntos, digam que temos uma vida.<br /><br /><br /><br /><br /><br />IX<br /><br />Entre fragmentos de sentimentos, entre a angústia da distância e eu, estás tu, aquela que me quer ver, que verdadeiramente me preocupa. Estás tu porque sinto o teu preenchimento, mesmo em pleno silêncio. E escrevo estas frases com uma esferográfica que tem o dom muito próprio de escrever sempre. É como este amor que sinto por quem me preenche. Está sempre presente, na angústia da distância, no silêncio.<br />É este o espaço que há entre nós os dois e que nos une e ainda nos distancia dos outros.<br /><br />X<br /><br />O estado primordial, o método da reflexão. Paixões antigas, do mundo do pó do pensador, poeta de caligrafia, filósofo dos métodos aplicáveis à razão do próprio pensamento. <br />Estes fragmentos existem, como tal, assim se explica a nossa existência. Porque somos fragmentos da própria existência. Por nós próprios. Pelos outros.<br />São fragmentos juntos a palavras descritas pela solidão do não reprodutor. Mas nada aflige, visto nada poder afligir. Cabe a nós existirmos para os outros e aceitarmos que os outros existam para nós. Estranho método de reflexão: uma estranha disposição de espelhos e imagens.<br /><br /><br />XI<br /><br />Pega-se no sublime do sonho, retira-se o surrealismo e vive-se, como se fossemos os seres mais felizes do planeta.<br />Parte terceira: Os nossos Eus.<br /><br /><br />I<br /><br />É este o Terceiro capítulo destes “Fragmentos”. É aqui então, que vou dar início a esta espécie de ensaio “Fragmentos de Sentimentos – ou a angústia da distância”. E começo no terceiro capítulo porque sim, assim como, admito, encaro um título acrescentado. Porque sim, também.<br />É trabalhoso reunir vários pontos de vista de momentos completamente distintos uns dos outros, que se assumem vagarosamente, a um público chato, que não tem mais nada de útil para fazer que ler tédio, um ensaio do qual se sabe à partida que no fim não haverá nada de novo para quem quer que seja. Chegado aí, quem quer que seja o leitor deste “ensaio”, perceberá logo porque raio é que este ensaio procura ser isso mesmo, um “ensaio” sem que tenha alguma vez passado por ser ensaiado.<br />São fragmentos, como tal, existem. O tempo comandou as palavras, a alma exerceu uma força maior e ao corpo foi dada a ordem de escrever. Por isso dou comigo muitas vezes a pensar: damos tantas vezes demasiada importância a nós próprios que até chateia. Isso preenche o tédio, composto por cada dia que passa, todos como um só dia, na esperança de que o momento presente seja sempre o melhor momento da vida, possível nesse exacto momento.<br />E para ti, que ainda há pouco tempo tiveste aqui presente em corpo, deixa-me beijar-te a alma com estas páginas.<br /><br /><br /><br />II<br /><br />Uma parte de mim escreveu uma vez o ensaio “Para ontem, para hoje…, para sempre!”. A mesma parte de mim ficou feliz na sua alma, de cima abaixo, por tê-lo reencontrado, porque se encontrava perdido, sem razão aparente, colocado de parte entre milhares de fragmentos da razão. Reescrevê-lo, voltar a sentir a pressão de quem escreve uma obra-prima pela primeira vez, sem o saber, sem o ter dado a conhecer. Mas havia as outras partes deste corpo meu que choravam compulsivamente por terem, também tais partes, dado os escritos por perdidos. Foi por isso, muito importante para este corpo tê-lo tido de novo em mãos.<br />É que para o corpo que o escreveu sob ordens desse um outro alguém que de dentro de mim se precisava de exteriorizar nessa dada altura do tempo e do espaço, que para mim, corpo visível e abstracto, nada mais era do que palavras colocadas no papel, de forma teatral com quatro personagens principais: juventude, velhice, Diabo e Tempo. Que tudo era diferente e que tudo era igual.<br />Anos depois, mais de uma década, enquanto fui milhares de outras pessoas cada uma segundo cada diferente pensamento que tive durante todo este tempo de separação, tais escritos me parecem tão ou mais lógicos hoje, como quando foram escritos. A frieza do espírito que pegara em minhas mãos, a capacidade que teve para explicar a vida, tal como ela é, tal como se nos apresenta, a demonstração do Diabo interior de cada um, serpenteando em nossos sentimentos, tendo o Tempo como palco, foi uma espécie de êxtase. Um orgasmo literário, um tratado temporal, o meu corpo aceitou-o com uma enorme alegria. A mesma alegria que enche de tédio cada um que lê e se lembra do seu Demónio interior, pois as batidas do coração alteram-se, o tédio chateia e enerva, e lembra-nos que cada personagem interior nossa tem uma imagem no exterior, um pouco como a primeira lei de Hermes Trismegisto. Essa noção de realidade cruel, faz o nosso coração chorar ao se aperceber da presença do nosso inferno.<br /><br /><br /><br />III<br /><br /><br /><br />As pessoas que coabitam dentro de nós, revelam-se naquilo que nós, artistas, julga ser-nos mais intimamente “nosso”. Nas palavras, às vezes tão diferentes umas das outras, nas músicas, harmoniosamente tão distintas, nas pinturas, onde se cruzam ideias em patamares tantas vezes tão bem complexos. Nos actos. Nas palavras. São essas pessoas que insistem em nos explicar o quanto estamos errados. São essas mesmas pessoas que se chateiam pelo facto de as negarmos e rirmos inclusive, delas próprias. São essas pessoas que nos abandonam quando nós próprios deixamos de ser pessoas para passarmos a nos juntar com aqueloutros, até que alguma pessoa realmente disposta a aceitar o desafio de pensar diferente, sentir diferente, ver uma vida diferente, finalmente, o compreenda. E verifique nos actos artísticos que faz e divulga, o devido agradecimento do dom, vindo do interior, a essência daquilo que se vai expor.<br />Quanto a mim, obrigado gajada e um breve “até já!”<br /><br /><br /><br /><br />IV<br /><br /><br />A vida é um pequeno fragmento na morte. A morte é um pequeno fragmento na vida.<br />Sou como muitos outros, gosto destas coisas de morte, escuridão, o outro lado. Tal como muitos outros, demasiadas vezes me esqueço deste nosso lado de cá. Às vezes parece que nada disto tem importância. É como se tudo fosse um valente nada, e todo e qualquer momento não passasse da materialização de uma fonte do nosso desejo, do nosso estado de espírito, enfim, de quem more dentro de nós e tenha despertado.<br />A morte é uma outra forma de convívio. Convivem os vivos porque morreu, convivem os mortos porque nasceu. Acho que tudo não passa de um problema de electricidade… qualquer coisa relacionada com Luz. Que chamassem um electricista que resolvesse o problema!<br />As coisas escuras, da Morte e de todas essas coisas más que fogem do socialmente correcto como o careca do pente, as metáforas doentias, os tabus filosóficos, as heresias pagãs, estas coisas que todos pensam e não se fala muito, são, quando se escreve, as coisas mais vulgares possíveis.<br />Os poetas, os filósofos do oculto, os ofuscados da luz, toda essa gente, são tão previsíveis, que até chateia. Porém, continuam a falar da morte e dessas coisas…<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />V<br /><br />O mais corajoso dos homens é aquele que no meio de tudo isto, ainda tem a coragem de pensar. São vários os perigos do pensamento: a convicção, a intuição, o conflito. Há depois outros que têm a coragem de dizer que pensam e que raciocinam quando têm a vida completamente controlada ao minuto, ao segundo, não percebendo que o relógio do pensador é um relógio a sério, feito pelo arquitecto da vida, o construtor universal e esse, não é corrector da Bolsa de Valores, pois é nesse que já se encontram os valores. E um homem que pense sobre a construção manifesta do Universo, além de corajoso pensador, não pode levar muito a sério a sua condição de homem. Torna-se um semi-homem. Começo a ter pena dos pensadores. Terão um fim horrível e perverso como as suas palavras e seu corajoso pensar. Mas é isto que faz a vida valer a pena. Merecemos os nossos totós. Penso, logo desisto!<br /><br /><br />VI<br /><br />Ando a cavar buracos. E os buracos tornam-se cada vez mais fundos. É cada vez mais difícil sair de um para cavar o buraco seguinte. Não quero pensar sequer, no dia em que deixar de poder cavar mais buracos. É triste, porque normalmente o nosso último buraco não foi cavado por nós. Ando a cavar buracos…<br /><br /><br /><br /><br /><br />VII<br /><br />Desta janela descubro o mundo por inteiro. Pessoas, carros, casas. Outros animais além das pessoas, coexistem. Aves. Já houve acidentes, assaltos, tiros, incêndios, pancadaria. Já houve tudo o que existe no mundo. No entanto, a minha rua é calma e silenciosa como o mundo inteiro.<br /><br /><br /><br />VIII<br /><br />As pessoas não têm o tempo para sentir. O Homem anda a perder sentidos que não se harmonizam com o progresso. O Homem é o único animal que não tem capacidade de andar para trás. Por isso o Homem não sente. Não tem tempo para sentir. Vem aí o vazio não tarda. Vai ser triste o vazio comandar a humanidade até ao fim dos tempos. Não vou estar cá para ver, assumo.<br /><br /><br />IX<br /><br /><br />Nas páginas do meu conflito, eu escrevo fragmentos de tudo o que se move dentro do armário do pensamento, o bom e o cruel, o fútil e o magnânime. Por isso, cada momento que penso em ti, quando tu estás, quando tu não estás, é um momento de enriquecimento para o pó do meu armário. Não é isso que é o amor?<br /><br />X<br /><br /><br />Esta é a maneira mais simples que arranjei para manter ocupado o meu tempo livre. Arrepia-me pensar que tantos outros como eu nunca tiveram com que escrever…<br /><br /><br /><br />XI<br /><br /><br />Continuamos pagãos, usurpadores, estúpidos. Busca-se na filha de Maomé nome para uma Nossa Senhora. Busca-se nos apócrifos presépios abstractos com pastagens no deserto, fez-se das bacanálias pré-romanas, um natal onde se despe um inocente, numa fria caverna em pleno gélido Inverno. Usurpa-se Páscoas e crucificam-se ícones em dias de festa, mantendo-os, como ídolos, iconoclasticamente pregados ao sofrimento da cruz, para toda uma eternidade. Se isto não chama a atenção para o Juízo final, é sinal que o nosso juízo chegou ao fim. Ámen.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Parte quarta. O Inferno.<br /><br /><br />I<br /><br />Dantes havia deveras um inferno diferente. Um inferno onde todos ardiam contentes acorrentados a rochas. Um inferno muito parecido a um incêndio em masmorras subterrâneas, mas onde ninguém morria queimado, mas sim, tinham aquele modo de vida para toda a vida. Mas este inferno que eu sinto é um inferno muito mais real, com correntes mais fortes, ancorados ao mundo do impossível. Nascemos incógnitos e se alguém não o quiser, incógnitos morreremos. Qualquer caminho que se percorra, há um diabo à porta de entrada, uma mole de questões praticamente abstractas, que nada servem para o caminho que se pretende seguir. E somos livres.<br />Dantes, havia um inferno muito trágico, com grandes cenários, derivado da criatividade que dantes, pintores entregues à filosofia, e que transformavam pensamentos em obras de arte, cuja qualidade perdura até hoje, são a imagem que nos faz crer que esse inferno dantes, era bem melhor e mais criativo que este, nosso, real. E somos livres.<br />Além do mais, somos livres de pintarmos o nosso inferno da melhor maneira possível de forma a tornar o nosso inferno quotidiano, um pouco mais agradável aos nossos olhos. Por isso, até os pintores são infames seguidores de Satanás.<br />De uma forma ou de outra, seremos sempre livres, mesmo que não o sintamos, mesmo que não o sejamos. A liberdade é sempre um ponto de vista que parte de cada qual ao ataque do nosso próximo.<br /><br />II<br /><br /><br />Então arde.<br />Arde.<br />Arde, homem de Deus.<br />Não cá estás para pregar o sofrimento?<br />Não és a realização da dor?<br />E o inferno não é sofrimento e dor?<br />Então arde.<br />Arde, homem de Deus.<br />Arde, como outro fim não existisse.<br />Arde, como se o sofrimento fosse a razão, e a dor o tacto.<br />Arde, pois enquanto ardes, dormes, <br />E enquanto vais adormecendo,<br />Vais ardendo a tua ignorância de vivência sem prazer.<br />Pois a vida não é dor nem sofrimento.<br />Isso é o Homem, a carne.<br />Por isso arde, homem de Deus.<br />Arde, como o teu Diabo,<br />Que eu já ardo com o meu…<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />III<br /><br /><br />As sombras que comprometem a ilusão da nossa existência, dizem-nos que a luz escurece o movimento, o corpo, a matéria. E qual a matéria de que são feitas as sombras? Existem. É também algo que parte de nós e nos enfurece, pois as sombras dominam-nos. Podemos esconder-nos da mulher, da família, dos amigos, do mundo inteiro, de Deus inclusive, mas jamais conseguiremos esconder-nos de nossas sombras. Elas, de matéria maldita fabricadas, são a ilusão da nossa existência, indicam exactamente a futilidade da distancia do pensamento que parte de nós e alcança a eternidade.<br />O que me deixa feliz no meio de tudo isto, é que não fora a nossa existência, a consciência da nossa existência, as sombras jamais existiriam. Pelo menos na nossa consciência.<br />Até as almas têm sombra. Eu, ao menos, vejo a sombra da minha. Até na sombria escuridão, a sombra da alma está presente.<br /><br /><br /><br />IV<br /><br /><br />Lá vai o ardina da publicidade, o estafeta do consumismo, homem de bem, que busca praticar o bem, entregando o bem a todos os domicílios. Lá vai o ardina, anjo do inferno, pele de cordeiro, que deixas a cauda de fora nessas palavras escritas em preçários coloridos, doces como mel. Lá vai o ardina, ardendo…<br /><br /><br />V<br /><br /><br />O Demónio veio à Terra para ser adorado. Desceu dos Céus para se sentar no trono da idolatria. Tal como o Homem, tornou-se uma imagem de Deus. Tal como uma imagem de Deus, tornou-se Rei no Reino de todas as Maldições. E está entre nós para comprometer as nossas almas. Nada mais verdade e inocente e que nos apodreça por dentro cada segundo que passa. O Demónio veio à Terra para ser adorado, não importa de que maneira, independentemente da imagem que tomasse. Há forças com as quais parece estarmos impedidos de lutar. Nada mais parecido com o dinheiro.<br /><br /><br /><br />VI<br /><br /><br />Novecentos e noventa e nove, milena disfarçada. Porque nos enganas tu, com os teus requintes de malvadez. Persuasiva, que nos encantas nesta nossa boa fé de querermos inocentemente, poupar um bocadinho…Novecentos e noventa e nove, diz-me tu, qual o teu papel neste palco chamado Inferno, pois sempre que entras em cena tens atrás de ti, um cenário maravilhosamente bestial?<br /><br /><br /><br /><br /><br />VI<br /><br /><br />O estado de plena consciência de uma existência, é um pesado fardo com que somos todos brindados neste tenebroso inferno. Nós tivemos a capacidade de perdermos de vista o nosso jardim do Éden, agora, cravamos as muralhas para o tenebroso final, seguros de nós, na consciência do puro anjo, que perdeu o norte e o tempo, nem se afeiçoa a Cronos, nem percebe de Hermes as instruções. Pobre anjo. Cruel destino para quem iria jurar que tudo seria diferente num regresso. Que a memória jamais o atraiçoaria. Que o Bem iria retomar o seu poder na Terra. Foi nesse exacto momento do sonho, que despertei e percebi para comigo que até os anjos andam perdidos no Pleroma. Os cavalos alados da mitologia, não são preocupantes. Tampouco o é, pavorosa Fénix feitas de pó sangrento pleno de alma que erguem nas brumas do descrédito pagão. Perdemos os nossos Deuses, acorrentaram-lhes à terra, retiraram-lhes galões, e mentiram-lhes com beatitudes e santidades. O Inferno é um eterno festim, um banquete de Sábios que se deleitam com os segredos ourobóricos, pois a serpente os acompanha, tem-nos acompanhado desde sempre e agora, dias antes de tomar partido do que lhe pertence, entrega-se, também ela, ao deslumbre do prazer, e ao ébrio ócio do ódio e da crueldade alheia, visível aos olhos que enfrentam um qualquer ecrã, símbolo da modernidade do próprio deus Hermes, com asas nos pés, cujas notícias seguem a velocidades divinas de monte d’Olimpo a monte d’Olimpo, todos os satélites para lá estão virados. É para lá também, que se viram os nossos beatos, santos, profetas, títulos doutrinais de pescadores de almas perdidas e mentores da desgraça. Aia o fim do mundo! Ai o fim do mundo? Esse fim do mundo, acontece alheio a todos os pregadores do fim dele.<br /><br /><br />VII<br /><br />Foi por um acaso de sorte e de morte. Quando estava eu em consulta por entre fragmentos perdidos, pegando naqueles que se encontravam mais sedentos de luz (o Inferno também tem luz, certo? Mesmo sendo uma luz momentânea que escureça para a eternidade), quando ia trocando umas páginas do amigo Soares, o Bernardo, esse monstro sagrado do tédio e do que qualquer coisa resulta numa outra coisa qualquer, e então? Ele sabia-a toda! Pessoa essa, que não era em nada genial, mas sim, um verdadeiro chato, que fala linha a linha como se tivesse de poltrona ali em frente a nós, num dos seus sagrados momentos em que amontoa uma mole de palavras de uma certa forma, transforma excertos em frases e concorre ao prémio “pensamento autodidacta feito pelos livros e pelo tédio mor, de quem semeia a discórdia e prefere manter-se calado, escrevendo”, só porque chegamos à conclusão que ele já sabia de tudo. Há pessoas assim, que são do Céu e vêm ao Inferno dizer as coisas, o que para eles é uma chatice horrível, pois longe de nós fazermos esses “seres-anjos” alterarem o que quer que seja das suas missões, pois estamos aqui todos, é para errar! E porque erramos! E voltaremos a errar as vezes que forem precisas para que tenhamos estes tediosos chatos para nos esclarecer as ideias mais abstractas sobre a simplicidade das 24 horas do dia mais fastidioso que se passa no presente. Ele, logo ali numa “Autobiografia sem factos”, que diz logo que nada daquilo se passou na realidade, o que nos obriga à conclusão que ele já era um chato mesmo sem as chatices ocorrerem, entrega-nos de bandeja a ideia dessa mente saudosamente infernal. Não só porque a vida dele seria mesmo um Inferno (pois ele era uma pessoa que já de nome andava no inferno), mas também como ocupava o seu tempo livre a escrever calhamaços de folhas discretamente tormentosas para quem não tivesse o cuidado de as evitar, de antemão, sabendo o óbvio que é, que ele já era chato como nós, chato e infernal, e mantinha o orgulho estúpido de se expressar de forma adorável sobre aquilo que todos querem evitar e sorriem com as verdades reais ainda mais bestas e terroríficas, mais tormentosas, mais reais. Então não é melhor, por mais infernais que sejam, escrevermos imagens da realidade? O homem escrevia sobre a relação morte/sono. Será um sono que não se acorda? Será um despertar de que não se recorda do que se sonha e que eis surgir um novo dia, renascido numa nova realidade? Que se sabe sequer em imaginar o futuro se nem conseguimos embelezar o passado? Nem na memória actual, quanto mais em Memória de vivência anterior. Assim por assim, de dimensão em dimensão, vamos cada vez para uma mais pequena assim que daqui termos entrado pela via também ela, do pequeno. O somo do espermatozóide foi o despertar do homem, é apagada a memória da experiência anterior. Só se mantém o que se sabe da verdade. Essa é a parte difícil da coisa, não é companheiro Bernardo? Cá estamos de novo, não é? Chatos como sempre. A visão da coisa, meu caro, permanece, mudam-se os tempos, as vontades, até os corpos, mas toda esta vasta energia que nos consome e nos amima, sabe-a toda e por cá fica. Quem jogar a mão e escrever as palavras, está a um pequeno passo de mais uma vez dormir e preparado para um despertar num passo seguinte, numa dimensão assim do tipo, com menos planetas, nem que fosse para travar a arritmia da Astrologia e seu insistir no doze, quando as Luas no ano perfazem 13 círculos. O Bernardo sabe o que eu quero dizer e o amigo íntimo dele, que pela mente o prescreveu, tem mais matéria para pormenores que deixou perdidos para chatos seguintes. O Inferno é dos chatos, porque tornam o Inferno mais agradável de suportar. Até no Inferno, as palavras só magoam se nos caírem em cima. <br /><br /><br /><br />VIII<br /><br /><br />Estejamos nós, todos, em que “plano astral” estivermos, mortos ou vivos, despertos ou adormecidos, não importa., podíamos conviver todos em silêncio, baníamos a palavra e só não silenciávamos a Natureza pois ela não se cala por um estalo de dedos qualquer. Se não gostássemos, passaríamos ao segundo plano e baniríamos o Dinheiro. Também não podia ser. Ser pode haver um Inferno sem um Satanás à altura. Seja como for, podíamos todos conviver, mas não convivemos. Alguma coisa está mal. O que nos impede comunicar uns com os outros? Quem nos impede de mostrarmos o nosso ponto de vista? Quem nos impede o que quer que seja. E porque não podemos? Pobre de todos nós que cá estamos para conviver uns com os outros.<br /><br /><br /><br />IX<br /><br /><br />O Inferno é um lugar que nos ocorre na rota da nossa eterna existência. Como todos os lugares de todas as rotas, só permaneceremos ou se por ali findarmos a nossa rota ou se adorarmos estar nesse lugar, fazendo dele, nosso. O Inferno é como todos os lugares mais lindos que nos é possível dado a conhecer: um lugar como outro qualquer, só que é o Inferno.<br /><br /><br />X<br /><br /><br />Os dias estão a passar e tenho frio. Arrefeci o corpo e mente. É injusto não ter as minhas correntes quentes e poder sair, viver, ter uma vida com as suas alegrias e tristezas, como qualquer diabinho comum, como qualquer resto de humano com alma vendida. Vou dedicar-me ao Marketing, se é que ainda não fui “Markado”. Alma, Vende-se. Melhor preço.<br /><br /><br />XI<br /><br /><br />Marketing: Fórmula Cristã para fazer vender o inútil, demonstrando e comprovando, se possível, ser aquilo que sem o qual não podemos viver naquele momento. Como pode ser isto o Inferno se isto é o mundo das boas pessoas. Uma senhora orgulhosamente expunha o seu neto às amigas: - Eu só quero que ele venha a ser uma muito boa pessoa no futuro, como o são os meus filhos, que um é formado em Marketing e o outro está em Lisboa a tirar um Curso Bíblico. Isto não é o Inferno e é tudo boas pessoas, tanto o que quer atingir o mais alto grão-mestre-satã em Marketing, como o que quer vender ideias e buscar atingir o grau de Cristo. Mau sou eu, que não sou nada disso!<br />Parte Quinta: o Céu.<br /><br /><br /><br />I<br /><br />Vê, vê as coisas que escrevem e nos dizem do Céu. O Céu que é o Paraíso, o Jardim do Éden, essas coisas todas “fofas”, bonitas e agradáveis. Vê, lê, relê, verifica que quem escreve assim e quem subsiste com tais discursos, só vêm de dois tipos de pessoas, ou fecharam à chave o seu cérebro, ou desistiram de fazer o que quer que seja para trazer de novo o Paraíso para a Terra. Maldito sejas tu, teólogo emigrante, que mais não fazes do que explodir o presente, para que cérebros à chave trancados, te oiça, e sigam.<br /><br /><br />II<br /><br />Ninguém pode nascer Re-ligado ao Superior, pois estar re-ligado ao Superior é ligar-se ao Interior. Assim se liga o Homem ao Cosmos. Macrocosmos: O Superior, o Interior; Microcosmos: O Inferior, o Exterior. E como estar-se Re-ligado ao Cosmos, é ter-se uma vivência Interior com Sabedoria Superior – uma experiência praticamente autista –, damos connosco exteriormente Ateus, tendo uma vivência profunda e interiormente religiosa. Assim sendo, quem nasce re-ligado, na sua plena consciência, agradecendo a não-experiência de actos de lapsos de memória de vidas anteriores, pois humildemente aceita os factos não visíveis como reais, vindos do Interior, tornando qualquer facto exterior, um facto ateu e surreal – nada que não se saiba se meditarmos sobre o assunto, na forma mais vegetal possível –, tudo aquilo que observa, fá-lo não entender nada daquilo que o rodeia. Ateu e religioso, mas inocente à matéria, afastado dos ideais, conceptual. Os anjos devem ser cegos, surdos e mudos, também.<br /><br /><br /><br />III<br /><br />O Céu, para o artista ou para o adepto da divina filosofia, é aquilo que alimenta a alma. E explica que aquilo que alimenta a alma, de facto, também alimenta o corpo. Através das suas íngremes capacidades de desvendar sinais ocultos, resume com uma metáfora bem humana, a sua explicação: é que no Princípio era o Verbo. O Verbo era o Alimento era a Alma e a sua morada era o Céu. E que o Todo era Uno. Assim acontece connosco. Também temos um céu primordial, de cada um de nós, o Céu-da-boca, a mesma boca que ingere tudo aquilo que alimenta o corpo e que expõe através do Verbo a Sabedoria da Alma. E é pelo Verbo da Alma e pelo Alimento da Boca que se vê a morada do Corpo. E todos somos Uno também aqui, sendo todos cegos, surdos e mudos à razão da verdade das coisas. Começo a entender a profundidade dos três macacos que simbolizam a frase “não ver, não ouvir, não falar o Mal”. Não acredito que seja tão necessário o conhecimento da existência do mal, usufruirmos do Mal, usamos o Mal quotidianamente, como qualquer diabo na naturalidade do seu inferno, pastor que guarda o seu rebanho com correias nas chamas e de tridente na mão. Será que escrever sobre o mal também conta? <br />...<br />Auto-conhecimento, alimento e Arte pela razão da Arte.<br />…<br /><br />Corolário entre os fragmentos II e III.<br />Vou passar a escrever em minúsculas, tal palavra, pois até no mundo do Verbo, por vezes o tamanho da letra determina o valor do seu estatuto. O Status é a Matriz do mundo Exterior e Material… e já se sabe que o dinheiro aqui também tem a sua palavra a dizer. O Exterior – manifestação da matéria num plano luminoso, cuja luz é o dinheiro –, é a imagem que a nossa alma tem capacidade para descortinar da suposta Verdade, naquele bocado de tempo em que o pó deixa de ser pó e passa, parece, a ter vontade própria até voltar a ser pó. É esse bocadinho de tempo que parece mais interessar. Esse bocadinho que, nessa tal de Verdade maiúscula, praticamente não existe de tão ínfimo que foi.<br />Vou assinalar que o verbo ser no passado no fim da frase anterior, é propositado, pois somos aquela espécie de animais que deixa escrito, este pequeno triste mentor de consciência que nos diz: é tudo uma questão de tempo para ler e escrever, pois para o autor, quando também ele passar ao passado, todas estas palavras escritas só passam a fazer sentido para quem ainda não adormeceu e ainda não foi fazer a colheita da sua sabedoria num outro patamar existencial, é quando o autor terminou a obra. É triste, não é? O mundo da criação é um paradoxo: deixa de ter sentido quando o criador atinge o seu fim, o fim da obra é a chegada do sono para um novo despertar, o fim do criador é quando é chegada do sono maior, onde só se descarrega a consciência, e é num outro patamar qualquer de materialidade. É bom pensar em ter cuidado com isso, quando não se quer o Céu dos demagogos a seguir à última noite de sono da vida, mas sim ainda durante este estado operário, em que se tem consciência em que a obra ainda está a ser criada. Por isso o artista quer sempre, inevitavelmente, uma obra por fazer.<br />IV<br /><br /><br />Ai, como estamos todos nós tão erradamente correctos sobre tudo aquilo que supostamente “ocorre”, aquilo que supostamente nos rodeia…, tudo não passa de meras imagens de todos os nossos tenebrosos pensamentos, alimentos da alma, pois não há força maior que o pensamento – essa parte material da faceta etérea matriz do Cosmos –, nem palavras que tão bem o exprimam, é por isso que é mais positiva a energia da meditação do que a da oração. Oração é coisa exterior, meditação é interior. O resto não passa de teorias…, lixo em estado puro e matéria não reciclável. Até os tabus do pensamento, nem esses são recicláveis. Tédio absoluto. Que alegria!!!<br /><br /><br />V<br /><br /><br />Não se deve continuar a vegetar sobre o assunto. O valor da Arte é inestimável. Porque não o é também, então, o valor do Artista? Talvez o artista não precise de se vangloriar com o seu pseudo-valor estimadamente real, pois também o reino dos artistas não é deste mundo, os artistas só cá vêm para deixar aos outros algo com que se entreterem enquanto estão afastados do Céu real, o dos Artistas. É por isso que chamam anjos aos artistas, além de embelezarem o nosso panorama, entregam-nos as mensagens de uma forma bem mais conveniente, chocam-nos com as suas vertentes diversas e ideais de espiritualidade ateísta, pois se o que os artistas deixam feito, fez parte da obra do Criador (entenda-se da forma que se queira entender), segundo a sua humildade e consciência, não deve ser abandonado ao seu mundo. Um artista abandonado é um criador autista, pois nunca deixará de pensar arte, que seja.<br /><br /><br />Corolário do fragmento V. <br />É óbvio perceber-se que maior é o estatuto social de quem compra a obra de um qualquer artista vivo, do que o próprio artista. Quem compra tem dinheiro para mostrar aos outros a capacidade de obter obras de arte, o que lhe aumenta ainda mais o status. Esta é a parte satânica da coisa, não é? A parte Céu, é: Nem com todo o dinheiro do mundo, quem compra a obra de um artista, seria capaz de a fazer. Senão faria ele mesmo a obra adquirida.<br /><br /><br /><br />VI<br /><br /><br />Só pelo facto de termos consciência de sermos obra do Criador, de fazermos parte da Criação, se sermos até mesmo uma imagem D’Ele, assim como pelo facto da nossa consciente existência seja tão breve, que sejamos obrigados a termos a necessidade tão natural em nós, de O matar, de O aniquilarmos, de pensarmos em apagar a Sua existência em nós. É horrível a imagem da obra acabar com o criador. É uma filosofia que, se pega será a morte do artista. Podíamos manter as coisas assim, pelo menos durante mais algum tempo…<br /><br /><br /><br />VII<br /><br /><br />Se o objectivo final desta vida fosse somente morrer e não levarmos nada connosco para o além, certo é que a humanidade nunca teria tido ideias novas. Morrer não pode ser uma desculpa para não viver, assim como a morte não pode ser desculpa para a causa de não termos tido a vida que queríamos ter percorrido na breve existência, segundo os nossos dados qualitativos em relação aquilo que levamos a vida a pensar de nós mesmos. Ninguém tem desculpa para que morra sem ter ajudado a reimplantar Reino dos Céus, nesta República Infernal, em vida. A Morte só nos diz que não devemos estar aqui para fazer parte de uma contagem, de uma divina estatística. Move-nos o coração, assim como o fogo da alma, não devemos mais então, deixar-nos comandados por aqueles quais, compram o bem-estar que lhes construímos, e que com nossas obras, passam o tempo enquanto a putrefacção deteriora as páginas de palavras escritas, e seu cheiro pestilento, ao qual se resume toda a sua existência, tenta não contaminar o artista. São estes que dizem o que devemos ou não fazer, escrever, pensar, viver, limitarmo-nos à razão de eles poderem continuar a existir…Só mesmo com a presença da Besta é que almas incapazes de incorporar corpo de artista e criador, governam aqueles capazes de preencher o vazio começando do nada, do zero, do vazio. Pois são esses que destroem os artistas criados pelo Criador. Eles esquecem as lágrimas do criador é o desconhecimento de que quando se separa fisicamente, a obra de seu criador, divide ao meio a própria palavra. Assim, separar o Homem de seu Criador, cria dor. E temos andado a acumular muita dor, muita energia negativa no que respeita a estas coisas, durante alguns valentes milénios. Parece que a nossa cegueira irá continuar.<br /><br />VIII<br /><br /><br />Quando se nos é encomendada uma obra, e andamos nós a vasculhar nas sombras escritas, ao acaso deixadas, fragmentos, muita coisa nos dificulta o produto final. Quando nos aproximamos ao primeiro final, do Tomo I destes fragmentos, não casualmente, mas aproximadamente, toma-se consciência das várias angústias que o autor descreveu, mas também de uma só angústia: uma angústia que só quem observa a vida a passar em sua volta, altiva e activa, a mostrar-se e a dizer-lhe adeus, num último aceno. É a angústia de todo aquele que se sente perdido, um eterno santo da casa, um foragido do que réstia da consciência na sua plenitude. Um eremita cosmopolita. Os fragmentos, no fundo, só se fragmentam por si mesmos. A angústia está sempre presente. Assim como a alegria. A alegria, para o autor, é a angústia de não podermos viver a Verdade, de dizer, ouvir, falar sobre a Verdade, a angústia de ser-se sem saber sê-lo. A angústia de quem tenta correr da cruz, da sua missão. Mas que ao mesmo tempo tenta esquecer a angústia, fragmentando-a, transformando a obra em pequenas partes de alegrias, pois já se sabe, independentemente da quantidade de alegrias que tenhamos em vida, tudo acaba na tristeza do fim. Por isso acaba. E por acabar, há um novo começo. É para isso, que o artista que escreve esta obra, chega ao fim do primeiro Tomo. Para que haja sempre um Tomo seguinte. Resta ao autor sentir o seguinte comentário: <br />Tomara que haja!<br />Ámen.<br /><br /><br />IX<br /><br />São imensos os fragmentos, mas é só um único sentimento, aquele que estas, se calhar poucas palavras, inevitavelmente não deixam esconder, e segundo o autor, consta que é o sentimento angustiante do autor, no desespero de quem busca também ele, ajudar à reimplantação do Paraíso terrestre enquanto vivo, só para que, mesmo antes que a Peça termine, os olhos do autor levem uma imagem da mação que voltou ao local de sua origem. É a angústia de quem quer devolver o Céu à Terra.<br /><br /><br />X<br /><br />Materializar o Paraíso, não é menosprezar um ideal filosófico e religioso, onde só lá se chega através das leis correctas. É ir contra tais ideais. As leis são Agora e Já!<br /><br /><br />XI<br /><br />Céu e Inferno, Deus e Diabo, embora se tenham tornado pólos de comparação, não passam disto: A mesma ténue linha que os distingue, separa-os. E nós, aqui no meio, plasmamos dor e sofrimento num veículo de vida concebido antes do nosso nascimento sem que alguma vez tenham pedido a nossa opinião e terem-nos feito as três perguntas: Quem somos, de onde, vemos, para onde vamos. Não a fazem porque sendo questões ditas filosofais, não importa quem as responda. No êxtase do Céu responde-se. No êxtase do Inferno, mantém-se as mesmas questões para que perdurem enquanto a Besta durar.<br />Posfácio (do autor)<br />O autor afasta aqui, quaisquer pretensões a que esta pequena obra literária, seja um marco literário ou uma obra-prima. Como escrevi durante os textos, não passam de fragmentos de sentimento, talvez como se viu, com vida própria. E como tais fragmentos têm vida própria, o autor alheia-se deles, pois teve com tais fragmentos o cumprir de uma missão: <br />Ter de deixar escrito,<br />Tudo aquilo que outros tais, <br />Jamais tiveram possibilidade de o fazer. <br />Foi aliás uma obra que nem mereceu um Prefácio, pois para fragmentos são escusadas quaisquer explicações prévias.<br />É exactamente por isso que de todos os livros – todas as palavras, tudo aquilo que passou pelo meu olhar e pelas minhas mãos – foi este o livro que eu menos li.<br />Dedicado a todos aqueles que através de minhas mãos, deram a conhecer as suas almas,<br />E ainda a quem teve a coragem de meter cá um servo de tais criaturas de escuridão,<br />E, finalmente, por último mas não menos importante,<br />A quem pelo simples facto de existir e de ainda não ter deixado de acreditar, insistindo em seguir em frente.<br />Sim, somos todos fragmentos, imagens, lapsos de uma estranha conjugação de Tempo e Espaço, num buraco dimensional de Matéria.<br />Pode ter sido angustiante escrever esta obra, mas é uma enorme alegria tê-la terminado.<br /><br />Emmanuel,<br /><br />Ossónoba, Mercúrio, 14 de Novembro de 2007 <br />Índice<br /><br /><br />Parte primeira: O estado primordial2<br /><br />Parte Segunda: O Método da reflexão10<br />Poema “Assim nasceu o Poeta”12<br />Prosa Alquímica: “Eclipse”13<br />Trilogia do Poeta: V (I,II,III, IV e V)13<br />Poema “Porque fala o Poeta?”17<br />Poema “Paixão, Paixão”18<br /><br />Parte terceira: Os nossos Eus21<br /><br />Parte quarta: O Inferno28<br />Poema “Inferno”29<br /><br />Parte quinta: O Céu37<br />Corolário entre fragmentos II e III39<br />Corolário do fragmento V41<br /><br />Posfácio e agradecimentos do autor45</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>Pocket Poems</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3g_pocket_poems</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:21:43 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3g_pocket_poems</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">POEMAS<br /><br /><br />m.s.l.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Assim nasceu o Poeta...<br /><br />Assim nasceu o Poeta,<br />Perdido no submundo da escuridão,<br />Com momentos de iluminação<br />Transformados por palavras fúteis<br />Tão malditas como úteis.<br /><br />E porque foi assim que nasceu o Poeta,<br />A Poesia tornou-se um encanto<br />Coberto por um pesado manto<br />Feito de solidão, mágoa e dor<br />Manto pesado incolor.<br /><br />O Poeta renasce de suas cinzas<br />Pelos elementos materializado<br />Por isso ele volta tão magoado<br />Pelo silêncio e circunstâncias<br />A vida... sequelas de redundâncias.<br /><br />O Poeta nunca morre da Dor<br />Pois a Dor foi escrita por si<br />Para de alguma forma chegar a ti<br />Para que sintas o que o Poeta sentiu<br />Reflectir como o Poeta reflectiu.<br /><br />O Poeta só sente o Desgosto<br />Quando o desgosto veio para ficar<br />Para em puro Amor se transformar<br />Numa transmutação secreta...<br />... pois assim nasceu o poeta.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Conceber o Inconcebível<br /><br />Detesto as Buzinas que me acordam<br />Detesto os gritos que me tiram do sério,<br />Detesto o silêncio que acampa à minha volta...<br />Mas sou só eu...<br />Sou eu que buzino, que grito e que me calo!<br /><br /><br />A luz interior ilumina-me.<br />Eu ceguei entretanto.<br />São estas sanguessugas que me chupam a alma<br />E a remetem ao Inferno.<br />Lá, onde os sentidos se transformam em prazeres,<br />Gosto, porque gosto de ti,<br />Até pensei que te amava,<br />Mas roubaram-me a alma.<br />Foi a luz interior que me cegou...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Criemos pequenos ódios<br /><br />Estamos a florir o mundo com sangue<br />O sangue do ódio que convém,<br />Mesmo que nunca se saiba a quem<br />Mesmo que não se saiba a cor<br />Florimos o mundo de dor<br />Mas quem se ri por nós?<br />Neste Rio de Sangue sem Foz<br />Neste precipício delineado<br />Por este mar separado!<br /><br />Estamos a florir o mundo com sangue<br />Deixando-os mexer na alma<br />Começamos a perder a calma<br />Abandonamos os pensamentos natos<br />Deixamo-nos levar por ratos<br />Pelos seus filmes lindos<br />Pelos nossos sonhos findos<br />Fechamos os olhos à verdade<br />Com uma grande naturalidade<br /><br />Estamos a florir o mundo com sangue<br />Fumamos do seu tabaco<br />Morrendo, eles metem-nos num saco<br />Sentimos angústia e dor<br />E eles choram a nosso favor<br />Lagrimas de crocodilo empalhado<br />Mataram quem vive aqui ao lado<br />Queixam-se de um mundo de dor<br />Mas treinaram os fazedores de terror<br />Criemos pequenos ódios sim senhor<br /><br />Estamos a florir o mundo com sangue<br />Fazendo cair aviões<br />Andando a matar milhões<br />Alteram as carnes e os milhos<br />E matam os seus próprios filhos<br />E como se tal não bastasse<br />Matam quem não merece<br />Para relatar falsidades...<br />Serão falsas estas verdades?<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Eclipse<br /><br />Renasço das cinzas para o eterno infinito do julgo humano<br />Onde só as trevas iluminam o viajante que penetra pelo brejo.<br />Ai, o Homem subiu as escadas e Jacob nem se queixou...<br />O Fogo olha-me com desdém. Seus olhos me queimam,<br />Eu, só tenho tempo para abrir a janela e olhar o silêncio.<br />Malditas esquinas de tortura, que enfrento em plena chuva.<br />Mas quando chove...<br />Dói-me os pulmões só de saber que o fogo se apaga,<br />Destruindo obra eterna por este mago construída,<br />Transformando de novo em pó, este Phénix que há em mim.<br />Por isso chamam-se Eclipse estas palavras,<br />Porque o ser está lá mas não se vê...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Então, e o Ritual?<br /><br />Fora no fim-de-semana, qualquer dia é dia de semana. <br />Mas os outros dois também são. <br />Mas são diferentes, parecem-nos mais livres...<br />Será que eu irei alcançar um desses dias?<br />Se for, que seja por mérito, não por cobiça.<br />Pretender um dia desses só por pretender ter um dia assim, <br />é um bloqueio à nossa própria censura.<br />Começa a poesia,  o normal...<br />O distante começa assim, como o desabrochar de uma flor,<br />A dor, reflecte a existência. A conduta.<br />Um simples parecer. Um algo indefinido.<br />E só por ser assim, se o quer tão pouco.<br />O surrealizar do vazio,<br />O preenchimento do cheio.<br />Só um dia que chegue. <br /><br />Um dia que chegue,<br />Um dia que finja chegar,<br />Só por ser diferente,<br />Merece-se realizar.<br />E por ser o tudo,<br />Ou talvez mesmo o nada,<br />Que finja sobreviver,<br />Por obra realizada.<br />Não, não chores por mim<br />Já que nem o mereço.<br />Não finjas tanto assim,<br />Por fingires eu pereço!<br />Dá-me tudo o que tens a dar,<br />Por mais que te dê de volta,<br />Pois quem contribui assim,<br />Não semeia a revolta.<br /><br />Só por seres decerto tu,<br />E não teres sido demasiadamente Eu,<br />Quero que sintas o teu realizar, seja na Terra seja no Céu.<br />Mesmo que por mais a vida seja,<br />E só mais um dia erguer,<br />Que note o realizar do que a noite,<br />Ao dia transmitiu,<br />Sem dever nem feitio,<br />Só por seres decerto tu,<br />Nunca Eu.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Não sou ninguém para to dizer...<br /><br />Não sou ninguém para to dizer,<br />Não sou ninguém para to dizer,<br />Passo os dias nas ácidas lágrimas da escuridão<br />Que a chama trina estudou para me oferecer,<br />A dor da tríade, reflexo de mim,<br />Escadaria para o não senso e para o Inferno<br />Qual palavra sombria de puro desgosto.<br />Quando a Luz finalmente nos afecta<br />Lá estamos nós de braço dado com a morte,<br />Tu e Eu em movimentos sensuais<br />Que só os teus lábios deixam adivinhar<br />Enquanto morre o poeta da luxúria.<br />O sangue escorre pela sedenta garganta<br />Que atraiu os abutres da sociedade<br />Que nos corroem com seus sorrisos,<br />Capazes da mais pura tortura.<br />Só pela nossa alma..., só pela nossa alma...<br />Enquanto sonhas por um fim absurdo,<br />Feito de lama e almas sulfúricas<br />Sujas..., e pelo gelo ardente queimadas...<br />Pois ele esteve perto de nós<br />Para nos dizer “o fim está próximo”,<br />Mas tu não sabias, mordiscaste o Tempo<br />Com morbidez suave e sangue estagnado,<br />Foi a morte do poeta que o estagnou,<br />Mas eu...<br />Eu não sou ninguém para to dizer...<br />Eu não sou ninguém para to dizer...<br /> <br />E agora?<br />Deixas-te guiar pela razão,<br />Ou ainda prometes que no além olharás por mim,<br />Como se eu fosse alguém...?<br />Digo-te antes para esqueceres o meu corpo,<br />Pois no além teus olhos não verão assim...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />I<br /><br /><br />O Poeta foi à montanha,<br />Para sentir o precipício mais perto,<br />Saber como seria o fim do dia.<br />O Poeta foi à montanha, <br />mas só lá foi porque ela foi mais forte<br />E não se moveu.<br />A montanha não se comove com falsas promessas,<br />Ágeis e desviadoras promessas de amor e sofrimento,<br />Que só o Poeta consegue dizer.<br />Só porque a montanha não se moveu,<br />Ficou sólida como uma rocha,<br />Permaneceu imóvel.<br />O Poeta foi à montanha, para mentir uma vez mais<br />Sobre si e sobre os outros,<br />Para fingir que é tudo verdade,<br />Certo, lógico, falso e incorrecto.<br />A montanha permaneceu imóvel,<br />Só movia os seus restos vitais,<br />Os arbustos, as estevas, os ramos das árvores...<br /><br />... Mas o seu ventre permaneceu fechado,<br />para o Poeta.<br />II<br /><br /><br />O Poeta risca, continua a riscar, escreve!<br />Ele pára o Tempo com caneta e papel.<br />Abusa do sonho, da luz, da caneta – a sua candeia<br />Passa o tempo a cansar os olhos,<br />Em busca do seu espírito.<br />A alegria do Poeta é sempre breve,<br />É sempre uma faísca de luz,<br />um pingo de água no meio da chuva,<br />algo muito pequenino.<br />Mas o coração do Poeta<br />É o seu fogo,<br />É o seu espírito,<br />A razão da sua existência,<br />O seu divagar constante e romântico.<br />Cavaleiro cavalgando pelos vales<br />Solitário e alegre,<br />Interiormente: pesadamente infeliz!<br />O fechar dos olhos  do Poeta,<br />É o fechar da caneta e do papel<br />Para a pequena e para a grande eternidades.<br /><br />Só lhe aflige a missão:<br />De meditar e continuar a escrever,<br />Até ao fim do seu dia!<br />III<br /><br /><br />- Que pensas tu Poeta?<br />Para que olhas o infinito?<br />Terás algo a cumprir,<br />Com quem pactuaste tu?<br />A quem deves?<br />Ai o que pensava eu de ti, Poeta,<br />O sublime fingidor<br />Amador da Pátria,<br />Agreste de pensamento<br />Com o seu reino nas parábolas.<br />Por isso te amava, ó Poeta!<br />Até ao murchar de meu coração<br />Foi o fim da corrente,<br />Tudo se desligou!<br />Poderias ter feito o que quisesses<br />Abusado, até...<br />Mas perdeste-te nesse olhar longínquo<br />No emanar de sentimentos,<br />Com fixação nos estados de espírito,<br />Ao vazio,<br />Ao nada,<br />Por vezes até ao talvez.<br />Meditas e sonhas,<br />Escreves falando para ti mesmo,<br />Perdendo...muito devagarinho,<br />O receio de que o fechar dos olhos<br />Mais não seja do que o mudar de página.<br /><br />...por isso te amo, maldito Poeta!<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />IV<br /><br /><br />O crime do Poeta,<br />O saber dizer,<br />O saber fazer explodir a palavra,<br />Numa forma penetrante e doce,<br />Que jamais se esqueça,<br />Ou por assim dizer,<br />Que jamais perdure.<br /><br />O crime do Poeta,<br />O fazer sentir,<br />O fazer cumprir a palavra dada,<br />Em algo de primaveril,<br />Que no tempo permaneça,<br />E que jamais se esqueça,<br />De que tudo é vil.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O Quadro do Silêncio<br /><br />Atura-me tu, ó Silêncio<br />Que eu próprio já nem me aturo.<br />Não suporto o que de mim sai<br />Não suporto o que de mim vem,<br />Por isso peço o teu conforto<br />Para me guiar neste longo caminho,<br />Sem rumo e sem destino<br />E para lugar algum...<br /><br />Atura-me tu, ó silêncio<br />Já que te contemplo fielmente<br />Como se fosses tudo para mim<br />Como se fosses tudo o que existe<br />Como se fosses tudo o que de mim provém.<br />Por isso peço o teu conforto<br />Para me conduzir mais além<br />Para me conhecer também<br />E para fugir do ódio comum.<br /><br />O teu calor,<br />A tua amizade,<br />O teu doce olhar,<br />A tua presença,<br />São cores belas neste quadro vital<br />Feito de dor e sofrimento<br />Pintado com o amor desse momento<br />Que o Silêncio mostrou ser ritual.<br /><br />O teu azedume,<br />A tua pureza,<br />A tua destreza,<br />O teu pasmar,<br />São o pior das figuras queimadas<br />Que insisto em retirar<br />Do Oculto para te mostrar<br />Pelas palavras que me foram dadas.<br /><br />E tu, Silêncio,<br />Que fazes de mim teu escravo,<br />Teu cruel momento de inspiração<br />Maldito Silêncio contemplação<br />Maldita dor persistente<br />Maldito sentir ardente<br />Malditas as cores da Invenção<br /> <br /><br /><br /><br />Paixão, paixão<br /><br />Tu,<br />Sim, tu,<br />Rasga-me a pele com as tuas unhas,<br />Até que o sangue me lembre minha existência,<br />Neste cruel declínio ao fim maior.<br />Tu,<br />Sim, tu,<br />Prende-me essas garras na minha carne,<br />Até que o passado me corroa o espírito fétido,<br />Neste cruel desígnio de dor.<br />Paixão, Paixão,<br />Que abriste o meu túmulo secreto,<br />Reservado ao meu discreto cadáver,<br />Que fugiu, qual serpente, de teus pés!<br />Paixão,<br />Paixão,<br />Cruel jogo de dor e fantasia,<br />Desfalecendo meu podre coração,<br />Ó maldita Paixão..., que não sei quem és...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Porque fala o Poeta?<br /><br />Porque fala o poeta coisas de mágoa?<br />Porque fala o poeta coisas da dor?<br />Porque fala ele se não sente frio nem calor?<br /><br />Porque fala o poeta de tormentos?<br />Porque fala o poeta de tristeza?<br />Porque fala, se falar não é sua natureza?<br /><br />Porque fala?<br />Porque não se cala?<br />... simplesmente,<br />Ele mente,<br />Ele finge<br />E ele restringe<br />Uma palavra ao coração.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Queres saber o que sinto?<br /><br />Vejo-te correr os montes<br />Eterna alegria de criança<br />Que na sua presente dança<br />Bebe de todas as fontes<br /><br />Vejo-te dourar ao Sol quente<br />Soltos os cabelos sedosos<br />Entre murmúrios amorosos<br />Vivendo sem pudor o instante<br /><br />Vejo-te nua como ao mundo vieste<br />E eu triste com tudo o que minto<br />E ainda queres saber o que sinto?<br />Feliz com tudo o que me disseste.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Al kimia – o Tormento dos Metais<br /><br />O Filho da Obra<br /><br />A quem se dispôs magna obra edificar<br />De tormentos e loucura poderá padecer<br />Tomará para si o fogo, para ao ar<br />Descer em água para em terra arrefecer<br /><br />Tomada a medida, o seu ideal<br />Por enorme globo vindo terá tomado<br />Licor vital em seu tempo normal<br />Trabalhando a obra ao encarnado<br /><br />Putrefacta matéria, contorno genial<br />Arrefecidos os tormentos, grande fado<br />Para não fazer da queda seu ritual<br />O contorno do negro será trabalhado<br /><br />Com luz encoberta virá solução<br />Trabalho da queda em fatal barranco<br />E com a ajuda inversa de cão<br />A obra chegada ao branco<br /><br />Filho da obra em eternos momentos<br />Feito de negrume e feito de luz<br />Seu nome: Rosa-dos-ventos<br />O seu eterno menino: a Cruz.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Poema do Ouro e da Alma<br /><br />De Ouro manso tua Aura é feita<br />E tua entrega a estranho Poeta<br />Filosofia que seduz como perfeita<br />Água turva que só a ti deleita<br />Pasmado suor da Luz do Profeta.<br /><br />Mágico Pneuma, de raiz cifrada<br />Remete à ilusão a douta palavra<br />Criatura cipreste de tão amada<br />Que seduz a sombra perfumada<br />Que o baixio de um homem lavra<br /><br />O Rito dos elementos em ti perfaz<br />Como ouro morno de luz agreste<br />Fazes do homem tornado rapaz<br />Feito dos profetas seu capataz<br />Traz de novo a Luz Celeste<br /><br />Negrume tormento que seduz<br />Encanto eterno de linha feita<br />Traz de novo tamanha Luz<br />Que simples e perfeito produz<br />Que em sentimento terno se aceita<br /><br />Gladiador submisso por ti batalha<br />Contra infiéis sombras inimigas<br />Feliz magnata que assim trabalha<br />Barco escuro que em ti encalha<br />Para volver palavras assíduas<br /><br />Templo de Norte ao Sul se mete<br />No fim dos tempos por ti espera<br />Agricultor aprendiz, cultiva a semente<br />Por tempos ídos, coração ausente<br />Que em seu fim rejovenesce<br /><br />Sangue deitado, lágrimas derramadas<br />Tragico licor de árduo momento<br />Traz a mim luzes saudadas<br />Que no fim almas amadas<br />Encobrem assim grandes tormentos<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Rainha<br /><br />Teu olhar são duas lindas preces<br />Para o lugar onde alguém caminha<br />Para mim tuas palavras são doces,<br />Doces palavras as tuas, ó Rainha.<br /><br />Quis tua mãe que um dia fosses alguém<br />Como o teu lindo sonho de menina<br />Queria ela que fosses rainha, porém<br />Quiseste tu que teu nome fosse Regina<br /><br />Teus olhos duas luas onde caminhos vãos<br />Se enterram entre dóceis e perpétuos desejos<br />Que a criatura entre os Céus e tuas mãos<br />Tudo transformou em mil beijos<br /><br />Um marco te viu nascer e te marcou para a vida<br />Vida esta que num sonho te levou além<br />Não mereces o sentir de estares perdida<br />Nem crivásticas mágoas criadas por alguém<br /><br />Que importa o medo de se ser divino<br />Quando a lástima dos outros perdura<br />Caminhos entre a loucura e o tino<br />Não quis o mundo tamanha ruptura<br /><br />E quem perde é tão só a solidão<br />De um mosáico de telas lindas<br />Perdido algures entre o perdão<br />E o mundo de loucuras findas<br /><br />Nem que sonhes em teu nome<br />E na soberba da loiça mais fina<br />Quero que saibas: o além consome<br />Pelo teu doce nome: Regina.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Sumpremum Vale/Solaris Lusitânia<br /><br />1<br /><br />Ó Pátria amada que não soubeste<br />Por que grandes fins te escondeste?<br />Do grande nome tanto aclamar<br />Por ti decidiram teus avós navegar.<br />Tão triste estás em teu azul canto<br />E tão grandes luzes são os seus<br />Filha tu és, dos veros Judeus<br />E não ensinaste a retirar o manto.<br /><br />2<br /><br />E a má fortuna que te esperou<br />Pelo teu grande Império<br />Tamanha montanha que desabou<br />Como cometeste Tu tal adultério.<br />Hora é, elevai já o esplendor<br />E recupera em Seu nome o céu<br />Retirai relíquias, do templo meu<br />E esquece enfim tamanha dor.<br /><br />3<br /><br />Reencaminharás sem nomear em vão<br />E por sinal alcançar o perdão?<br />Pois são mais os que a ti devem<br />Do que aqueles que a ti servem.<br />Ó glória porque nos deixaste?<br />Se enchemos o mundo de suor<br />E viajámos com tanto amor<br />Nestes corações que abandonaste.<br /><br /><br /><br /><br />4<br /><br />Não me digas que há crime em ti<br />Por este ardor que sempre senti<br />E recuperai bem alto teu nome bom<br />Que te ergas alto e com bom som.<br />Não queiras tu visitas guiadas<br />Por aqueles que ao mundo nada deram<br />São almas pequenas que proliferam<br />Parcas sentinelas resguardadas.<br /><br /><br />5<br /><br />Os mesmos sem Sul nem Norte<br />Que Te agridem com sua sorte<br />Souberam outros desencaminhar<br />Com grandes estrondos pelo ar.<br />Não digas Tu que por Ti fizeram<br />Mais ainda que teus egrégios avós,<br />Que andam pelas almas em nós,<br />E nem vêem o podre que elegeram.<br /><br />6<br /><br />Grande és Tu, ó Pátria amada<br />Que por mais andes desesperada<br />Não há medo que Te guarde<br />Pois só o fogo é que Te arde<br />No fogo arderá quem to mete<br />Por causa dos outros ditos quais<br />Que por mais se digam normais<br />Não sabem a morada que te remete.<br /><br /><br />7<br /><br />Mas para o fogo a água habituada<br />Que a nossos bravos não diz nada<br />E se ainda existe quem te queima<br />Se esquece de teu nome: Lusitânia<br />Fizemos-te homem sem algum mal<br />Mas és o Oásis do nosso deserto<br />Pois tens todo o mundo por perto<br />E chamas-te agora Portugal.<br /><br />8<br /><br />Mas a glória antiga já não te toca<br />Não faças grande orelha mouca<br />Mas o tempo urge saber fazer<br />E um dia voltares a ser mulher<br />Medo tenha quem te ensina<br />Todo o mal que diz ser o bem<br />Como outrora honra tu também<br />Aquele que Te chama lá em cima.<br /><br />9<br /><br />Foge sim das sombras de outrém<br />Que Te diz conhecer tão bem<br />E que venha a Ti novo Viriato<br />Que em ouro Te sirva outro prato<br />Não te faças tu de esquecida<br />Daqueles que de Ti tanto fizeram<br />Pois esses jamais te esqueceram<br />Por mais que andes Tu perdida.<br /><br /><br />10<br /><br />Recupera Tu o teu caminho<br />E dança ao som de seda e de linho<br />Repondo de novo ordem ao mundo<br />Pois tão triste anda, tão fecundo.<br />E só o mal é que nos quer bem<br />Como quem anda ao rumo da sorte.<br />Esquece então tua própria morte<br />E dá de novo a quem nada tem<br /><br />11<br /><br />Bravos cruzados a ti chegaram<br />E o fim do mundo alcançaram<br />Deixando em Ti tão grande semente<br />Raio tamanho vindo do Oriente.<br />Luz enorme de família sagrada<br />Que Teu nome o mundo conheceu,<br />Tua origem que o tempo escondeu<br />Te verá de novo, ó terra amada.<br /><br />12<br /><br />Os Veros filhos hoje Te chamam<br />E a Vera origem hoje reclamam<br />Talvez um dia e sem se saber<br />Te tornarás de novo grande mulher.<br />Terra mãe, por quem tu choras?<br />Lágrimas não há, um choro seco<br />Ainda hoje te fizeram de boneco<br />Amanhã mulher, virás a horas.<br /><br /><br />13<br /><br />Se ainda hoje não te encontraram<br />É porque ainda não mereceram<br />O tal que voltarás a edificar<br />Num dia que ninguém esperar.<br />Mas o Sol a Ti comanda<br />E o furúnculo de ti sairá<br />E acordar o bem que haverá<br />No dia que só a luz te manda.<br /><br />14<br /><br />Por quantos mares te procuram<br />As vozes que ventos ecoaram<br />E os sinais que ninguém quis ver<br />E as feridas que ninguém quis ter<br />Por mais pequena que Tu sejas<br />História radiante tua realidade<br />Anos incontáveis tua idade<br />Por mais baixo que Tu estejas<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />A tempo do porvir<br /><br />Ai tempo que és tão breve<br />Mais breve que o fim do mundo<br />Ouve as preces de quem nada tem<br />Diz-me com que letras se escreve<br />O renovar do abismo profundo<br />São ânsias de chegar além<br /><br />Ai tempo aqui eu te reclamo<br />Não me deixes em teu desdém<br />Dá-me a luz para aqui ficar<br />Diz tu àquela que eu amo<br />Por ela jamais ficaria aquém<br />Do todo que há a alcançar<br /><br />Ai tempo, ouve-me finalmente<br />Eis que a hora é chegada<br />Diz-lhe que o Amor aqui se escreve<br />Num fundo vão onde ninguém mente<br />Faz-lhe saber, ó vento, à minha amada<br />Que é de beleza clara como a neve.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Não me trates como o comum dos humanos<br />Pois eu não gosto que me tratem assim...<br />Eu, no meio de tantos mundos mundanos<br />Encontrei um mundo perfeito para mim.<br /><br />Não digas que a palavra restringe a loucura<br />Como mil dons restringem o fernezim<br />No meio da palavra existe doce ternura<br />Obrada com princípio, meio e fim...<br /><br />Sabes que esta Lua que nos ilumina<br />Não faz de nós Príncipe e Princesa<br />Pois um título é para quem se destina<br />Tal como a infindável beleza.<br /><br />Tão nobre coração finalmente encalhou<br />Entre corais de ténue esperança dada<br />Por um Deus misterioso que aqui tombou<br />Para poder escrever palavras à amada.<br /><br />Mas não me trates como a um qualquer<br />Que fazem da vida aquilo que consomem<br />Trata-me antes como eu mereço, mulher<br />Só quero que me trates como teu homem.</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>Tratado de Alquimia Esotérica</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3f_tratado_de_alquimia_esot%C3%A9rica</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:20:08 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3f_tratado_de_alquimia_esot%C3%A9rica</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">Tratado de Alquimia Esotérica<br /><br />M.S.L.<br /><br />1 O Olho interior se revelou, o Lápis o descreveu, os Elementos se cruzaram.<br />2 Os anos de vidas obtiveram, sob destilação e putrefacção, e mui humilde trabalho, obrado aos céus em Sua honra, o brilho e a iluminação necessários para tantas pedras que o mundo e os homens jamais suportariam seu peso, quanto mais a potência dos raios que dela provêem.<br />3 O ouro, a prata, a riqueza material, toda ela, se tornou de uma inquestionável pobreza, perto do Amor que a grande obra realiza.<br />4 Os céus se unificaram, o Fogo e Ar, sabiamente deram as mãos à imagem do acordo (Aliança) entre o Além (onde se encontra o Pai) e nós (onde se encontra o filho), em pleno coração, como deverá ser para que a obra seja realizada.<br />5 O horizonte se uniu, a Água e a Terra enlameou a ganância do Homem. Na Água se encontra o Santo que é também o Pai, na Terra o Espírito, que é a alma do mundo, a Luz, a eternidade, que é também o Filho. Cruzou-se a obra, como deverá ser.<br />6 Acordado foi o ser que abrirá os olhos dos cegos, que dará a visão a quem não quer ver. Foi a rosa, o coração dos ventos que, apetece dizer, durante tantas e tantas gerações de devotos artistas obreiros em direcção ao altíssimo, fora suspirando os segredas da grande verdade da Serpente a quem tivesse ouvidos para ouvir: o Lápis.<br />7 O forno purificou os termos, como deverá ser.<br />8 Tudo foi tomado pela mais certa das medidas terrestres, a celestial. Assim fez o Senhor do sábado, como manda a tradição, que ao terceiro dia se revelaria.<br />9 O Leão, que já se encontrava moribundo, tomou o Sol pela boca, o flamingo rosa dos artistas, poliu o jovem ser, alimentando as suas crias com os restos putrefactos do Leão (que se alimentara do Sol, o astro de luz).<br />10 A obra primordial, que nascera virgem e livre de pecados (pelo necrófago pelicano), tornou-se a pedra que originaria, com todo o cuidado e secretamente, todas as outras, como deverá ser para que a obra se concretize.<br />11 E como foi curioso, pois pelo mal se viu e se fez o bem, sob a forma de conhecimento, que ligeiramente foi subindo a escadaria até ao undécimo ciclo, aliás, como fizera a Serpente, o Ouroborus dos filósofos, que mantém em segredo a chave do conhecimento paradisíaco.<br />12 No cimo da coluna colocara o Senhor o nome da cidade celeste e (que alegria!), no cimo das pétalas brotou a linda rosa da vida, de onde brotará também, no coração dos homens sapientes, a Luz: será o Sol diurno e o farol nocturno, conduzindo assim, quem quiser navegar em sua direcção, pois nem só o Cão cheira, também os sentidos tornarão ao Homem.<br />13 Quem tem um olho que veja, e quem tem um ouvido que ouça, e seguirá certamente, a voz do melhor amigo, como deverá ser, sendo conduzido assim ao Pai, sob o aconselhamento do filho.<br />14 Após finda a obra e encontrada a pedra, que é a base por assim dizer, da própria obra, o Alfa e o Ómega da arte, descobre-se que o amor é eterno, que o Rei e a Rainha (que são agora um só) sempre estiveram presentes e que entregam a chave a quem humildemente, se curvar à sua presença, com a sinceridade que só a arte poderá proporcionar.<br />15 Por isso se compreende que a chave dos mistérios só se entregue a quem seja puro de coração, que obre e ore quotidiana e convenientemente, como deverá ser, afincadamente e com o objectivo que caracteriza o ser iluminado.<br />16 Por isso se perderam (e quantos ainda se perdem) os falsos sopradores, em pleno labirinto das palavras filosofais, como querendo imitar os ventos que cruzam os oceanos e que transportam as palavras, para assim se poder alimentar a ganância que lhes caracteriza, ao desvendar o mistério dos mistérios, sendo obviamente impossível ao impuro, ao filósofo Interesseiro.<br />17 Mas a luz incomoda muitos seres, por isso o caminho até ela, é uma escadaria penosa e sofrível, um parto de dor tão intensa que só dá à luz o andrógino.<br />18 Por ser assim difícil a caminhada à iluminação, ela trará doçura e paz, além da inevitável apatia inicial, que se desdobrará em enorme alegria e felicidade ao ser vivente, pois deixará se ser mundano tornando-se um ser etéreo.<br />19 Por isso a pedra é rubra como o sangue e transparente como o espírito, rubra como o sofrimento, transparente como a pureza, rubra como o vinho, transparente como a água.<br />20 Sabeis, irmãos do segredo, que por isso o olho vê, o lápis escreve e os elementos se transmutam, em Seu nome, tão-somente.<br />21 Afastai-vos, por isso, ladrões da sabedoria, pois mais fácil é o segredo vos desvendar que vós desvendeis o segredo, pois vossa putrefacção é ímpia e a nossa é doce e aromática. E a nossa semente dá origem a uma árvore do conhecimento tão alta e tão robusta, que jamais tereis olhos para a alcançar pela visão. A nossa árvore não se encontra na vossa dimensão.<br />22 Ainda vos digo mais, ladrões da sabedoria, escusado é procurarem um forno de material forte, rico e apetecível, pois o nosso forno é feito de matéria primordial, pura e inconcebível a vós, já que como vós procurais entre os mortos quem se encontra entre os vivos, tal matéria é tão clara, que jamais a olhareis ou vereis, como quem, como quem só vê por fora sem olhar para dentro. Não sabeis que o que está em cima é igual ao que está em baixo? Da mesma forma que o que está por fora se assemelha ao que está por dentro.<br />23 Procurai, ladrões, procurai. Não sabeis que a Serpente sabe onde se encontra o vosso ninho? Em breve, Ela se alimentará de vós.<br />24 A pedra é doce e a tudo transmuta. Clara como a água, oculta como a terra, clara como o ar, oculta como o fogo. Mas este fogo não queima nem arde, antes alimenta, como tal, este ar não é respirável, esta terra não é palpável, esta água não é bebível.<br />25 Mas, irmãos, que alegria imensa, saber que a Obra Magna se concretizou e que os céus se abrem em magnificência tal, que com as mãos se pode alcançar as estrelas, afastar cometas, brindar com a Lua e pegar no Sol. Os planetas cheios de felicidade dançam a dança da vida. Tudo isto enquanto a alma vai desfolhando o livro dos livros.<br />26 A nova Era unirá todos os irmãos da arte sagrada, pela pedra, pela Filosofia, pela eterna juventude.<br />27 Sois loucos, ladrões da sabedoria, ao julgarem num momento que fosse, algum dia, também vós fazíeis parte da grande obra, pois para vossa própria desgraça, eis chegado o dia de todas as revelações. Ars Gratia Artis.<br />28 Assim seja, Amén.<br /><br />Congratulações<br /><br />Quando o lobo de mim se aproximou e eu lhe mostrei a pedra, mesmo incrédulo se transformou em hiena, ainda incrédulo se transformou em rato, atirando-se de seguido no esgoto da obscuridade, seguindo o seu caminho pelas trevas do ouro material.<br />E o rato não tornou a voltar a ser lobo.<br />Assim é o Homem, que, pensando ter-se tornado adulto, não passa de criança rebelde, que se esqueceu de manter a sua pureza e nela crescer, atirando-se então, no beco escuro da fantasia, quando existem largas avenidas de Luz, quando as há, pois essas avenidas são eternas e becos tais encontram-se por todos os lados, cheios de deliciosos tormentos momentâneos que só existem como restos do diamante lapidado. Quem nasce para rato, sonha em ser hiena eternamente, esquecendo-se que já fora lobo.<br />Atenção: ainda que hajam lobos, mais há de hienas, e ainda que hajam hienas, mais há de ratos. O pequeno, mesmo em maior número, nunca alcançará a visão do grande, como deverá ser para se concluir a Grande Obra alquímica.<br />ORA ET LABORA.<br />QUE ROUA AELOHIM SOPRE CONVOSCO.<br />BENEDICTUS DEUS DOMINUS QUI NOBIS DEBIT SIGNUM.</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>Supremum Vale - Solaris Lusitania</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3e_supremum_vale_-_solaris_lusitania</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:18:56 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3e_supremum_vale_-_solaris_lusitania</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">SUPREMUM<br />VALE<br />-<br />SOLARIS<br />LUSITÂNIA<br /><br /><br />1<br /><br />Ó Pátria amada que não soubeste<br />Por que grandes fins te escondeste?<br />Do grande nome tanto aclamar<br />Por ti decidiram teus avós navegar.<br />Tão triste estás em teu azul canto<br />E tão grandes luzes são os seus<br />Filha tu és, dos veros Judeus<br />E não ensinaste a retirar o manto.<br /><br />2<br /><br />E a má fortuna que te esperou<br />Pelo teu grande Império<br />Tamanha montanha que desabou<br />Como cometeste Tu tal adultério.<br />Hora é, elevai já o esplendor<br />E recupera em Seu nome o céu<br />Retirai relíquias, do templo meu<br />E esquece enfim tamanha dor.<br /><br />3<br /><br />Reencaminharás sem nomear em vão<br />E por sinal alcançar o perdão?<br />Pois são mais os que a ti devem<br />Do que aqueles que a ti servem.<br />Ó glória porque nos deixaste?<br />Se enchemos o mundo de suor<br />E viajámos com tanto amor<br />Nestes corações que abandonaste.<br /><br /><br /><br /><br />4<br /><br />Não me digas que há crime em ti<br />Por este ardor que sempre senti<br />E recuperai bem alto teu nome bom<br />Que te ergas alto e com bom som.<br />Não queiras tu visitas guiadas<br />Por aqueles que ao mundo nada deram<br />São almas pequenas que proliferam<br />Parcas sentinelas desguardadas.<br /><br />5<br /><br />Os mesmos sem Sul nem Norte<br />Que Te agridem com sua sorte<br />Souberam outros desencaminhar<br />Com grandes estrondos pelo ar.<br />Não digas Tu que por Ti fizeram<br />Mais ainda que teus egrégios avós,<br />Que andam pelas almas em nós,<br />E nem vêem o podre que elegeram.<br /><br />6<br /><br />Grande és Tu, ó Pátria amada<br />Que por mais andes desesperada<br />Não há medo que Te guarde<br />Pois só o fogo é que Te arde<br />No fogo arderá quem to mete<br />Por causa dos outros ditos quais<br />Que por mais se digam normais<br />Não sabem a morada que te remete.<br /><br /><br /><br /><br /><br />7<br /><br />Mas para o fogo a água habituada<br />Que a nossos bravos não diz nada<br />E se ainda existe quem te queima<br />Se esquece de teu nome: Lusitânia<br />Fizemo-te homem sem algum mal<br />Mas és o Oásis do nosso deserto<br />Pois tens todo o mundo por perto<br />E chamas-te agora Portugal.<br /><br />8<br /><br />Mas a glória antiga já não te toca<br />Não faças grande orelha mouca<br />Mas o tempo urge saber fazer<br />E um dia voltares a ser mulher<br />Medo tenha quem te ensina<br />Todo o mal que diz ser o bem<br />Como outrora honra tu também<br />Aquele que Te chama lá em cima.<br /><br />9<br /><br />Foge sim das sombras de outrém<br />Que Te diz conhecer tão bem<br />E que venha a Ti novo Viriato<br />Que em ouro Te sirva outro prato<br />Não te faças tu de esquecida<br />Daqueles que de Ti tanto fizeram<br />Pois esses jamais te esqueceram<br />Por mais que andes Tu perdida.<br /><br /><br /><br /><br /><br />10<br /><br />Recupera Tu o teu caminho<br />E dança ao som de seda e de linho<br />Repondo de novo ordem ao mundo<br />Pois tão triste anda, tão fecundo.<br />E só o mal é que nos quer bem<br />Como quem anda ao rumo da sorte.<br />Esquece então tua própria morte<br />E dá de novo a quem nada tem<br /><br />11<br /><br />Bravos cruzados a ti chegaram<br />E o fim do mundo alcançaram<br />Deixando em Ti tão grande semente<br />Raio tamanho vindo do Oriente.<br />Luz enorme de família sagrada<br />Que Teu nome o mundo conheceu,<br />Tua origem que o tempo escondeu<br />Te verá de novo, ó terra amada.<br /><br />12<br /><br />Os Veros filhos hoje Te chamam<br />E a Vera origem hoje reclamam<br />Talvez um dia e sem se saber<br />Te tornarás de novo grande mulher.<br />Terra mãe, por quem tu choras?<br />Lágrimas não há, um choro seco<br />Ainda hoje te fizeram de boneco<br />Amanhã mulher, virás a horas.<br /><br /><br /><br /><br /><br />13<br /><br />Se ainda hoje não te encontraram<br />É porque ainda não mereceram<br />O tal que voltarás a edificar<br />Num dia que ninguém esperar.<br />Mas o Sol a Ti comanda<br />E o furúnculo de ti sairá<br />E acordar o bem que haverá<br />No dia que só a luz te manda.<br /><br />14<br /><br />Por quantos mares te procuram<br />As vozes que ventos ecoaram<br />E os sinais que ninguém quis ver<br />E as feridas que ninguém quis ter<br />Por mais pequena que Tu sejas<br />História radiante tua realidade<br />Anos incontáveis tua idade<br />Por mais baixo que Tu estejas</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>O Blues de Avignon</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3d_o_blues_de_avignon</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:15:39 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3d_o_blues_de_avignon</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">O<br />Blues<br />De<br />Avignon<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />msl<br /><br /><br /><br /><br /><br />Faro<br />2002<br />     A ti Avignon,<br /> por seres das terras mais lindas,<br /> do mundo que eu conheço.<br /> <br />Aos Pobres,<br /> por mostrarem aos ricos,<br /> o contraste do que é viver numa das terras mais lindas que eu conheço.<br /><br /> A P. R. M.<br /> por me ter feito conhecer uma das terras mais lindas que conheço.<br /> <br />A G. C.<br /> por me mostrar sua amizade e também o outro lado da cidade.<br /><br />A todos aqueles que eu não conheço.<br /><br /><br /><br /><br /><br />O Homem, é um ser bizarro, capaz de todos os contrastes possíveis. Tão depressa esquece os outros como se esquece daquilo que deveria de representar para os outros. É um pouco como Avignon, que se esqueceu daquilo que foi e que representou. Avignon agora é um Blues.<br />O homem que jogava dinheiro à rua<br /><br />Quando as férias chegam muitas vezes a tristeza aparece sentada à nossa frente no banco do jardim. A mania da solidão arranca de Albert as mais fortes batidas de coração. Ele, que faz tanta coisa pode muito bem tomar conta de si, agora que tirou uns dias. Para quê sair de um buraco azul para ver verde ou ver castanho? Para quê refrescar a mente cansada de tanto vazio? Não. Convidaram-no para uma semana em Aigues-Mortes. Duro demais para um escriturário que não conhece mais do que papeis e burocracia. O Rocher des Doms é óptimo para enviar milho miúdo aos pombos. Mas a idade nunca o permitiu fazê-lo. Novo demais para isso. Mas com tanta miséria mais vale deitar dinheiro à rua. Talvez fosse boa ideia atravessar a Rue de la République, a começar pela Place de l’horloge até ao Cours Jean Jaurès, jogando moedinhas para todo o lado. Seria necessário arranjar trocos suficientes para seiscentos metros de distância e para seiscentos e tal preguiçosos, entre alguns artistas, que só sabem estender a mão: “Une petite pièce? Un Euro?”. Infeliz?, pensou ele, infeliz sou eu! Mas gosto de ser assim. Ao menos tenho o meu trabalho. A ele não lhe custa nada abrir a janela do escritório para assistir aos romenos a venderem o jornal dos sem abrigo, pois é exactamente isso que a sua alma, lá na profundidade do seu ser, sente. Ele é um sem abrigo socialmente aceite. Gosta de acender um cigarro e atirá-lo para o chão para vê-lo a queimar, quando não chove, claro. É um breve sabor de vingança entre os vícios e os prazeres mundanos. Adora comprar perfumes caros, tirar-lhes a tampa e deixar na rua a ver se alguém apanha. Isso dá-lhe uma enorme vontade de abrir o pulmão com aquele sorriso que demonstra a frustração de quem tem dois relatórios para assinar, quatro ou cinco circulares para enviar, sem falar do velho cliché do atendimento público “Um momento, não vê que estou a trabalhar?”, ou dos dois dedos de conversa entre o primeiro e segundo café, no refeitório, a ouvir os novos estratagemas dos filhos dos outros. Costuma esperar até ver a sublime alma que apanha, cheira e fica contente. A tampa, se essa alma procurar bem, encontra-se a três metros de distância. Com um bocado de bom senso, há-de lhe servir para usar o ano inteiro, talvez dois. Está decidido, vai ocupar o tempo livre embebedando-se com o sentimento de se ter tornado, nem que seja momentaneamente, o Deus dos pobres. Troca-se uma nota por um jornal aqui, outra nota por outro jornal ali. Um ou outro café acolá. Com um pouco de sorte vai ter o dia mais feliz da sua vida num ápice. Vai extinguir em menos de nada, o fogo que lhe queima esta nobre alma, no inferno da sua vida, por ele escolhida. Vai sentir os elementos confrontando-se uns com os outros, vai mudar o mundo! Vai ser o auge violento do seu ser. Quer ver o mundo baixar-se perante a sua passagem como Deus disfarçado de pessoa. Ouvir o tilintar celeste da queda das moedas como se tornasse de repente o homem mais rico do mundo, o mais poderoso, o Bill Gates de Avignon. Albert assim fez. Ainda foi tirar algum da poupança que não lhe servirá para nada, e atravessou toda a indecente gente que lhe martiriza todos os dias do escritório para casa, de casa para o escritório. Os bêbados, os drogados. É hoje que todos vão andar à porrada, os cães irão morder-se uns aos outros, irá haver sangue por todo o lado. Vai haver vida em Avignon. Vai ser a revolução, o dia vai ficar marcado na história de França, como o dia em que choveu moedas, o milagre da multiplicação dos tempos modernos, o tudo e o nada. O pobre Albert chegou a pensar suicidar-se quando atravessou a rua inteira e reparou que nem uma sóbria alma apanhara o que quer que fosse. Foi uma luz que lhe acendeu a alma: voltou para trás e apanhou as moedas uma a uma e voltou ao banco do jardim para ganhar coragem e dar milho miúdo aos famigerados pássaros.<br />O pintor de calçada<br /><br />A felicidade de um homem está no prazer que tem em fazer aquilo que gosta. Como há quem goste de estar fechado dentro de quatro paredes a maior parte do dia, também há quem se sirva do melhor que a cidade tem para oferecer, para viver e até sobreviver. A agonia está presente em cada canto do ser humano mesmo no meio da alegria de respirar o melhor ar puro possível, e está pronta a surgir em qualquer momento, preparada com correntes de ferro para aprisionar quem se deixe, pela dita, como trofeu da delinquência humana. Ali mesmo, enquanto o pára-arranca se desnuda, encontra-se um dos maiores artistas que a calçada do Cours Jean Jaurès jamais conhecera. O inconfundível cartaz “Para não morrer de fome, por favor”, entupido pelo vazio e pela desgraça humana, ali permanece preso pelo chapéu roto, tudo o que o homem para mostrar, quando alguém olhar para ele em troca da última ceia, um trabalho de dias e giz. A paciência inesgotável do artista, intercalada pelo medo de nada conseguir para o fim do dia, está à mostra pelas gotas de suor que deixa cair, como se fosse a alma a chorar ininterruptamente. Um casal de jovens deita-lhes duas moedas para poder apreciar tamanha arte. Um Oásis naquele deserto humano preenchido por um quotidiano  de buzinas e o folclore das viaturas poluentes às quais se junta de vez em vez, o apito do polícia que manda afastar o traquina do condutor que espera pela donzela enquanto esta vai tentar retirar algum dinheiro da máquina. Os traços de giz ainda chamam a atenção a mais alguém, um pedinte com o cão, interpela com razão, o jovem casal, dizendo-lhes “Quem me dera desenhar assim”, não fosse a arte desse homem um autêntico hino à insalubridade do nosso dia-a-dia. Antes fosse. Um distraído casal norte americano, passa exactamente nesse momento pelo quadro que aqui apresento, para deixar o sinal da pátria mais amada de todas. Ele passa por cima do desenho apagando-o parcialmente, pondo naquele momento, fim à sua existência. Após o serviço feito, o casal desloca-se +para o outro lado da rua com o fim de se sentar na esplanada da marisqueira mais cara da cidade, ou quase. O jovem casal soltou uma lágrima de tristeza perante a situação, o cão sentiu revolta, o pedinte, dono do cão, consolou o cão. O artista enfim, limpa o suor com um velho lenço sujo, tentando tristemente voltar ao trabalho, um novo início, para um velho fim. O casal de distraídos pede nesse momento, uma dúzia de ostras.<br />A prostituta da noite<br /><br />Há sempre uma razão qualquer, para que uma prostituta qualquer, esteja parada ao início da noite, no Boulevard Saint-Roch, para usar ou ser usada por um qualquer cliente que por ali passe à espera da luxúria canibal nocturna. Não pelo fracasso da solidão, mas antes para ampliar o seu ego à escala planetária. Pára o carro, começa a conversa, ela entra e vai fazer o serviço para algum recanto escuro da cidade. Tão simples quanto isso. Não há burocracia, não há papeis. O homem, representante de Sodoma e Gamorra dos tempos eternos, esquece qualquer parâmetro moral ao qual fora obrigado quando respondeu “Sim” no último dia em que se casou com uma esposa qualquer. Quem será esta obscura figura que empurra Adão cada vez mais para o precipício dos confins do nosso inferno? Quantos filhos trouxe ele ao mundo para o educar, na bela arte do machismo, com o seu belo exemplo limpo de qualquer rancor e temor a qualquer que seja o Deus ou o Allah de seus ancestrais? Mas não há razão para que as coisas não sejam assim, afinal de contas, ele não deixou a sua assinatura no contrato que o Divino fez com a humanidade. Ele nem sequer estava lá! Ele quer lá saber do Juízo Final? Ele nem sequer se formou em direito. Ele só quer que o trabalho seja bem feito e se possível demore algum tempo. E depois, não nos prostituímos todos nós, nesta vida de cão? Afinal, estamos todos cá para o mesmo, ou não?<br />O dia da ascensão da virgem<br /><br />Para quem goste de visitar o que quer que seja, o dia da ascensão da virgem não deve de ser o melhor, se não quer ver a vaidade humana em seu auge. E porquê? Pela perplexidade que pode causar certas e determinadas cenas, ou pela vontade de rir que o momento pode bem vir a trazer, ali mesmo, em plena casa do senhor, diz-se. É que, como se sabe, o diabo tece o seu bordado em qualquer lugar do instinto humano. E teceu ali mesmo, na place de Saint Didier, dentro da faustosa igreja lá erguida, pedra sobre pedra, com ranhuras de gótico, há uns bons séculos atrás. O precipício do bom senso mostrou-se à minha pessoa, para me julgar naquele, confesso, belo monumento histórico. Por entre rezas e murmúrios, dependendo do bem estar de cada um, a caricatura do ser humano reza sempre mais alto. Qualquer ser se arrisca a tomar conhecimento da sincronia mal ou bem?, bem ou mal?, de Deus ou do Diabo?. A figura típica da senhora praticante, que faz anos que se esqueceu já da menopausa, ali estava. E no meio das pinturas, conseguia-se ainda vislumbrar uma cara feminina, tal como uma criança vislumbra um presente escondido no meio do iluminado pinheiro de natal. Era sem dúvida, uma respeitosa Senhora da sociedade Avinhonense, não rica mas, de qualquer maneira respeitosa. Chegando as amigas, também elas pequenos pinheiros natalícios, dá-se o normal cumprimento que o momento deixa adivinhar. Depositadas as grandes coroas de flores que a virgem tanto agradece, tal como um cão morto agradece um suculento osso de vaca, ou uma costeleta de carneiro de tomatada, uma das amigas finalmente dá conta que a senhora, a primeira, tinha um qualquer borrão nos lábios, talvez devido ao baton cuja cor fora escolhida pelo Senhor nas sagradas escrituras, o qual a segunda prontamente eliminou. Para as senhoras talvez tenha sido um lugar comum de suas existências. Para mim, era o próprio Diabo a rir-se de mim. E eu não estava sózinho, também não fui lá para depositar flores.<br />Reveillon<br /><br />Um reveillon é sempre uma tentativa de se fazer da passagem de um dia para o outro, algo de extraordinário, inesquecível, que nos marque quem sabe, para toda a vida. Há quem queira fazer as mais dispensáveis loucuras, há quem deixe de fumar, de beber, quem goste de vestir o melhor smoking e ir ao melhor restaurante da cidade, há quem goste de o fazer em família, há quem goste de estar longe dela, há quem se isole, há quem vá à igreja pela primeira vez na vida, há quem mude, há quem fique igual ao que sempre foi. Quer se queira quer não, há sempre um não sei o quê num reveillon. E por vezes, há reveillon que jamais se esquecem e que ficam realmente marcados para toda uma vida. Ao menos que seja um dia para esquecer a guerra no mundo, a miséria, a fome a desgraça, que seja um dia diferente dos outros tão iguais, e que se torne um tema de conversa para a quinzena seguinte. Que venham ovnis, que venha o fim do mundo, que aconteça algo de especialmente diferente da tortuosa monotonia. Mas no entanto, há reveillons que quer se queira quer não, ficarão mesmo para todo o sempre, não que se faça tudo para que tal aconteça, mas porque algo quis que que assim fosse. O destino ? Não sei responder. Não estava à espera de um reveillon tão diferente dos outros. Era para ser uma coisa qualquer, como todos os outros que já passei. Havia qualquer coisa no ar, de diferente. Estavamos os dois ali sózinhos, um doce aqui, um salgado ali, aquela refeição que se pensara na semana passada, esse tipo de coisas. Tive a oportunidade de poder passar então, dois reveillons, como quem mata dois coelhos com uma só cajadada. O francês e o português. Que se prepare o champanhe pois a hora está perto, mesmo muito perto. Antes, vai o último pocker do ano. Pois foi o último e o primeiro. Distraimo-nos e o ano passou num ápice. Como bons portugueses, desenrascámo-nos bastante bem. « Não faz mal, pois temos a oportunidade de passar o reveillon português ! ». Mesmo assim nada feito. A publicidade distraio-nos e foi o segundo reveillon perdido na mesma noite. Bebe-se o champanhe e vamos lá ver se conseguimos encher de alegria, estes nobres corações lusitanos que tanto necessitam de se afastar deste triste fado. Vamos ver a festa no Palácio dos Papas, para ao menos ver as caras de felicidade das outras gentes, que certamente não perderam um reveillon, quanto mais dois ! ! Place de Corps Saints, Rue de la République. Os gauleses só têm medo de uma coisa : que o céu lhes cáia na cabeça. O céu caiu-nos na cabeça. O impossível, ou quase, aconteceu ! Em frente à nossa tentativa de alegria, mesmo esquecendo alguma chuva que naquela altura caía, e no outro lado de onde se encontra o Musée Lapidaire, encontrava-se uma senhora que no meio da alegria dos outros, pedia às almas caridosas ainda sóbrias dessa noite, o que quer que fosse, talvez os últimos francos, tapada com um plástico e com uma bicicleta velha ali mesmo ao lado. Nossa alegria ou semi alegria, entornou-se no chão, derramou-se por toda a rua. Começamos a ter vontade de chorar, pois afinal não estávamos verdadeiramente à espera disso. Vamos ou não vamos? Fomos. Entregámos as últimas moedas de franco que tínhamos e voltámos para casa a correr. Naquele momento só pensámos numa coisa. Não podemos mudar o mundo, mas podemos muito bem fazer alguém feliz nessa noite. Juntámos alguma comida e bebida, algumas roupas quentes, juntámos tudo e voltámos para perto da senhora, para entregar o nosso modesto presente de fim de ano. Nada feito! A senhora já não se encontrava lá. Tristes, fazíamos o caminho de retorno, quando de repente, ali mesmo no escuro do jardim entre as árvores, lá estava a senhora. Corremos para ela e fizemos o que tínhamos de fazer. A senhora agradeceu e esteve a falar connosco perto de meia hora. Ela gostou. Nós também. Mesmo no meio da festa, arriscamos a ter de regressar à realidade  num curto espaço de tempo. É bom não esquecer. Nunca mais esqueci.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O estafeta.<br /><br />A place des corps saints é um autêntico antro burguês durante o festival de teatro. Ali chegam pessoas do mundo inteiro, e é relativamente muito fácil encontrar os amigos turistas, perdidos, a olhar para o mapa, a filmar o cume das árvores, as cinquenta excursões de terceira idade que devem chegar ao local diariamente, tudo embelezado com a roupa de Domingo. Mas o dia enche-se de frenesim, logo pela manhã. Quem se sentar poderá ter o prazer de realizar um pequeno fetiche que possa ter guardado, lá no fundo do inconsciente. O contacto cara-a-cara com artistas de vários níveis, profissionais e amadores, tudo a entregar panfletos e convites dois em um, sempre para atrair o maior número de espectadores para as suas peças. Pequenas demonstrações amontoam-se com os hábitos e a indumentária, mais estranhos e relativamente inesquecíveis. Nunca se deve também esquecer o pedinte, a gorjeta para o acordeonista, para o contra baixista, para o violinista. Até os coros de vozes se tornam distintos. Alheio a tudo isto, está quem nada tem a ver com tudo isso. Falo daquele estafeta que de bicicleta, percorre toda a cidade e sempre à mesma hora, a entregar jornais gratuitos, apinhados de anúncios, de emprego, artigos para venda, etc. E são tantos como o estafeta, que , incógnitos, fazem a vida continuar a andar para a frente. São pessoas esquecidas na multidão que preenche o quotidiano, os mesmos que se enchem de coragem para continuar, mesmo quando tudo o resto abandona em demandada, logo quando o festival acaba, arrojada e cruelmente, a cidade. É sempre o mesmo estafeta. O de todos os dias, a mesma razão de sorrir e a mesma razão de chorar por tudo aquilo a que ficou destinado. Quem sabe ali está alguém de muito especial, alguém que tenha muito a ensinar sob os mais diversos aspectos, com ou sem a clonagem da multidão. Ele existe sempre. Mas o festival acaba.<br />O salão de chá.<br /><br />Haverá melhor hobbie para as tias do que uma tarde bem passada, ao sol, numa esplanada de um salão de chá? Perpétua tendência para um cliché social dos nossos dias. As conversas de sempre. Os mesmos vestidos diferentes todos os dias. Os mesmos valores. A mesma elegância. A mesma sensatez. Há ali uma panóplia imensa de saber de várias espécies. Cultura. Pessoas viajadas. Raramente se fala de emprego ou do trabalho. Nunca se fala de problemas, quando não os há. Pelo menos dos seus. A miséria deixa de existir, substituída por momentos, realmente interessantes como os cursos dos filhos ou o modelo de carro mais In, as coisas são belas e tudo é cor de rosa. O mundo veste-se de smoking. Escusado é, algum sem abrigo se aproximar, já que ali ele não existe. Escusado alguém se aproximar com tristezas, pois fique em casa ou esconda-se. Ao canto do largo, aquela senhora, com demasiada idade para ser verdade, abandonada pelo tempo, esquecida pelo meio, sorri. Sorri com aquela alegria inocente de ver os outros felizes. A roupa que tem, é a mesma do dia anterior. O saco cheio de restos, enche-a de orgulho e preenche toda a sua existência. Os olhos comem toda a ilusão. Não se lembra de lá ter estado quando ainda tinha idade de fazer os homens alimentar, na sua presença, todos os mais desejosos apetites sexuais. Aqueles deliciosos bolinhos, juntam-se aos inconfundíveis aromas. Tudo engloba o seu plano de visão, a maravilha terrestre, dá graças a Deus de poder assistir todos os dias ao mesmo espectáculo, e ver a felicidade de quem se quer expor. Ela também o faz. Mas só o Sol, quando não se esquece dela no meio de tanta coisa interessante, é testemunha da sua existência. Ela não tem tempo para o sofrimento. Há tanta coisa bonita para ver, tanta roupa brilhante, tantos brinquedos que ela poderia comprar, se dinheiro tivesse, para os seus netos já esquecidos. Faz o sinal da cruz, e segue em frente, para, quem sabe, ver uma outra coisa qualquer. Mais coisas interessante, mais vida.<br />O trivial e o hábito.<br /><br />Quem gosta de pedra, de edifícios que exponham o seu esplendor ao ar livre, de estátuas encravadas em paredes escuras com o tempo, e de fazer regressões ao passado já extinto, tem muito para se deliciar, numa qualquer rua do centre ville. Terá de levantar o olhar e desviar o pensamento, esconder-se dos pecados e momentos errantes da vida, para se pasmar com o delicado qualquer coisa, que jamais poderá esquecer. A vida é curta. É portanto, muito fácil se perder perante tanta alegoria dos tempos imediatos. Detalhes são mais que muitos, e o coração bate depressa, até que se decida chegar ao fim da viajem imaginária. E quem gosta de pedra, pode perfeitamente gostar de animais. Apesar de tudo, fica sempre bem. Mas é demasiado verídico para se crer. Pretendeu o destino que toda a alegria fosse breve, mais breve que a vida. E não me poderei jamais esquecer. No meio duma dessas aventuras em que se perde o olhar, ouvi o que nunca poderia ter ouvido. “Então? Pisaste?” , “Pisei o quê?” , “Ora, o que querias tu pisar em Avignon?” Que verdade maior poderá haver? Quem me dera que fosse mentira. Duas moscas poderão dizer: Avignon é um belo excremento, pena é haver tanta pedra no meio!<br />Le Mec Sauvage <br /><br />Há sempre uma excepção que confirme qualquer regra. Na estação solar, cai chuva, na das águas há sol. No Outono há plantas que desabrocham quando na Primavera, certas folhagens que caem. E é na “Printemps” da vida que mais dói quando cai a folhagem. Por vezes a chama trina se apaga na melhor altura, ou na pior, dependendo do ponto de vista. Cada vez mais, os condicionalismos da vida, repreendem o ser, exactamente quando enfim as portas parecem começar a abrir. Puro surrealismo, dizem uns; o destino, dizem outros. A ironia divina estabelece as regras, a compreensão das coisas se estagna, a escuridão regateia o seu lugar na paisagem quando o horizonte se abre em demasia. O Homem retorna ao início selvático da sua existência. Se, ao menos, selvagens não fossemos todos nós um pouco. E o pano caiu em cena. Que horror! Que erro! Exactamente quando o mec se preparava para habitar a representação. Foi um erro de cálculo. A teoria da conspiração. O mundo voltou-se contra ele. Ele revoltou-se com o mundo. Se tivesse armado, certo é que morreria ali muita gente; e se o farol estivesse aceso e a visão fosse maior, pior seria a catástrofe pré-destinada. A revolta é forçosamente a resposta do selvagem. O mec quis matar o pai e a mãe, os filhos, a mulher, a noiva, a namorada, os amigos, a amante. O Firmamento baixou. O fim do mundo chegou no exacto momento em que perdeu o juízo, acorrentado à garrafa de Beaujolais. A sogra, descobriu ele, chamava-se Lilith e era a diabólica representante do sexo feminino na terra. Esta vivia encarcerada nas masmorras com o sogro dele, Lucifer. Ele próprio era o anjo, o cordeiro. Todos lhe retiraram o tapete debaixo dos pés. A última canção por ele feita, seria o ómega da música, a dernier no mundo das notas musicais, no crepúsculo dos deuses do monte Olimpo. Quem o terá traído? Quem fora a poderosa mente que de repente lhe alterara o papel que este se preparava para começar a representar? Ele nem sequer tinha começado?! Uma nota de suicídio, em pergaminho, fora deixada ao acaso, no gargalo de uma garrafa, esta fora atirada ao mar de gente, de traidores, que para ele tivessem a coragem de olhar. Mas quem quer que o fizesse, nada veria, pois parece que o próprio mec sauvage deixara entretanto de existir. Mas na natureza nada se perde, tudo se transforma. Ele há-de reaparecer um dia por aí, quem sabe na forma de uma bela flor, num qualquer jardim de Avignon. É que, parece, um poeta nunca morre. Haverá então, por aí, alguém com  a suficiente coragem para lhe reerguer o pano? É que a peça nem sequer começou... ainda.<br />O espirro<br /><br />Na verdade há coisas que são, literalmente, de cortar a respiração. Quem poderá aceitar, que se constipe exactamente no momento em que a peça vai começar? Ninguém tem culpa da Caserne des pompiers estar com o ar condicionado exageradamente presente. Isso pode muito bem acontecer com qualquer um. Um telemóvel a tocar no momento exacto em que o soprano, na ópera, se apresente para dar a oitava mais alta, poderá representar uma extrema falta de educação. As triviais conversas em voz alta em pleno cinema, também. Mas um espirro? Ninguém poderá na realidade, de ser culpado de tal aparatosa situação. É a natureza das coisas a reclamar a sua presença. Estou aqui, vês? Qual casaco de peles? Qual cachecol? É um suor repentino que derrama o corpo em vergonha. Haverá pior azar para a pessoa? E que dizer dos autores? Bem, esses deverão estar preparados para tudo, mas, e a pessoa? Apetece chorar, apetece rir. Apetece esconder a cabeça na areia como as avestruzes. Apetece saltar de parapente directo ao abismo. Mas vá lá. É só um espirro. E outro. E outro. Nada mais que um espirro. Alguém pode desligar o ar condicionado, mesmo que seja tarde demais?<br />Rue de la pettite monnaie<br /><br />Quem se terá lembrado do fim de todo o alvoroço? Certamente alguma mente diabólica ou sob efeito de uma droga qualquer. Uma rua como esta jamais se tornaria a hipotenusa dos catetos sociais. Perdida está, faz muito, a solidariedade da coisa. Não é que a Rue de la grand monnaie tenha alguma culpa, não é isso, mas o problema é exactamente que rua como tal, é como se não existisse. Quantas pessoas passarão por ela diariamente? E que moeda se poderá cruzar num tão desesperante vazio? Se ali existe alguma coisa, eu, pelo menos, não dei conta. A verdade é que esta mesma rua terá para sempre um grandioso significado para mim. Poderei muito bem esquecer-me de outras, mas não desta. Não é a importância que importa, mas o significado que nos deixa. E eu acredito existir uma rue de la pettite monnaie em cada um de nós. Bem dentro, bem no fundo, escondida algures entre o coração e os pulmões, entre o sentir e o respirar. Afinal de contas, todos somos parte de coisa alguma e de tudo. E o frenesim do sucesso passa muito rapidamente, e voltámos ao ponto de partida, o nada, o nosso pior inimigo. Tal como há bons momentos e maus momentos, existem ruas com tudo e ruas com nada. Mas terá sido mesmo uma mente diabólica que lhe deu o nome? Terá sido influência de uma droga qualquer? Isso não posso dizer. Uma coisa é certa: poderei um dia esquecer-me do que quer que seja, mas dela jamais. Exactamente pelo  que ela representa, o mesmo que eu, o mesmo que todos nós: o vazio – aquilo que sentimos uns pelos outros – quer queiramos, quer não. Percebeu bem, meu amigo? Ou faço-lhe um desenho?<br />Olhe e veja<br /><br />Está a ver onde se cruza a Fourbisseurs com a La bonnetiere? Então vá até lá e não feche os olhos. Nessa esquina encontrará uma senhora, abandonada, é certo, mas uma senhora. Alguém, percebe? Pode nunca a ter visto, mas ela está lá, sentada, a mostrar a factura dos medicamentos que você não necessita, mas ela. Seus olhos são tristes como a negridão em que nascemos, mas se reparar bem, ela está lá a rezar por Si. Não se incomode muito com o gesto, não lhe irá doer. Não vai desmaiar com a sua atitude. Nada lhe acontecerá a não ser sentir-se melhor pessoa. Ligue a televisão, veja as notícias, continue informado, mas..., faça isso por mim, chegue-se perto e dê. Dê aquilo que poder dar. Diga que vai pela minha parte. Sim, tem toda a razão, há a sida, há o cancro, a fome que aflige a maior parte da humanidade, as bombas, as caricaturas de nós mesmo, há um mundo inteiro a descobrir, tantas viagens para fazer, as despesas dos miúdos. Eu sei que há muita coisa ainda á frente, mas chegue-se perto. Não se esqueça que somos todos um pouco culpados por tal estar a acontecer nos nossos dias. Há os usos e os costumes, as ostras e as lagostas, os carros e as motas, os impostos, a luz e a água, o condomínio, o dia dos namorados e o natal, a solidariedade e a fraternidade, a chuva, o sol, a neve, a despesa do mecânico, o tabaco, a alegria e a tristeza, mas..., vá, chegue-se perto e faça aquilo que poucos têm a coragem de fazer. Dê! Faça-me esse terno favor. Essa senhora precisa de si. Não a deixe morrer por esquecimento. Se você chorar por causa da situação, não se preocupe, você acabou de descobrir que é humano, e que toda a miséria do mundo está compactada algures bem perto de si. Faça o que Deus lhe pediu e que Allah lhe obrigou. Dê! Dê sempre. Seja feliz e abra o seu coração para quem realmente precisa de si. Não culpe o mundo farmacêutico. Não se dê também como culpado. Dê, mas não se esqueça jamais do que está a fazer. Obrigado.<br />Onde está Joseph?<br /><br />É cada vez mais difícil julgar o mundo pelo mundo, as atitudes pelas atitudes, acções por acções. A virgem vestal do templo sagrado, mesmo coberta de ouro, deixa a ideia de ter perdido alguma coisa. Ali mesmo, em baixo, está a cruz, os buracos nela existentes comprovam a ideia: alguma coisa se perdeu! Nunca se deu com o corpo, é certo, mas ele esteve ali certamente. O filho na cruz do sofrimento, a mãe coberta de ouro e glória, a querer dizer “Onde estás?”, ou então “Vê o estado do mundo em que deixámos!”, perpetua o raciocínio de que há alguma coisa de estranho no meio disto tudo. A Igreja, julgo eu, pertence ao filho, o ouro deve pertencer à mãe, mas, onde está Joseph? O filho fugiu da cruz, a mãe, impedida de sair dali, chora por ele. Mas, onde está Joseph? Duas figuras há, no baixio da cruz, a lamentar a falta de qualquer coisa que ali esteve, algures no tempo. Diz a lenda que serão duas Marias. Ouvi uma anedota sobre isso. Diz uma: “Vê: falta ali qualquer coisa!”, responde a outra: “Na! Tem é falta de lustre.” Não sei se é para rir, mas seja de que maneira for, falta sempre qualquer coisa nos habituais ícones da Igreja, para além do habitual esquecimento da própria divindade que deveria de representar, e que de outra forma nunca se faria o presépio. Joseph deveria de estar aqui. O próprio carpinteiro fora excepcionalmente importante, na vida do chamado Cristo. Deu o seu nome ao filho. O próprio “filho de Deus” aprendera a arte do pai com imenso orgulho. Não existe razão para tal esquecimento tão insensível. A parecença entre ambos seria inevitável, pois se um seguia os mandamentos do seu pai celeste, o outro seria a razão para existir o “Honra o teu pai e a tua mãe”, o tal quinto mandamento, esquecido, como todos os outros. A justiça revela aqui, a enorme incapacidade de lutar e de agir. Age-se muito, mas, justiça-se pouco. Joseph poderá tornar-se muito bem, o ícone da injustiça humana perante os humanos, o pobre esquecido, a náusea do capitalismo exacerbado. Aquilo que ninguém quer ver e que existe, mas não tem valor comercial. E depois, quando se lembrarem desse, terão de se lembrar de todos os outros, os também Josephes e esquecidos das histórias e das lendas. O problema virá quando se descobrir a ambígua verdade, seja de que maneira for, e dermos conta de que somos todos tão iguais que nem vale a pena. E que antes da importância destes ícones de pedra e de ouro, estamos nós, que deveríamos, obrigatoriamente, de conseguir viver uns com os outros, independentemente da seca e da monotonia que isso representaria, e não conseguimos de forma alguma. Quando a nossa outra face chegar, se chegar a tempo e horas de fazer mudar alguma coisa, tudo se tornará puro desperdício. Por acaso, os outros incomodam-me. Mas eu também incomodo os outros. Tal como esta cruz que perdeu o seu ícone, nós perdemos o valor das coisas, ou será que algum dia o tivemos?  Seja como for, onde está o Joseph?     <br /> <br />Nada mais existe<br /><br />Ó meu amor, então não sabes ainda que depois de ti, nada mais existe? Não vês tu o Sol a sorrir para nós? O que dizer da lua que dança aquando da nossa presença? A água da fonte de Corps Saints deixará de correr um dia que morramos. Mas não digas que temos azar, olha à tua volta e vê que não somos só nós a carregar a cruz, já que o próprio desceu daquela em frente à Cathedral Notre-Dame des Doms, e o mesmo teremos nós de fazer para melhor sentirmos a Lavanda e a figueira da vida. Não vês que nada mais existe? Porque achas tu que os pássaros ainda cantam? Não podemos continuar a chorar a angústia de nossas vidas. O eterno Paraíso está logo ali, ao sair de casa, nós é que o deixámos de ver ao observar as tristezas vastas da existência do Homem. Nada se perdeu ainda, tudo permaneceu no lugar, tudo nos espera na hora devida, só temos que chegar mais perto, sentarmo-nos na relva da Barthelasse, e suspirar pela grande viajem do pensamento, a mesma que a memória da água esconde em seus segredos, que insiste em não divulgar numa qualquer magazine generalista. Mas ali sentados, não podemos deixar os olhos se fecharem por completo, pois o velho desejo da beleza assim o exige, e confessa o belo que é olhar dali. Tu sabes, bem melhor do que eu. Não podemos pensar que as coisas ainda nos são vagas e triviais, pois se o amor pode mover montanhas, o amor poderá mover seja o que for. Por amor, poderemos comprar Uzès e colocar o Palais des Papes no quintal da nossa vida eterna. Se algum dia perdermos o rumo, construiremos de novo, a arca de Noé para quando as lágrimas dos nossos corações encherem os mares do destino. Não te esqueças que o céu se abriu para nós e a grande estrela foi a nossa confidente durante a grande jornada. E não viste tu o Les Halles todo iluminado quando completaste a conta que Deus fez em numeração romana? Nada faz sentido sem ti. O vazio apodera-se da alma e só a tua lembrança me alimenta e como eu desejaria que fosses a minha Perrenelle se me deixasses ser o teu Flamel. Essa gente que te olha de lado não passam de almas penadas, as sobras de Salem, que te invejam. Quero que me abraces como os planetas ao Sol. Que me deixes sentar a teu lado no trono divino, em teu reino, como minha deusa particular. Juntos aprenderemos os segredos da levitação, para podermos passear a olhar um para outro como dois adolescentes que descobrem o seu primeiro amor, talvez o maior das suas vidas futuras. Deixa o Homem ir para a Lua, acampar em Marte ou fazer centros comerciais em Urano. Ficaremos por cá. Seremos os últimos habitantes na terra, os sobreviventes do nuclear, as 12 tribos de Israel. Mas, voltando à realidade, só tu me poderias fazer gostar de Pizza. Depois de ti, nada mais existe. E antes que o mundo acabe, queres ir lanchar à Pont du Gard ou mergulhar na Fontaine de Vaucluse? Voltar a Roussillon e a Gordes? Voltar a ver a chuva de estrelas no céu de Sault? Que queres tu que eu diga?, se nada mais existe...<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O observador<br /><br />Então não sabem que os anjos existem? Não, não são desses, as asas são outras e muito difícil de as ver. E há anjos fêmea e anjos macho. Há um pelo menos na Cité des Papes, só que ele se torna invisível no meio da multidão de tal maneira, que só as almas mais puras o conseguem ver. Ele é o observador. Aquele que vê coisas difíceis de penetrar com o olhar e podemos o encontrar num café qualquer da Place Pie, na Place des Carmes, num supermercado, numa biblioteca, numa livraria. Ele escreve aquilo que observa e as pessoas se esquecem de se comportar em sua presença. Os disparates são ditos, as asneiras são feitas, tudo permanece igual, já que o Homem perdeu os seus sentidos mais puros, o que é demasiado forte para ser verdade. Quem o conhece diz que ele não existe, pelo menos com o mesmo significado que damos à palavra existir. Na verdade, não é ele que se esconde das pessoas, são as pessoas que se escondem dele. Não o devem achar bonito ou coisa parecida. Ele nunca se entristece com isso, já que faz parte do seu papel. A realidade dele está a anos de luz da nossa, mesmo que nós juremos de pés juntos que esta realidade é a realidade mais real que existe. Tão real como nós. Mesmo que as realidades diferentes andem de mãos dadas, sem necessidade de mundos paralelos. Ele diz que as pessoas não passam de átomos perdidos em sua missão, que nós somos moléculas viciadas em tudo o que é material, que já deixamos de consumir e que passámos a ser consumidos. Mas nada disto importa para ele. As pessoas insistem em não o ver, recusam-se a olhar para ele, mas ele não deixa jamais de nos observar e de escrever sobre nós. Ele pode estar ao lado de si. Pode lhe perguntar as horas, ou pedir licença para passar. Na verdade, mesmo que ele se queira aproximar de si, você tende em afastar-se dele. Não pense que se vê um anjo como uma obra de Miguel Angelo, belo. Ele não passa os dias no cabeleireiro, não vai ao cinema, ele não usa roupa de marca como você, ele nem sequer deve ter televisão (pois não é preciso ser possuidor de uma para se ser um bom observador, se calhar é mais ao contrário), nem telemóvel. Se calhar nem tem automóvel. Eu acredito que ninguém se dê conta dele tal como já não se dá conta do belo, pois vivemos no tal mundo em que se dá nomes feios às coisas bonitos, e que lindo é aquilo que está à venda, tão somente. Mas nós nos esquecemos que as belas folhas vermelhas, se tornam castanhas para caírem no chão, e como sempre, pisamos o que ao menos já foi belo uma vez, como as pessoas que nos deixam de interessar ou como os trapos que vestíamos e que hoje têm buracos deixando de ter valor. Ele diz que os buracos dos trapos velhos somos nós e que, vivemos tão contentes que não nos apercebemos que somos nós as folhas castanhas que, como mortos, somos pisados pelos outros sem os ver. Ele sabe o pacto que nós temos, e com quem temos! Ele sabe quem faz o quê e como fazemos. Ele sabe tudo isso sem ser rico. Não é conveniente alguém se aproximar dele para obriga-lo a abandonar o seu papel, não adianta querer acertar-lhe no coração, pois nem capacidade temos de confessar os nossos podres. Um anjo pode viver para sempre no coração de quem sorri para ele. Os anjos são como Deus: também gostam de pequenos mimos de vez em quando. Deve ser muito difícil ser um observador. Deve ser muito difícil ser anjo. Só pode ser, pois eles jamais confessam a sua profissão. Também, quem está interessado em conhecer um verdadeiro anjo?                  <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O meu destino caiu num buraco fundo<br /><br />- Diga-me, madame, qual a razão para tanto sofrimento? O que lhe causou esses olhos tão tristes? Porque espera que a alegria se chegue até si? Porque desistiu de procurar a felicidade? Quem a abandonou? Teremos sido nós? Diga-me, madame, por quem bate o seu coração? Por quem chora a sua alma? A madame não se acha digna de um pequeno sorriso, por mais pequenino que seja? Quem, ou o que aflige o seu ser? Ter-se-á o mundo  esquecido de si? Diga-me a razão das suas mãos tremerem dessa maneira? Porque desistiu de tudo e se esconde neste canto aqui perdido, húmido e feio, longe de tudo e de todos? Por favor, erga a sua cabeça...<br />- Ó meu Jeune Bonhomme, eu sou como a cidade de Avignon: o meu destino caiu num buraco fundo...! <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Sentado no cantinho dos aromas<br /><br />Depois de dar pão molhado aos meus amigos gansos e de passar os olhos aos seus companheiros de quarto, os patos e os cisnes, gosto de pegar num bom livro e reter-me por uns bons momentos no cantinho dos aromas. Dizem ser muito difícil permanecer por ali, que nos troca os sentidos. Mas eu devo de estar vacinado, e como tal, adoro fechar os olhos e tentar nomear seus nomes, um por um. Claro que é difícil e só faço isso por pura diversão. Não se paga para isso e dá-me imenso prazer. Ali sentado posso pensar no mundo e dos porquês da queda de Adão, ouvindo a água a cair docemente pelas rochas criando uma leveza no ambiente. Eu acredito que há uma razão de ser de tantos aromas diferentes no mesmo local: o homem tenta imitar a natureza. E tem razão, pois só assim, a nossa relação com ela se completa. Rejuvenesço um pouco, sempre que me sento naquele local. Afastamo-nos uns metros da dita civilização, mesmo que nos encontremos em pleno meio ambiente algo hostil aos nossos corações, faz bem esquecer um pouco quem somos, de onde viemos, e para onde vamos. Faz bem tudo o que seja inocente e tranquilo. Pode ser bizarro, mas ainda há quem goste de colocar os pensamentos nos seus devidos lugares, hoje que pretendemos fazer tudo muito rapidamente, logo e já! Faz bem esquecer isso por uns momentos. É bom , muito bom, podermos dizer a nós mesmos que “Tenho tempo”, que a vida não mudará logo ali à esquina, embora tal possa acontecer. Gosto de ser um beato da natureza, um legionário das coisas belas da vida, aliás, como todos dizem gostar e de ser. Eu também digo o mesmo. Para quem gosta de viajar com os sentidos mais íntimos da nossa pessoa, eu aconselho a ficar sentado, algum tempo, no cantinho dos aromas.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Um fútil olhar ao luar<br /><br />Os bons momentos nasceram para ser partilhados com alguém que se gosta muito. Aquelas pequenas coisas que nos mantêm vivos que, por mais fúteis que sejam, são aquelas coisas, com as quais, nós nos vamos sentindo realizados e existentes. Os momentos de solidão, não podem ajudar quem quer que seja, a seguir para a frente. Pelo contrário. Breves são os momentos em que os humanos passam juntos, tão breves que os outros momentos são uma chatice. Não pode haver lógica possível em partilharmos o nada. Até os pequenos nadas, têm algo a partilhar. E depois, há coisas belas que são uma chatice por estarmos sozinhos. É tão bom quando se vive as coisas em companhia. Acredito ser possível poder viver junto ao limite do possível. Mas em conjunto. Os poetas quando escrevem, escrevem sozinhos, no vazio, é por isso que saem coisas tão lindas, mas deve ser uma chatice escrever sozinho. Era tão bom poder viver no mundo onde os poetas não existissem. Sinal que a chatice não existia. Onde tudo fosse poético, que não houvesse um, um só fútil olhar ao luar. Ver as estrelas, os desenhos nas nuvens. Podíamos parar para pensar. Afinal o que andamos a fazer de nós? Farrapos existenciais, asquerosos seres que se odeiam. Parar, pura e simplesmente. Fazer com que não fosse fútil, um olhar ao luar como este.       <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />La demoiselle d’Avignon<br /><br />É um quadro famoso. Não passa de um quadro. É algo de difícil compreensão, não fora os tempos modernos como o próprio quadro. Existirá para sempre, um demoiselle d’Avignon tão igual como o tempo que se ultrapassa, que se retém, que se imagina estar, que se julga, etc. Ainda hoje ninguém o compreendeu. Tornou-se famoso pela pessoa que o pintou. No seu tempo, quando foi pintado, era horrível, hoje permanece horrível mas famoso. Existe um sentido de arte para cada um de nós. Hoje todos dizem entender a obra de Picasso, o génio de Picasso, o homem Picasso. Mas ele morreu rico e famoso. Outros houve porém, que faziam coisas lindas e de fácil entendimento, hoje mortos e famosos, antes vivos e frustrados. A fama veio para ficar. Avignon teve a sua altura, o seu auge, era a Ville Phare perante as outras. Penetrava na existência das pessoas, sob o olhar atento do divino, erguia-se sumptuosamente, como hoje permanece, mas esquecido das criaturas do divino. Não passa de uma breve página da história da humanidade. Há um demoiselle d’Avignon em cada um de nós. Hoje, perante nossas simples faculdades, existimos, famosamente descritos, amanhã, mortos e bem esquecidos, tornaremos a pó, reduzidos ao nada, como que castigados pela nossa importante insignificância, mas nunca é isso que queremos. Mais forte é a ideia de nos tornarmos eternos, famosamente eternos. É melhor do que nada. Depois, poderemos morrer descansados. Nem que sejamos feios, gordos, porcos, queremos ser famosos por isso. Um bordel de Avignon, tornou-se eterno e vivo, quem pintou o quadro, tornou-se eterno, até ver, mas morto. Terá Picasso feito da cidade de Avignon um eterno bordel?<br /><br /> <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Remoulins e a flor de pedra<br /><br />Saia da cidade pela ponte da Europa, siga sempre em frente, passe todas as rotundas, atravesse Remoulins, passe a ponte, vire nessa rotunda á direita, siga sempre em frente. Estacione a viatura, feche os olhos e imagine-se dois mil anos antes. Aí encontrará a maior nota de cinco euros que conhece, você irá perceber porquê. Se fechar bem os olhos, seguindo o meu conselho, verá enormíssimos andaimes, e legionários romanos erguendo pedras de seis e de oito toneladas. E só porque Nîmes necessitava de água para se tornar o que se tornou. Note bem, o suor e o sangue derramado. Não eram escravos. Eram seres que erguiam grandes obras, das maiores vistas até então, das maiores vistas ainda hoje. Não pelo seu enorme tamanho, mas pela durabilidade. Depois de ter estacionado o carro, agora experimente estacionar o seu próprio ser à sombra de uma qualquer das grandes árvores que por ali pluriferam. Faça uma “siesta”. Ouça a água a correr, as crianças a brincar, famílias felizes e sorridentes. O mundo tornou-se melhor para viver. Hoje não há o mesmo suor e sangue de outrora. Não são ruínas mas atraem assim mesmo, imensa gente. Os graffitis genuinamente feitos a escopro e maceta, com as datas ao lado, realizados durante séculos, mostram-nos duas coisas: que não alterámos as nossas formas de vandalismo, e que a obra sempre fora considerada de local privilegiado para dar origem a rituais iniciáticos. Hoje já não é aquele lugar obscuro de antigamente, não é, mas de noite ainda se consegue ouvir legionários a cair à água, gritos de morte, ordens duras de centuriões, desaires vários que não passam de pura imaginação vinda não se sabe muito bem de onde, talvez seja derivado aos vários filmes que se vêem ou de livros que se lêem. Seja como for, o lugar é belo, belo o suficiente para repetir a experiência vezes sem conta. O comércio tomou conta do local, “para sua comodidade”, pois se não fosse assim, talvez ninguém lá fosse, como é de hábito humano. Esse monumento está lá gratuitamente para si, tudo o resto é pago com os olhos da cara e com as notas no bolso. Uns pagaram com a vida tal esplendor, outros pagam com a nota dali mesmo imaginada, cachorros quentes e refrigerantes de coca. Mas a maior parte não vai pela ponte du Gard, vai pela praia, pelo convívio, pelos caiaques. A ponte essa, chora os seus mortos, e chora a sua memória, a sua antiga utilidade. É uma espécie de cemitério tornado parque de diversões, eternizado pela mais pequena nota de euro, até esta altura, a de cinco. Eu muito sinceramente, penso que não há dinheiro que se compare a este grandioso monumento erguido pelos nossos ancestrais. E foi muito bem erguida, esta flor de pedra. As notas vêm e vão, a obra fica.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O pintor morreu<br /><br />Ali em plena Rue de La République, há uma mole de gente que tenta ganhar a vida como pode, ao calor, ao frio, à chuva, ao vento. Talvez esquecidos pelos familiares, pelos amigos. Estão ali à vista de todos para gládio dos outros. Uns tocam música, outros fazem pequenas peças de teatro. Há poetas e há filósofos. Antigos professores, escriturários, comerciantes que faliram, enfim, l’habitude! A cena ocorreu numa dessas noites de Junho, algum tempo antes do famoso festival de teatro. Já o turismo começa a mostrar a cara, seja de dia, seja de noite. O dualismo é coisa vulgar, uns pedem dinheiro, outros passeiam e divertem-se. Ali perto, a bicha para o tabaco torna-se cada vez maior, estendendo-se vários metros no passeio. No outro lado da rua, o pintor de sempre, desenhando primeiro, pintando depois, mas sempre belas paisagens da velha Provance e do próprio Vaucluse. Há um misto de alegria e de tristeza na face do homem. Mal vestido, tela, cores, pincéis e cão é o nosso quadro. A Pont d’Avignon, era o quadro dele. Um jovem casal da terra do tio Sam, acabavam de sair do MacAquilo, ainda com os saquinhos nas mãos, passava por perto. Ela disse “Oh, so cude!!!”, ele sacou de duas moedas e atirou para a cobertura da caixa de sapatos que servia nessa altura de depósito de moedas e notas. O destino sorrio para a cena e fez com que uma das moedas realizasse uma trajectória do outro mundo. Saltou, bateu num poste e ganhou velocidade; o pintor, após o “Merci Bien!” saltou do banco em que se encontrava sentado e seguiu o trajecto da pequena moeda; esta passou por entre dois carros ali estacionados, indo contra uma das rodas dum deles, desviando-se assim do trajecto inicial, o pintor, deitou o pincel para o chão e correu insistentemente para ela; a moeda, dirigiu-se em fúria para o meio da estrada, o pintor, também; uma viatura passava febrilmente por aquele cenário na pior altura de todas, a moeda passou, o pintor não! Gritos e choros foi a cena seguinte. O condutor dirigiu-se até à vitima, a mulher dele, que também seguia dentro, chorava desalmadamente. Chegou a Polícia, os paramédicos, juntou-se uma pequena multidão. O cão do homem gania com todas as suas forças, querendo livrar-se do nó dado pelo dono umas horas antes. Houve um silêncio diabólico. O paramédico, após a verificação, surgiu com frase: “Rien à faire, il est mort!”. De novo o silêncio. A mulher já voltara para dentro da viatura continuando a verter lágrimas durante pequenos soluços. O marido tentava acalmá-la. O pintor jazia morto em plena estrada. Um jovem rompeu o silêncio:<br />- “Agora já podem vender os quadros a um bom preço! Agora que jaz morto no chão, está pronto para ser famoso! Paz à sua alma.” O jovem foi-se embora de seguida.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Papas bem romanos<br /><br />Parece que foram os romanos que deram início à cultura vinícola por toda a Gália. É um facto histórico. O vinho fazia parte do pagamento do grande exército. Num bom momento o fizeram. Entre os melhores vinhos gauleses, encontram-se os Côtes du Rhône, cuja “capital” é exactamente Avignon. Ali bem perto, uns quilómetros a Norte, está uma terra muito singular no género, atitude e sabor: Châteauneuf-du-Pape. Apelação de Origem. Como o próprio nome indica, ali era a terra de descanso do Papa. Mais ainda: o forte, para o qual se dirigia o Papa sempre que houvesse uma algazarra qualquer. Era o “pelo sim, pelo não” do homem, o salvaguardar da espécie. Do castelo só restam as ruínas, a cultura vinícola, essa está de boa saúde e é deveras recomendável. Aliás, há videiras até perder de vista, estão até lá, onde os olhos não conseguem alcançar. Horizonte grandioso demais para a fraqueza humana. Hoje, em qualquer esquina, e não só, pode-se provar o célebre néctar dos deuses pela pequena vila. Foram os romanos que por ali estenderam a sua cultura, foram os Papas que a aproveitaram. Bem que eles tivessem deixado Roma para se dirigirem para Avignon, mas, apetece dizer: muda-se o local dos monges, mas nunca os seus hábitos. Ele há Papas bem romanos.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Freedom, o lugar da liberdade<br /><br />Todos nós acreditamos na liberdade, com a melhor boa-fé possível. Somos instruídos pela liberdade. Condecorados pela liberdade. Conduzidos pela liberdade. Somos livres de escolher o produto que melhor se adeqúe à nossa pessoa. Somos livres de escolher o melhor programa televisivo que nos impõem. Somos livres de escolher o curso da vida que nos obrigam. Somos livres de enviar as bombas necessárias para aniquilar o povo que se quiser. Somos uma sociedade livre até ao extremo. Numa noite dessas, na Place Pie, em pleno coração do Centre Ville, já de madrugada, uns jovens iniciaram um conflito, cuja origem se desconhece. As coisas foram piorando aos poucos, e de repente já haviam garrafas partidas, socos, pontapés e algum sangue. Chegada a polícia, ninguém se deu como culpado, nem havia testemunhas, pois todos faziam parte ou de um grupo ou de outro. Antes, houve juras de vingança futura, etc. A polícia tentou acalmar em vão, os jovens. A maior parte deles foi-se acalmar para a esquadra, para ver se passava a agressividade. Ali perto estava quem escolheu a hora errada no local errado, para dormir o sono dos justos. Era um homem de largas barbas, que tentava ali não incomodar ninguém, naquele lugar húmido e escuro, deitado em papelões, agarrado à sua mochila rota. Ali, a uns passos insistiam em permanecer no chão, algumas seringas carregadas de uso, que não incomodavam ninguém; e urina, muita urina. E o próprio cheiro do local é também desaconselhável. Chegaram perto do homem. Era um Inglês. “O Senhor não pode permanecer neste local, por favor, queira circular”, tudo dito com a maior das simpatias. O Homem acordou com a situação. Com a mochila numa mão, e o papelão na outra, disse com uma lágrima a cair no canto do olho.<br />- This is the Freedom! É esta a liberdade que nos prometem! São mais livres aqueles que matam do que aqueles que morrem!”<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />O ódio, a quem de direito<br /><br />Place de Jerusalem. Como se sabe, uma sinagoga não serve somente para rezar. É lá que se sabe das novidades. É lá que se fazem grandes negócios. É lá que se convive. Sempre foi assim, entre os Judeus. Nesse dia tinha acabado de chegar a notícia de mais um atentado suicida em Tel Avive. Mais um infeliz crente que nos deixou, mais vítimas, também elas crentes, que morreram, e que ficaram gravemente feridas. Dois Judeus, muito desagradados com a situação, acabavam de sair da sinagoga, continuando com a conversa em plena praça, naquela forma muito sui géneris, que lhes é característica. Ao passar por um casal muçulmano, que seguia com os seus filhos, um deles lhes apontou um dedo e disse: “É vossa culpa. A culpa é toda vossa!” Não foi preciso muito para o muçulmano repostar: “Olhe meu caro, deixe o ódio onde ele está, a muitos quilómetros daqui, e viva. Esconda sua ira numa caixinha e deite-a para correr no Rhône. O ódio a quem de direito.”<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Barril de pólvora<br /><br />Três estudantes universitários encontravam-se em plena Place De L’Horloge, após exaustiva semana de pesquisas históricas. Por acumulação, a conversa decorria acerca do trabalho realizado, este tinha como base o Médio Oriente e todas as suas consequências históricas. O cansaço tomava conta dos três seres . A rapariga era judia. Um rapaz muçulmano, o outro católico. Era um trabalho conjunto que lhes dava algum gozo. O óbvio acaba sempre por acontecer, principalmente quando se trata de algo de absoluta fragilidade. O jovem muçulmano dizia: “Não se pode estar eternamente a acusar o povo palestiniano. Razões históricas permitem-me afirmar que afinal de contas, naquela região, sua presença perde-se com a noite dos tempos. É uma causa assente!”; o jovem católico remata: “Mas a actualidade permite essa mesma vida em comum, na mais pura das desconfianças. Tudo é permanente naquela terra, a guerra, o terror, os traumas históricos. Ninguém dá o braço a torcer. São muitos cães para um osso.” A jovem judia interrompe: “Têm todos muita razão. Agora, acabámos o trabalho, logo, e por favor, não façamos nós também de Avignon, um barril de pólvora, pronto a explodir!”<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Cada vez mais iguais<br /><br />Sócrates e o seu mais famoso discípulo, Platão, estacionaram a algum tempo atrás, em pleno Avignon. Como se sabe, o método de Sócrates é o método da observação. Como em Atenas, o local escolhido fora exactamente o ponto nevrálgico da cidade, neste caso, na Place du Palais. Platão divertia-se bem mais do que o seu Mestre, e tentava tirar proveito de tudo aquilo que se encontrava à sua frente. O magnífico largo, onde se encontravam as incógnitas personagens, mostrava que todas as palavras de seu Mestre, durante a antiguidade, permaneciam tão actuais como o próprio tempo. Todos os seres, homens e mulheres, demonstravam aquele mesmo eterno adormecimento perante as causas do mundo, como acontecia na velha Atenas. O mesmo luxo, as mesmas riquezas, os mesmos sorrisos a disfarçar os olhares tristes da manipulação terrena. Sócrates, tinha o mesmo ar melancólico que o caracterizara, Platão, mais jovial, remetia a seu Mestre sempre as mesmas palavras: “É mesmo isso que dizias! É mesmo isso! Para quem olha e vê, é mesmo isso! Primeiro nós e depois o mundo. É como se o mundo se tivesse tornado uma gigantesca Atenas. E este Palácio? O Homem realmente quer atingir o Céu em plena Terra. É como tu dizias: seremos sempre os mesmos, seremos sempre iguais, os mesmos vícios, a mesma vontade de sermos mais do que na realidade somos. Está aqui tudo à nossa volta. Está tudo perante os nossos olhos. Seremos para sempre iguais a nós próprios!”. Sócrates olha para o seu discípulo e responde com a sua reconhecida ironia: “Sinto que estás enganado. O que eu vejo é que cada vez estamos mais iguais a nós próprios!”<br />O Paradoxo de Sísifo<br /><br />Sísifo, cansado de estar sempre a tentar rolar o rochedo para o cume da montanha, tirou umas férias, o mesmo é dizer que deixara o trabalho a meio, e foi acampar para a Île de La Barthelasse. Montou a tenda, arrumou a sua trouxa, e foi finalmente passear, para ver se relaxava do seu eterno esforço. Atravessou, então, a Pont Edouard Daladier, e dirigia-se para o Centre Ville. Parou um pouco para observar os patos que dançavam livremente ao ritmo do Rhône. Olhou para a ponte de Saint Benezet e pensou que talvez quem a estava a fazer, também deixara o trabalho a meio. Quem sabe, talvez fosse lei no mundo, já que se encontrava bastante afastado da realidade social. Seguiu em direcção do ex-libris da cidade, entrou na Porte de L’Oulle, Place Crillon. Um jovem se aproxima e pede-lhe: “Bom dia, tens uma moeda?”. Ele responde prontamente “Não, por acaso não!”, o jovem volta: “E um cigarro?”. “Não, <br />não fumo!”. Desiludido, o jovem afasta-se de Sísifo continuando o seu caminho. Sísifo continuou também o seu, longe de qualquer vago pensamento. Joseph Vernet, St. Agricol. Aí, duas senhoras lhe pedem dinheiro. “Não, não tenho. Desculpem.” De seguida, um outro jovem lhe pede tabaco: “Um cigarro?”, “Não, não fumo..:”, “Uma moeda, talvez?”, “Nem isso..:”. Deu mais uns passos. Place de L’Horloge. O mesmo de sempre. “Não, por favor, não tenho! Isso também não!”. Assustado, desce a Rue de La République. Passo sim, passo não, o inevitável continua: “Não, por favor, não tenho nada!”, “Não, não, não!”. Pensou que isto era de loucos. “Afinal, porque pensei eu em vir descansar?”. Perguntou o caminho de volta, seguiu as indicações para o parque de campismo e correu, correu até chegar ao seu exacto ponto de partida. Tirou as suas coisas da tenda, arrumou a tenda e foi-se embora, de volta à montanha, de volta ao rochedo. Não viu quaisquer diferenças no seu Paradoxo e na vida real.<br />   <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Vigílias Nocturnas<br /><br />Terminado o enterro de Jean Gerald, seus amigos afundavam as mágoas num café da Avenue de La Folie. As recordações eram mais que muitas. O amigo ido, era-lhes deveras querido. Um homem de bem, daqueles que deixam uma tortuosa lembrança para quem fica. Muito vaga é a vida e seus azares. Quem mais se poderá queixar do que a viúva?, essa sim , com razões mais do que suficientes para temer o seu futuro, se é que se pode chamar futuro, remar contra a maré sem aquela pessoa que tanto se ama. Mas lá está, o humor de J. G. Era infinito como o tempo. De tudo arranjava uma piada qualquer. “Qual é a tua profissão?”, “Faço vigílias nocturnas!”, “Sim, a quem?”, “Ao meu patrão, sou guarda nocturno!”. Tão estúpida fora a sua morte, que até custa contar: à saída de suas funções, logo pela manhã, atordoado pelo cansaço de quem praticamente, nada faz, e com o sono pelo meio, saiu do edifício, escorregou num excremento canino daqueles frescos e fáceis de encontrar, pastinha para um lado, corpo para outro, cabeça contra o poste eléctrico que, talvez por obra do Diabo, fora ali colocado. Traumatismo craniano, corte profundo, hospital e Adeus amigos. Um desses amigos dizia aos outros: &quot;Acho que sim..., devíamos de fazer um vigília nocturna!”, “Então para quê? A quem?”, “À causa da sua morte, aos presentes espalhados pelo chão, que são muitos. Sempre frescos, tão frescos como o orvalho da manhã. Velinhas à volta deles. Sim, seria a mais bela homenagem ao nosso amigo!”. Há muita coisa que por mais estúpida que possa parecer, é, mesmo assim, estúpida o bastante para que algo ainda mais estúpido possa acontecer.</div>]]></description>
               </item>
      <item>
         <title>A linha invisível do pensamento</title>
         <link>http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3c_a_linha_invis%C3%ADvel_do_pensamento</link>
         <pubDate>Tue, 18 Mar 2008 03:12:10 +0000</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://www.last.fm/user/Hermes3megisto/journal/2008/03/18/giv3c_a_linha_invis%C3%ADvel_do_pensamento</guid>
         <description><![CDATA[<div class="bbcode">A Linha Invisível do Pensamento<br /><br /><br /><br />&quot;Não há nada que não possamos pedir a Deus, que não tenha já sido entregue a outrém por engano.&quot;<br /><br />&quot;A miséria refugia-se no submundo do nada qual miserável componente do vazio.&quot;<br /><br />&quot;O Medo desperta-nos a atenção que falta para o sabermos reconhecer.&quot;<br /><br />&quot;No momento que encobrimos as verdades descobrimos que a mentira bateu-nos à porta.&quot;<br /><br />&quot;Um Segundo é exactamente o espaço de Tempo que existe entre uma ideia genial e um disparate abismal.&quot;<br /><br />&quot;É exactamente no momento em que julgamos que temos os pés bem assentes na Terra que descobrimos o planar no ar.&quot;<br /><br />&quot;A Vida é feita de grandes coisas, pequenos nadas e capacidade de sobrevivência.&quot;<br /><br />&quot;O conteúdo das poupanças de toda uma vida de trabalho, luta e sofrimento, só será mexido no dia do nosso funeral.&quot;<br /><br />&quot;A capacidade de enganar o próximo é exactamente igual à capacidade de ser enganado por ele.&quot;<br /><br />&quot;A Vida tal como a conhecemos resume-se a dois pontos de vista totalmente distintos entre si: o nosso e o dos outros!&quot;<br /><br />&quot;A única condição para nos sentirmos vivos é não termos morrido ainda.&quot;<br /><br />&quot;O mais sóbrio dos seres humanos não fala, não ouve e não vê, muito possivelmente nem sequer nasceu ainda.&quot;<br /><br />&quot;Compreendemos o triunfo da agonia no momento em que temos vontade de rir sem sabermos muito bem porquê.&quot;<br /><br />&quot;A Vida é um espaço ao ar livre onde tudo existe e nada parece ser.&quot;<br /><br />&quot;Necessário é compreendermos muito bem o Mal para percebermos que o Bem é possível.&quot;<br /><br />&quot;A Revolta dá-se no momento em que se tem vontade e não se consegue fazer.&quot;<br /><br />&quot;Só acreditamos que a Teoria da Conspiração é real, quando nos encontramos no meio dela.&quot;<br /><br />&quot;Um homem feliz é aquele que já nada tem para perder, que a motivação de vida é zero e ainda assim consegue esboçar um sorriso.&quot;<br /><br />&quot;Quer queiramos quer não, só nos podemos sentir realizados se podermos usufruir da nossa vitória.&quot;<br /><br />&quot;A amizade é: receber um beijo, dar um abraço e fechar o caixão.&quot;<br /><br />&quot;Descarregar a mágoa, descarregar o ser, saber estar vivo e saber morrer, eis as condições da alma encarnada.&quot;<br /><br />&quot;O Bom caminho é aquele que jamais seguiremos, jamais encontraremos e onde ninguém nos vai procurar.&quot;<br /><br />&quot;O interessante do nosso julgo é pensarmos que alguém liga ao que nós julgamos. O desinteressante é que nos estão sempre a pedir a opinião.&quot;<br /><br />&quot;A parte boa dos testes é aquele espaço de tempo entre o fim destes e os respectivos resultados.&quot;<br /><br />&quot;Quanto maior for a subdivisão da ciência maior a probabilidade de tornar o próximo como que um ignorante na matéria.&quot;<br /><br />&quot;Aceitamos o mal dos outros, os erros dos outros, as falhas dos outros, os extremos dos outros, a ignorância dos outros, mas jamais aceitaremos os outros tal como os outros são.&quot;<br /><br />&quot;Num mundo feito de Mistérios quem abre a boca engasga-se.&quot;<br /><br />&quot;Os atributos de um grande homem são: Nascer, trabalhar e morrer. E se possível deixar o suficiente para os outros não fazerem nada.&quot;<br /><br />&quot;O trilho que nós criamos durante toda a nossa vida, será apagado pelo primeiro otário que nos invejar.&quot;<br /><br />&quot;A vida é um eterno paradoxo: nasce-se para morrer e morre-se porque se nasceu.&quot;<br /><br />&quot;O teu grande Dom além de respirares e de pensar, é teres vários números, uma identidade, família, amigos, religião, clube de futebol, e finalmente ainda não saberes quem és!&quot;<br /><br />&quot;O primeiro grande disparate que um ser humano faz na vida é chorar ao nascer..., mas não fosse assim e jamais teriam pena de nós.&quot;<br /><br />&quot;A inteligência é o inverso da disciplina: queremos tê-la mas não queremos que os outros a tenham.&quot;<br /><br />&quot;O Poder desde sempre exerceu um grande fascínio sobre o homem. É na parte biológica que passamos as maiores vergonhas na vida.&quot;<br /><br />&quot;Se quiseres saber o conteúdo da tua caixa de pecados, pergunta a um amigo, divide por dois, lima as tuas arestas e verificarás que andas a roçar a santidade!&quot;<br /><br />&quot;Os Subúrbios são o Centro da Cidade, mas no sentido Inverso.&quot;<br /><br />&quot;Certo e sabido que a maior parte daquilo que o Homem aprende é com a Natureza. Pior seria se a Natureza aprendesse com o Homem.&quot;<br /><br />&quot;A Vida é um acto contínuo  constituído de desespero e de correntes.&quot;<br /><br />&quot;O Progresso Humano é aquela forma arbitrária que escolhemos de cada vez mais no Tempo, andarmos a perder cada vez menos Tempo.&quot;<br /><br />O Homem é realmente um ser singular e individual: cada um é feito daquela massa que os outros o julgam.&quot;<br /><br />&quot;Andamos a meter andaimes no globo, a tentar acabar com as fissuras e a darmos uma pintadela de novo, para disfarçar as nossas asneiras. Agora é esperar que os andaimes aguentem.&quot;<br /><br />&quot;Cada vez sentimo-nos menos seguros sozinhos no Universo. Há que procurar outros seres inteligentes algures no cosmos para finalmente passarmos o testemunho da culpa das nossas asneiras a outras gentes. Se aceitarem o testemunho, é porque serão menos inteligentes do que nós, mas convém sacudir a água do nosso capote.&quot;<br /><br />&quot;Há alturas na vida de um homem que só apetece sentir-se ébrio. É quando está sóbrio e vê as notícias.&quot;<br /><br />&quot;O Caos, não passa de uma teoria. Uma Teoria, não passa de uma forma caótica de tentar demonstrar algo desnecessário a alguém.&quot;<br /><br />&quot;O Fim é algo muito utópico de se conseguir, pois ao reconhecermos o fim do que quer que seja é que já estamos a começar outra coisa qualquer, nem que seja um comentário final.&quot;<br /><br />&quot;Perdemos todo o propósito da Vida em conjunto. Andamos a perder o propósito da vida individual. Parece que todos andamos por aqui propositadamente às turras uns com os outros.&quot;<br /><br />&quot;A Lei da Oferta e da Procura é realmente uma ideia genial: procuramos sempre pelo emprego que ninguém nos oferece.&quot;<br /><br />&quot;O maior trauma de infância é acabarmos a vida e termos nos sentido os mais inúteis seres do mundo e termos nos esquecido dos outros. O maior trauma de velhice é termos feito tudo e mais alguma coisa pelos outros e acabamos a perceber que nos esquecemos de nós.&quot;<br /><br /><br />&quot;A Felicidade abre-nos a porta da Alegria mas fecha-nos a porta da Inteligência.&quot;<br /><br />&quot;Sobre quem nos comanda jamais teremos certezas, sobre quem comandamos, jamais conheceremos profundamente. E ainda duvidamos do tempo que se perde a pensar nisso.&quot;<br /><br />&quot;A Filosofia da Liberdade é podermos nos expressar da forma mais errada e mais chocante possível, sem que nos venham pedir dividendos.&quot;<br /><br />&quot;A Humanidade vive em plena paz civilizacional: uma guerra não prejudica a outra.&quot;<br /><br />&quot;Todos sabemos que colhemos o fruto do nosso trabalho, durante uma vida inteira. Convém, no entanto, não esquecermos de o regar.&quot;<br /><br />&quot;O Casamento já não é um título eterno. É algo que o casal faz quando já não sabe o que discutir.&quot;<br /><br />&quot;Nunca se deve discutir sobre o que se sabe. Ao fazermos estamos a meter em conflito as nossas certezas e as nossas dúvidas mais pessoais.&quot;<br /><br />&quot;O Último Documento para assinar, é aquele que nos deixa mais feliz, que nos deixa mais descansado, e que jamais lemos o que estava escrito.&quot;<br /><br />&quot;Um Comício Político e algo onde está um ser a falar do que não sabe, em alta voz, para uma multidão de gente que não se importa com aquilo que ele sabe ou que ele pensa. É um futuro brilhante pois um só tem de acreditar no que diz e os outros só têm de bater palmas no fim.&quot;<br /><br />&quot;O desgosto é algo que se aprende a viver com. É a única coisa que nos faz seguir em frente.&quot;<br /><br />&quot;A Criatividade de um artista, depende da opinião e imaginação de um qualquer crítico de ver algo onde nada existe, para lá da criatividade do próprio artista.&quot;<br /><br />&quot;O Fim do mundo, é o lado apressado do ser humano de alcançar uma prova material da morte e ainda ter tempo de assinar o papel.&quot; <br /><br />&quot;A Gravidade é realmente algo muito grave: é chato percebermos que aquilo que nos prende à terra aleija tanto.&quot;<br /><br />&quot;A queda de Adão não é nada que não passe uma vez na vida de um homem: fazer os mais diversos disparates por causa de uma mulher. Quem não tem telhados de vidro que atire a primeira pedra.&quot;<br /><br />&quot;O Resultado final de uma Equação errada, é o desperdício de tempo perdido que levamos ao tentarmos provar que os apontamentos estavam correctos.&quot;<br /><br />&quot;Temos por hábito em sublinhar uma frase que sabemos que ninguém a vai ler, que ninguém se vai interessar por ela, que está sempre na parte desinteressante do livro, etc. Se calhar é por isso mesmo que sublinhamos: por vergonha! Uma última tentativa de avisar o próximo de: não leia isto que eu já li e não vale a pena ler de novo!&quot;<br /><br />&quot;O resultado final de uma pesquisa milionária é invariavelmente sempre o mesmo: chegar ao triste resultado de que se gastou imenso dinheiro por nada!&quot;<br /><br />&quot;A Ciência tenta pôr em prática aquilo que a Religião não pode. A Religião tenta pôr no espírito aquilo que a Ciência não consegue. Elas tentam provar uma à outra que estão correctas. No meio estamos nós a ver o filme sem intervalo para comerciais.&quot;<br /><br />&quot;A melhor sensação da nossa vida é fazer algo que não podemos fazer, num local impossível de o fazer, chamarmos a atenção de quem não devemos, sermos postos na rua e nunca mais alguém ouvir falar no assunto!&quot;<br /><br />&quot;Um ser inconsciente é aquele que faz algo conscientemente e que bate exactamente na inconsciência dos outros!&quot;<br /><br />&quot;O sexo é sempre relativo. Um homem tem o que falta à mulher para que esta tenha aquilo que ele não consegue por si só fazer.&quot;<br /><br />&quot;O Amor é ainda mais relativo. O homem dá à mulher tudo aquilo que mais lhe aborrece, e esta recebe da pior maneira possível.&quot;<br /><br />&quot;O enquadramento social é algo vital para o humano moderno. Todos queremos ser algo no local errado, onde jamais deveríamos ter entrado.&quot;<br /><br />&quot;A Calamidade é quando acontece algo que nos faz pensar sobre nossa existência, e que aumenta a nossa capacidade de entreajuda e compaixão. Calamidade é algo que jamais aconteceu antes...&quot;<br /><br />&quot;Um Hipermercado é onde se junta mais gente de diversas classes sociais, maneiras de ser e de estar na vida. Um Hipermercado é um Templo Sagrado.&quot;<br /><br />&quot;A maioridade atinge-se quando: Deixamos de fazer aquilo que queremos, começamos a fazer aquilo que não queremos, e passamos a fazer o papel de uma pessoa totalmente distinta daquela que nós somos para que possamos agradar a quem na realidade, não nos interessa.&quot;<br /><br />&quot;Cair no erro várias vezes, é sempre muito fácil para qualquer ser humano, principalmente se o erro não for dele.&quot;<br /><br />&quot;Quando dizemos &quot;Amo-te!&quot;, temos de pensar seriamente em três coisas: aquilo que estamos a dizer, aquilo que a outra pessoa quer ouvir dizer naquele momento, e adiar o mais possível o tal jantar com a nossa família...!&quot;<br /><br />&quot;O Treinador é aquele cérebro dentro da equipa que provoca todo o alinhamento de cada jogo da nossa equipa. Na vida real, as mulheres andam a treinar-nos à muito tempo sem que o perceba-mos.&quot;<br /><br />&quot;O Trivial é algo quotidiano, que nos deixa satisfeitos, e que prometemos para nunca mais.&quot;<br /><br />&quot;Existem três razões para que nós vejamos em nossos filhos, os filhos mais lindos do mundo: porque neles vemos a nossa esperança, a nossa frustração e a nossa vontade de voltar atrás.&quot;<br /><br />&quot;O Equilíbrio é algo que se perde com a idade, o saber é algo que se vai adquirindo. Convém portanto saber alguma coisa enquanto se têm algum equilíbrio.&quot;<br /><br />&quot;A nossa última esperança é quando já não temos esperança de nada e algo nos é dado gratuitamente.&quot;<br /><br />&quot;O Princípio só existe porque há algo a terminar.&quot;<br />&quot;O temperamento de cada um depende do Sal que tenhamos em relação ao trabalho, e da Pimenta resultante do nosso Amor.&quot;<br /><br />&quot;A Magna Obra do Universo, trata-se de um plano infinito com um globo no meio, onde nós nos inserimos.&quot;<br /><br />&quot;As nossas Questões Existenciais serão sempre as mesmas, permanecerão sempre as mesmas, até que chegue o dia em que tenhamos a coragem de as modificar. Mas isso serão outras questões.&quot;<br /><br />&quot;Muita coisa aturamos durante toda a nossa vida, os nossos vários humores, os nossos vários amores e ainda temos de aturar-nos a nós próprios, o que está cada vez mais difícil de alcançar.&quot;<br /><br />&quot;O Inferno são umas correntes que adquirimos ao longo da vida a fazer o que não queremos com quem nunca sonhámos fazer, e ainda por cima somos pagos para isso.&quot;<br /><br />&quot;O Comediante é aquela triste personagem que faz rir aquele que não tem vontade nenhuma de o fazer.&quot;<br /><br />&quot;Um Cientista consciente e sóbrio jamais aplica as suas teorias em terreno alheio, não vá ele estar correcto...&quot;<br /><br />&quot;Um Actor é aquele que faz o papel de quem não é, age como não deve agir e que ainda tem tempo para si próprio.&quot;<br /><br />&quot;A Gnose é o Conhecimento que temos por aquilo que pouco ou nada interessa saber.&quot;<br /><br />&quot;A Anarquia é um sistema que consiste em negar por duas vezes algo que ainda se vai negar uma terceira.&quot;<br /><br />&quot;O Rei é aquele Homem que pode comer e beber sem que alguém tenha de pedir a conta. O Presidente da República é aquele que come e que bebe às custas das nossas contas.&quot;<br /><br />&quot;Todos nós gostamos de nos encontrarmos na dianteira de qualquer pelotão! Qual de nós não gosta de sentir que os outros andam atrás às nossas custas?&quot;<br />&quot;A Intuição é o acto de percebermos onde está a Verdade sem que nos tenham dito.&quot;<br /><br />&quot;Sermos humanos e não sabermos quem somos pode ser considerado um Dom. Pior seria se fôssemos cães e não soubéssemos onde teríamos escondido o osso.&quot;<br /><br />&quot;Nós, Humanos, temos a grande curiosidade de nos apaixonarmos pelas circunstâncias mais esquisitas da nossa existência. Estranho mesmo é nunca nos conseguirmos apaixonar pelo nosso grande Amor.&quot;<br /><br />&quot;A nossa viagem de sonho é aquela que será estragada por um telefonema, por uma má companhia e que culminará em termos descoberto a nossa falência no acto de pagamento.&quot;<br /><br />&quot;Quando somos miúdos insistimos que somos adultos, quando somo adultos fazemos tudo para não nos lembrar disso, quando finalmente nos damos conta que nos tornámos velhos, percebemos que jamais deixamos de ser miúdos.&quot;<br /><br />&quot;Quando somos pequenos na flor da vida, fazemos das papas larvas e não queremos mais, mas quando chegamos ao fim da vida, as larvas fazem de nós papas e nem sequer reclamamos!&quot;<br /><br />&quot;Há duas questões essenciais para que nós sejamos artistas: que façamos arte, e que tenhamos a paciência que nos ignorem.&quot;<br /><br />&quot;O Escritor Rico, escreve até ao fim da folha; o Escritor Pobre, escreve até ao fim da tinta da caneta.&quot;<br /><br />&quot;O Receio é algo que se encontra entre a Dúvida de Ter e a vontade de Não Querer.&quot;<br /><br />&quot;Algo de muito útil que poderemos retirar do teorema de Pitágoras, é que o quadrado do nosso destino resulta da soma do quadrado das asneiras praticadas durante a vida inteira.&quot; <br /><br />&quot;A única saída profissional que nós vemos de certeza na nossa vida, é o toque de saída. Seja ele onde for.&quot;<br /><br />&quot;Gostamos de nos questionar sobre as mais diversas idiotices que praticamos. Mas ainda gostamos mais de nos questionar sobre as idiotices que não fizemos ainda.&quot;<br /><br />&quot;Aquilo que eu gostaria que tu fizesses, e para te ser muito sincero, era algo que eu não conseguisse fazer de maneira nenhuma.&quot;<br /><br />&quot;O Recheio  de uma casa de família é inversamente proporcional ao valor que a família dá à vida.&quot;<br /><br />&quot;A Bruxaria é algo que não existe certamente, mas mesmo assim eu quero ser enterrado em local desconhecido, não me vão obrigar a cá voltar.&quot;<br /><br />&quot;O Cumprimento de um Dever resume-se a algo que se faz quando é obrigatório ser feito.&quot;<br /><br />&quot;Resumir o Universo a uma fórmula matemática: Eis o Domínio dos Deuses, o Busca dos Sábios e o Caminho dos Loucos.&quot;<br /><br />&quot;Afirmarmos uma incerteza é o mesmo que atirarmo-nos à primeira estrangeira que aparecer.&quot;<br /><br />&quot;Aquilo que jamais poderíamos perder seja de que maneira for, dará quando não podermos assistir, quando não nos lembrarmos de ver, mas muito mais facilmente quando não nos disserem nada.&quot;<br /><br />&quot;A melhor terapia comum que o homem pode fazer, é ir assistir a um combate de peso pesados de boxe. É que todos sentem vontade de ir bater, mas ninguém tem coragem de o fazer.&quot;<br /><br />&quot;Ver para crer não significa que a nossa mulher o tenha de fazer à nossa frente para que enfim, acreditemos!!!&quot;<br /><br />&quot;O Problema maior que reina entre nós, saberá sempre prevalecer sobre qualquer solução possível.&quot;<br /><br />&quot;As quatro estações trazem-nos sempre algo de novo: piores programas de televisão, e moda ainda mais horrível que a anterior.&quot;<br /><br />&quot;A Verdadeira lição de moral da história da lebre e da tartaruga é que pode não se alcançar meta nenhuma, mas curte-se sempre muito mais.&quot;<br /><br />&quot;O Crime nunca Compensa, a não ser que nunca se venha a ser descoberto.&quot;<br /><br />&quot;Quantas mais vezes vai o Cântaro à fonte, mais cansados nós nos sentimos de o carregar.&quot;<br /><br />&quot;Ninguém consegue provocar um incêndio com uma pequena fogueira na floresta, a não ser que não o queira provocar.&quot;<br /><br />&quot;Aproveita as estrelas cadentes para pedires os teus desejos mais íntimos, não esperes que as estrelas decadentes o realizem.&quot;<br /><br />&quot;O Acto de Provocar é quando o homem percebe que está com uma mulher com quem jamais irá para a cama.&quot;<br /><br />&quot;Um final feliz é quando alguma coisa acaba de maneira a que não sejamos obrigados a viver o fim dela.&quot;<br /><br />&quot;Alcançarmos um sonho, é chegarmos a um patamar onde nunca imaginamos que fosse tão simples atingir.&quot;<br /><br />&quot;O Resumo final de um jogo, qualquer ele que seja é, o resultado final menos o resultado inicial, sobre a vontade que tivemos em mantermos nos  acordados.&quot;<br /><br />&quot;Eu só sei que nada sei, e mesmo assim tenho dúvidas.&quot;<br /><br />&quot;O Coração de quem sofre não é igual ao Coração de um sofredor. O coração de quem sofre conhece a mágoa e o coração do sofredor não conhece outra coisa.&quot;<br /><br />&quot;A nossa principal tarefa diária é acabarmos o dia sem nos aborrecer.&quot;<br /><br />&quot;Temos por assim dizer, uma montra enorme de alegrias nesta vida, porque raio então acabamos a vida na maior tristeza?&quot;<br /><br />&quot;Pensei que alguém pensava em mim, mas quando acordei de pensar estava-me a ver ao espelho&quot;<br /><br />&quot;Trituremos nós nossos neurónios pois a varinha mágica não chega lá.&quot;<br /><br />&quot;Ter Medo é querer estar longe de algo sem saber muito bem por quê. Ter Pavor é ainda sabermos menos quais as razões do nosso Medo.&quot;<br /><br />&quot;Estarmos traumatizados, é quando ficamos com algo que nos correu mal, na memória, e sofremos com isso durante toda a nossa vida. Mesmo que nos esqueçamos.&quot; <br /><br />&quot;Terapia de grupo é quando se junta um grupo de pessoas com os mesmos problemas, as mesmas histórias, os mesmos defeitos e virtudes, conscientes de que nem assim se vão curar.&quot;<br /><br />&quot;Se o Ser Humano se julga tão superiormente inteligente, como explica ele que as formigas se dêem tão bem?&quot;<br /><br />&quot;A Vida são dois dias. Temos é pelo meio alguns fins de semana prolongados...&quot;<br /><br />&quot;Deturpar um facto é ter a genial capacidade de se enganar a si próprio.&quot;<br /><br />&quot;A Principal razão de nos pormos a mexer quando acontece alguma Confusão, é não termos tido a capacidade de pressentir a coisa para que tivéssemos saído antes.&quot;<br /><br />&quot;O Fim do Mundo fica exactamente no mesmo sítio onde o Mundo começa, mas visto de uma perspectiva diferente...&quot;<br /><br />&quot;Hoje sabemos que a maioria dos problemas que o ser humano enfrenta foi causado por ele mesmo. Podemos começar a partir os espelhos...&quot;<br /><br />&quot;O Conteúdo de uma Caixa de Segredos é a diferença de tudo o que se encontra cá fora e aquilo que se encontra dentro da caixa..., excepto a chave.&quot;<br /><br />&quot;Uma Mentira é uma Verdade geometricamente alterada de forma à peça caber com exactidão no buraco que falta à nossa história.&quot;<br /><br />&quot;Uma Infeliz coincidência é aquilo que só desejamos que aconteça bem longe de nós.&quot;<br /><br />&quot;Um Lar feliz é uma casa onde há Paz, Pão e que se encontra vazia.&quot;<br />&quot;Eu só sei que nada sei, e mesmo assim tenho as minhas dúvidas.&quot;<br /><br />&quot;O tempero correcto para aquele jantar feito com as nossas próprias mãos, à luz das velas e com aquela pessoa que verdadeiramente gostamos, é exactamente aquele que esquecemos de comprar no supermercado.&quot;<br /><br />&quot;O Consumismo faz de sim alguém que você não é. Consuma com moderação!&quot;<br /><br />&quot;Diga Não em vez de dizer Sim, se precisar de ser o centro das atenções.&quot;<br /><br />&quot;Temos dois dias para mudar de Vida. E após termos mudado a vida, temos dois dias para chegar à conclusão que erramos...&quot;<br /><br />&quot;Quem perde Tempo do Tempo falando, diz palavras vãs pelo vento voando...&quot;<br /><br />&quot;O Homem é um Kit barato que se monta a si próprio.&quot;<br /><br />&quot;A Desgraça alheia dada, não se deve ver os dentes que a morderam.&quot;<br /><br />&quot;Graças a Deus, sou Ateu.&quot;<br /><br />&quot;O Título de qualquer livro, não passa de um Comentário Final escrito pelo próprio autor.&quot;<br /><br />&quot;A Saudade é a lembrança do que está esquecido.&quot;<br /><br />&quot;Já fui visitar o Céu e já desci ao Inferno, e nunca lá vi ninguém.&quot;<br /><br />&quot;Nós  só nos aturamos até que não nos conheçamos.&quot;<br /><br />&quot;O Sal, é aquele Cristal que nos lembra que a Vida também se evapora.&quot;<br /><br />&quot;Não insistas em chamá-lo para dentro. Se queres que o teu gato entre, encosta a porta.&quot;<br /><br />&quot;O Triângulo é uma figura bidimensional constituída por três lados, de costas viradas uns aos outros.&quot;<br />&quot; A Natureza deu ao Mundo uma máscara bonita para nos esconder a Verdade.&quot;<br /><br />&quot;Há menos pegadas no meu Paraíso do que pés assentes no teu.&quot;<br /><br />&quot;Toda a Verdade está necessariamente encoberta para que a possamos procurar, desvendar, e finalmente esquece-la ...!&quot;<br /><br />&quot;Sei que te amo, que jamais sais do meu pensamento, que farei tudo por ti. Posso saber então, quem tu és?&quot;<br /><br />&quot;A Saudade é olhar o Hoje no Futuro.&quot; <br /><br />&quot;Todos os Caminhos vão dar a Roma..., com um pouco de imaginação.&quot;<br /><br />&quot;Quando estiveres em frente de uma mulher, sentires o coração bater forte, entreolharem-se com aquele brilho, saberes que a conheces mas não sabes de onde, já sabes: sucedeu o Encontro Fatal!!! Evita-o desde logo.&quot;<br /><br />&quot;Encontramos todas as respostas deste mundo quando as perguntas não são para nós.&quot;<br /><br />&quot;Mau Feitio: é aquilo que os outros têm e é diferente do nosso.&quot;<br /><br />&quot;Não importa para onde nos viremos, teremos sempre dois lados: o lado de dentro e o lado de fora.&quot;<br /><br />&quot;Acredito em ti amor. Somos realmente bem diferentes um do outro. De qualquer das maneiras, ainda bem.&quot; <br /><br />&quot;A Chapada Conjugal, foi a maneira que o homem descobriu para ter a roupa sempre passada a ferro.&quot;<br /><br />&quot;Quando o Amor nos bate à Porta, descobrimos de trancámos a porta e esquecemos onde colocámos a chave.&quot;<br /><br />&quot;O coração é como o telemóvel: metemo-lo em qualquer lugar sem pensar que alguém o vai roubar. E há sempre alguém que joga a mão a um coração abandonado.&quot;<br /><br />&quot;A Dor é como o Sol: Quando nasce, nasce para todos um pouco.&quot;<br /><br />&quot;Rezar é para dizer Adeus.&quot;<br /><br />&quot;A Saudade é olhar o Hoje no Amanhã, como se fosse Ontem.&quot;<br /><br />&quot;A Vida é feita de um grande número de pequenas coisas.&quot;<br /><br />&quot;Quando se faz algo por pressão nada acontece, se fazes com o coração, até o podre apodrece.&quot;<br /><br />&quot;Dois grandes defeitos individuais juntos, fazem um defeito maior ainda.&quot;<br /><br />&quot;Uma queda mal amparada é uma queda magoada.&quot;<br /><br />&quot;É mais fácil eu mudar o mundo do que mudar a imagem que dou ao mundo.&quot;<br /><br />&quot;A preocupação não nos leva a lado nenhum. É uma espécie de greve nos transportes, mas no prisma dos transportes.&quot;<br /><br />&quot;Eu sou o complemento directo da tua ambição de seres quem não és e de me tratares como quem eu não sou&quot;<br /><br />&quot;O Momento da sensibilidade humana entre nós, começa quando nascemos e acaba quando morremos..., tirando todo o miolo do meio do nosso pão.&quot;<br /><br />&quot;O Fim só existe porque alguém inventou um Princípio por acabar.&quot;<br /><br />&quot;Descrever o vazio, é, além de difícil, necessário para sabermos descrever o outro lado...&quot;<br /><br />&quot;O Amor é algo imaterial que agarra duas pessoas completamente diferentes uma à outra, de forma a torná-las infelizes para o resto de suas vidas.&quot;<br /><br />&quot;Nós no fim, havemos de dar contas à vida. E percebermos que a &quot;loucura&quot; é uma forma admirável de entender a Vida com Sabedoria. Que seria viver no Paraíso, se o Homem não conhecesse o Inferno?&quot;<br /><br />&quot;Amar-te-ei para todo o sempre, levar-te-ei para uma ilha deserta no Índico, e seremos felizes para todo o sempre, até que uma Tsunami nos separe.&quot;<br /><br />&quot;Grandes são as virtudes que quem espera e não desespera.&quot;<br /><br />&quot;95% da população mundial tem a alma à venda. Os restantes 5%, a cabeça a prémio...&quot;<br /><br />&quot;Eu não sou pessimista. Sinto-me optimamente bem em observar que nos andamos a destruir aos poucos.&quot;<br /><br />&quot;Tenho a certeza que um dia alguém irá chegar em frente ao espelho e dizer: não me lembro de ter estado aqui ontem...!&quot;<br /><br />&quot;a alienação dos verdadeiros problemas da humanidade, provoca a sensação de felicidade a qualquer estúpido...&quot;<br /><br />“a vida é para toda a gente e toda a gente passa por pedacinhos iguais da vida de outro qualquer que um dia pensou em e escreveu sobre”<br /><br />“Deus fez o Homem à imagem d’Ele. O Homem, pensou, pensou e não quis ficar atrás. Assim o Homem resolveu fazer um Deus à sua própria imagem…”<br /><br />“Todos aqueles que em Missão ao Inferno vão, para toda a Eternidade no Céu ficarão”<br /><br />&quot;Olhar para o espelho e não se ver ninguém é como andar à chuva num dia de Sol&quot;<br /><br />&quot;Num mundo inglório, a vã glória momentânea a que resolvemos chamar de Fama, não passa de uma cíclica decadência que nos levará à morte, mais cedo do que ela, a morte, esperava&quot;</div>]]></description>
               </item>
   </channel>
</rss>